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17 de agosto de 2010

Harakiri?


A Comissão Turkel, em Israel (sobre os eventos da Flotilha da Paz)

14/08/2010, Uri Avnery, Gush Shalom [Bloco da Paz], Israel

Traduzido pelo Coletivo de tradutores Vila Vudu para a Rede Castorphoto


Se Deus assim o desejar, vassoura vira espingarda – foi o que escrevi logo depois de constituída a Comissão Turkel[1][1]. Citava um dito popular judeu, na esperança de que, contra todas as possibilidades, alguma coisa resultasse do trabalho daquela comissão.

A verdade é que a Comissão Turkel foi concebida em pecado. Nenhum dos indicados para constituí-la tinha qualquer interesse em descobrir coisa alguma. O seu único interesse era impedir que se instalasse uma comissão internacional de inquérito ou uma Comissão de Inquérito Oficial do Estado de Israel, para investigar o ataque à Flotilha da Paz e o bloqueio de Gaza. Os "termos de referência" foram impostos à Comissão e são extremamente estreitos. Na versão inicial, a Comissão tinha poderes para convidar, mas não tinha poderes para exigir que as testemunhas convidadas se apresentassem.

Em resumo: uma comissão de investigação constituída para não investigar, vassoura feita para não varrer.

Mas sempre esperei que os membros da comissão não aceitassem tão facilmente dançar pela música do governo Netanyahu. Ainda é cedo para saber, mas parece que a Comissão não rebentará as cadeias que a prendem.

Essa semana, depois dos depoimentos das três testemunhas principais – Binyamin Netanyahu, Ehud Barak e Gabi Ashkenazi – pode-se tirar uma primeira conclusão: a comissão não se deixou limitar pelos termos de referência que lhe foram impostos. Os termos de referência foram ignorados. A comissão praticamente não fez qualquer ligação entre os fatos que lhe cabe investigar e a legislação internacional. Quanto ao resto, houve de tudo.

Não foi difícil, porque as três testemunhas encarregaram-se de ignorar completamente os termos de referência que elas mesmas inventaram. Os três se dedicaram empenhadamente, apenas, a demonstrar que cada um sempre agiu mais acertada e sabiamente que os outros. E, assim, rapidamente, todos esqueceram o objeto real que a Comissão deveria investigar.

Um fato, pelo menos, ficou firmemente estabelecido: a comissão não precisará, nunca mais, limitar-se aos termos de referência. (É possível que os termos de referência voltem a ser lembrados no final, no momento de a Comissão redigir as conclusões.)

Interessante também observar como as três testemunhas ouvidas pela Comissão Turkel foram recebidas pela mídia: praticamente toda a imprensa israelense criticou Binyamin Netanyahu e Ehud Barak, tanto quanto glorificou Gabi Ashkenazi.

Netanyahu foi leviano e superficial até a frivolidade. Atribuiu toda a responsabilidade a Barak e não disse coisa com coisa, sequer sobre os fatos conhecidos. Afinal, estava no exterior naquele momento, e o que vocês queriam que ele soubesse? Barak fez tudo absolutamente sozinho e segundo sua pessoal avaliação de momento.

Depois de ferozmente atacado pelos jornais e televisões, Netanyahu convocou rapidamente uma conferência de imprensa e anunciou, grandiloquente, que, sim, assumia, sozinho, toda a responsabilidade por todos os acontecimentos. Barak nada fez. Ele próprio, Netanyahu, não Barak, fez tudo sozinho.

Barak foi mais esperto. Falou infindavelmente, afogou a comissão num dilúvio de detalhes e, sim, sim, assumiu plenamente toda a responsabilidade. No parágrafo final concluiu que não, não, nada teve a ver com os acontecimentos daquela noite e chutou toda a responsabilidade para os militares. O governo, disse ele, decidiu sobre a missão. Mas os militares executaram a missão. Os responsáveis pelo que possa ter saído errado, pois, são os militares. Também foi duramente criticado pelos jornais e televisões.

Gabi Azkhenazi, chefe do comando do Estado-Maior do exército apontou erros na execução da operação, todos cometidos pelos soldados mais rasos da Marinha e dos serviços de inteligência. Ao final, impressionantemente magnânimo, também assumiu a responsabilidade pelos erros dos soldados e marinheiros e espiões dos escalões mais rasos e, sim, se declarou responsável por tudo. Também fez tudo sozinho.

O depoimento de Azkhenazi foi uma obra prima. Surpreendentemente, se mostrou muito mais astuto que os dois experientes políticos. Enquanto os dois exibiram-se como enguias ensaboadas, ocupados, cada um, só com defender a própria pele, Azkhenazi fez-se de urso simpático, simples, honesto, sem sofisticações, um velho soldado, pleno de integridade, que sempre diz a verdade porque não sabe mentir.

Ashkenazi é muito mais matreiro do que parece. Sim, o depoimento foi cuidadosamente ensaiado com seus assessores e conselheiros, mas chefe matreiro sabe selecionar assessores e conselheiros matreiros.

Outra vez se comprovou que, em Israel, a imprensa e, de fato, todo o Estado, são controlados pelo Exército. Frases recebidas com risadas e desconfiança, quando ditas por Netanyahu e Barak, mereceram a mais reverente atenção, quando ditas pelo comandante do Exército. Um coro de admiradores elogiou Ashkenazi nas redes de televisão, pelo rádio e nos jornais. Que homem íntegro! Que perfeito soldado! Que comandante responsável e de alto nível! Se havia alguma diferença entre os porta-vozes do Exército, uniformizados, e os jornalistas militares, à paisana, ninguém viu.

A imagem geral que emergiu dos três principais depoimentos é bem clara: não houve qualquer preparação séria para enfrentar o 'evento' da Flotilha da Paz, por mais que todos soubessem com antecedência de meses que algum plano havia. Tudo foi improvisado, como obra de amadores, na famosa tradição da improvisação em Israel: "confie em mim" e "tudo há de dar certo".

Houve eventos anteriores em que navios de ajuda humanitária só transportavam pacifistas não-violentos. Então, todos deram por resolvido que aconteceria o mesmo com o Mavi Marmara. Ninguém deu atenção aos ativistas turcos, imbuídos de outro tipo de ideologia. Mas, afinal, quem se interessa pelo que turcos pensem?! O glorioso Mossad sequer se deu o trabalho de plantar um espião entre as centenas de pacifistas a bordo do navio.

A operação foi planejada sem qualquer atenção, sem inteligência, sem análise de alternativas, sem avaliar a possibilidade de cenários potencialmente perigosos. Fato é que ninguém precisa ser profeta, para saber que ativistas turcos, cheios de fervor religioso, poderiam estar também a bordo – e a bordo de um navio turco! –, e poderiam irritar-se muitíssimo ao ver um barco (turco e carregado de pacifistas e material de ajuda humanitária para Gaza) ser abordado em águas internacionais por soldados israelenses. Que surpresa!

Conclusão? O comandante do Exército concluiu sem hesitar: da próxima vez, o Exército usará atiradores para "conter" quem esteja no convés (ou "os atacantes", na linguagem dos comentaristas militares) e dar cobertura aos soldados que descem dos helicópteros.

Dado que Netanyahu e Barak empurraram toda a responsabilidade para os militares, e Ashkenazi reconheceu os erros de planejamento e execução, resta uma questão de ordem prática: como a Comissão Turkel conseguirá investigar alguma coisa, se a Comissão não tem poderes para convocar o pessoal militar?

Para contornar o problema, o comandante do Exército jogou dois ossos para a Comissão roer: o Advogado Geral do Exército e Giora Eyland poderão falar à Comissão. (Eyland é o general aposentado que dirigiu o inquérito interno do Exército.) Mas nem de longe é suficiente. Para cumprir sua tarefa, a Comissão teria de ouvir também o Comandante da Marinha e seus subordinados diretos. Em resposta à consulta do Bloco da Paz, a Suprema Corte já deixou caminho aberto nessa direção: se a Comissão Turkel exigir esses depoimentos, a Suprema Corte determinará que a Marinha atenda à exigência.

Nenhum dos três que já depuseram sequer se aproximou da questão principal: a própria existência do bloqueio contra Gaza.

Na fatídica reunião do "Septeto" (os principais ministros), ficou bem claro que todos crêem que o bloqueio é necessário, assim como é necessário impedir, pela força, sendo o caso, todas as tentativas de rompê-lo.

Os aspectos legais do caso talvez provoquem muita discussão. Pelo que sei, a legislação internacional não é muito explícita, nem no que tenha a ver com impor bloqueios nem no que tenha a ver com modalidades de bloqueios. A lei não está posta de forma consistente. Há espaço para várias interpretações. Não haverá, portanto resposta única, acordada e clara.

Seja como for, a questão não é legal, mas moral e política: qual o objetivo de Israel ao impor o bloqueio a Gaza?

Até agora, todas as testemunhas ouvidas repetiram o mesmo argumento ensaiado: Israel está em guerra contra a Faixa de Gaza (tenha a Faixa o estatuto legal que tiver, e mesmo que não seja Estado reconhecido), o bloqueio é necessário, para impedir a importação de material bélico. Portanto, o bloqueio seria legal e moral.

Mentiras e mais mentiras.

É muito simples controlar o movimento de cargas transportadas por mar. O que se faz nesses casos é deter o barco, inspecionar a carga, confiscar o material transportado que não esteja regular e liberar o barco para que prossiga viagem. Em todos os casos, a carga pode ser inspecionada no porto de partida.

Nada disso foi feito, no caso da Flotilha da Paz, porque toda essa conversa sobre material bélico não passa de pretexto. Israel impôs o bloqueio de Gaza pelo motivo exatamente oposto: para evitar que cheguem materiais não-bélicos, os mesmos materiais que também não chegam a Gaza pelos postos de passagem em terra: vários tipos de alimentos e remédios, matéria prima para a indústria da Faixa de Gaza, materiais de construção, peças de reposição para máquinas e carros e vários outros itens, de cadernos escolares a equipamento de purificação de água.

O pouco que torna a vida ainda possível chega à Faixa pelos túneis, com preços estratosféricos, muito acima da capacidade de compra da maioria dos habitantes.

Desde o início, o objetivo do bloqueio foi tornar impossível a vida normal na Faixa de Gaza, para levar a população ao desespero e induzi-la a levantar-se e derrubar o governo do Hamás. Esse objetivo sempre foi evidentemente apoiado pelo governo dos EUA e seus Estados-satélites no mundo árabe e talvez também, como muitos crêem, pela Autoridade Palestina em Ramallah.

Netanyahu disse, em seu depoimento, que "não há crise humanitária na Faixa de Gaza". Tudo depende de como se interpretem as palavras.

É verdade, não há gente morrendo de fome e doenças pelas ruas. Não é o gueto de Varsóvia. Mas a subnutrição cresce entre as crianças, há pobreza e miséria. O bloqueio gerou desemprego em alta escala, porque praticamente toda a produção agrícola e industrial está paralisada. Não há importação de matérias primas, nenhuma exportação de qualquer tipo, falta combustível. Os produtos de Gaza não conseguem chegar à Cisjordânia, a Israel ou à Europa, como antes. Tudo isso é verdade ainda hoje, apesar de a Flotilha da Paz ter sido parcialmente bem sucedida, porque obrigou Israel a permitir a entrada de vários itens que, antes, estavam bloqueados.

O fechamento do porto de Gaza também contribui para aumentar a crise humanitária. Há dezessete anos, Shimon Peres escreveu: “O porto de Gaza tem grande potencial de crescimento. Os produtos e cargas que partirão daqui a caminho de importadores israelenses, palestinos, jordanianos, sauditas e até iraquianos serão demonstração da revolução econômica que beneficiará toda a região.” Talvez fosse o caso de convocar Shimon Peres para depor à Comissão Turkel.

A palavra chave dos depoimentos foi "responsabilidade". Todos os ouvidos pela Comissão primeiro assumiram a "responsabilidade" e em seguida passaram-na adiante, como jogador de futebol americano que recebe a bola e imediatamente a joga para o mais longe que possa.

O que significa responsabilidade? Noutros tempos, quando um líder japonês assumia a responsabilidade por grandes fracassos, metia a espada na própria barriga; "harakiri" significa exatamente "cortar a barriga". Essas práticas bárbaras não existem no ocidente. Mas, pelo menos no Japão, e ainda em vários países ocidentais, líder responsável japor grandes fracassos sempre pode renunciar.

Em Israel, não. Não, pelo menos, nos tempos que correm. Na Israel de Netanyahu, quem anuncia que "assume a responsabilidade" passa a merecer reverência. Que coragem! Quanta nobreza! "Ele assumiu a responsabilidade!" E fica tudo por isso mesmo.

Nota de Tradução

[1] A Comissão Turkel é a comissão formada para investigar o ataque israelense à Flotilha da Paz e o bloqueio de Gaza. Leva o nome do juiz aposentado da Suprema Corte encarregado de presidi-la, Jacob Turkel. A investigação deve ser acompanhada por dois observadores internacionais: o ex-primeiro ministro da Irlanda do Norte William Trimble e pelo ex-juiz militar Ken Watkin. Foi instalada dia 17/6/2010 (mais em: Turkel Commitee).

O artigo original, em inglês, pode ser lido em: Harakiri?

15 de agosto de 2010

Chomsky: “Os EUA são o maior terrorista do mundo”


Noam Abraham Chomsky, intelectual estadunidense, pai da linguística e polêmico ativista por suas posturas contra o intervencionismo militar dos Estados Unidos, visitou a Colômbia para ser homenageado pelas comunidades indígenas do Departamento de Cauca. Falou com exclusividade para Luis Angel Murcia, do jornal Semana.com, em 21 de Julho de 2010.

O morro El Bosque, um pedaço de vida natural ameaçado pela riqueza aurífera que se esconde em suas entranhas, desde a semana passada tem uma importância de ordem internacional. Essa reserva, localizada no centro da cidade de Cauca, muito próxima ao Maciço colombiano, é o cordão umbilical que hoje mantêm aos indígenas da região conectados com um dos intelectuais e ativistas da esquerda democrática mais prestigiados do planeta.

Noam Abraham Chomsky. Quem o conhece assegura que é o ser humano vivo cujas obras, livros ou reflexões, são as mais lidas depois da Bíblia. Sem duvida, Chomsky, com 81 anos de idade, é uma autoridade em geopolítica e Direitos Humanos.

Sua condição de cidadão estadunidense lhe dá autoridade moral para ser considerado um dos mais recalcitrantes críticos da política expansionista e militar que os EUA aplica no hemisfério. No seu país e na Europa é ouvido e lido com muito respeito, já ganhou todos os prêmios e reconhecimentos como ativista político e suas obras, tanto em linguística como em análise política, foram premiadas.

Sua passagem discreta pela Colômbia não era para proferir as laureadas palestras, mas para receber uma homenagem especial da comunidade indígena que vive no Departamento de Cauca. O morro El Bosque foi rebatizado como Carolina, que é o mesmo nome de sua esposa, a mulher que durante quase toda sua vida o acompanhou. Ela faleceu em dezembro de 2008.

Em sua agenda, coordenada pela CUT e pela Defensoria do Povo do Vale, o Senhor Chomsky dedicou alguns minutos para responder exclusivamente a Semana.com e conversar sobre tudo.

Quê significado tem para o senhor esta homenagem?

Estou muito emocionado; principalmente por ver que pessoas pobres que não possuem riquezas se prestem a fazer esse tipo de elogios, enquanto que pessoas mais ricas não dão atenção para esse tipo de coisa.

Seus três filhos sabem da homenagem?

Todos sabem disso e de El Bosque. Uma filha que trabalha na Colômbia contra as companhias internacionais de mineração também está sabendo.

Nesta etapa da sua vida o que o apaixona mais: a linguística ou seu ativismo político?

Tenho estado completamente esquizofrênico desde que eu era jovem e continuo assim. É por isso que temos dois hemisférios no cérebro.

Por conta desse ativismo teve problemas com alguns governos, um deles e o mais recente foi com Israel, que o impediu de entrar nas terras da palestina para dar uma palestra.

É verdade, não pude viajar, apesar de ter sido convidado por uma universidade palestina, mas me deparei com um bloqueio em toda a fronteira. Se a palestra fosse para Israel, teriam me deixado passar.

Essa censura tem a ver com um de seus livros intitulado ‘Guerra ou Paz no Oriente Médio?

É por causa dos meus 60 anos de trabalho pela paz entre Israel e a Palestina. Na verdade, eu vivi em Israel.

Como qualifica o que se passa no Oriente Médio?

Desde 1967, o território palestino foi ocupado e isso fez da Faixa de Gaza a maior prisão ao ar livre do mundo, onde a única coisa que resta a fazer é morrer.

Chegou a se iludir com as novas posturas do presidente Barack Obama?

Eu já tinha escrito que é muito semelhante a George Bush. Ele fez mais do que esperávamos em termos de expansionismo militar. A única coisa que mudou com Obama foi a retórica.

Quando Obama foi galardoado com o prêmio Nobel de Paz, o quê o senhor pensou?

Meia hora após a nomeação, a imprensa norueguesa me perguntou o que eu pensava do assunto e respondi: “Levando em conta o seu recorde, este não foi a pior nomeação”. O Nobel da Paz é uma piada.

Os EUA continuam a repetir seus erros de intervencionismo?

Eles tem tido muito êxito. Por exemplo, a Colômbia tem o pior histórico de violação dos Direitos Humanos desde o intervencionismo militar dos EUA.

Qual é a sua opinião sobre o conceito de guerra preventiva que os Estados Unidos apregoam?

Não existe esse conceito, é simplesmente uma forma de agressão. A guerra no Iraque foi tão agressiva e terrível que se assemelha ao que os nazistas fizeram. Se aplicarmos essa mesma regra, Bush, Blair e Aznar teriam de ser enforcados, mas a força é aplicada aos mais fracos.

O que acontecerá com o Irã?

Hoje existe uma grande força naval e aérea ameaçando o Irã e, somente a Europa e os EUA pensam que isso está certo. O resto do mundo acredita que o Irã tem o direito de enriquecer urânio. No Oriente Médio três países (Israel, Paquistão e Índia) desenvolveram armas nucleares com a ajuda dos EUA e não assinaram nenhum tratado.

O senhor acredita na guerra contra o terrorismo?

Os EUA são os maiores terroristas do mundo. Não consigo pensar em qualquer país que tenha feito mais mal do que eles. Para os EUA, terrorismo é o que você faz contra nós e não o que nós fazemos a você.

Há alguma guerra justa dos Estados Unidos?

A participação na Segunda Guerra Mundial foi legítima, entretanto eles entraram na guerra muito tarde.

Essa guerra por recursos naturais no Oriente Médio pode vir a se repetir na América Latina?

É diferente. O que os EUA tem feito na América Latina é, tradicionalmente, impor brutais ditaduras militares que não são contestados pelo poder da propaganda.

A América Latina é realmente importante para os Estados Unidos?

Nixon afirmou: “Se não podemos controlar a América Latina, como poderemos controlar o mundo”.

A Colômbia tem algum papel nessa geopolítica ianque?

Parte da Colômbia foi roubada por Theodore Roosevelt com o Canal do Panamá. A partir de 1990, este país tem sido o principal destinatário da ajuda militar estadunidense e, desde essa mesma data tem os maiores registros de violação dos Direitos Humanos no hemisfério. Antes o recorde pertencia a El Salvador que, curiosamente também recebia ajuda militar.

O senhor sugere que essas violações têm alguma relação com os Estados Unidos?

No mundo acadêmico, concluiu-se que existe uma correlação entre a ajuda militar dada pelos EUA e violência nos países que a recebem.

Qual é sua opinião sobre as bases militares gringas que há na Colômbia?

Não são nenhuma surpresa. Depois de El Salvador, é o único país da região disposto a permitir a sua instalação. Enquanto a Colômbia continuar fazendo o que os EUA pedir que faça, eles nunca vão derrubar o governo.

Está dizendo que os EUA derruba governos na América Latina?

Nesta década, eles apoiaram dois golpes. No fracassado golpe militar da Venezuela em 2002 e, em 2004, seqüestraram o presidente eleito do Haiti e o enviaram para a África. Mas agora é mais difícil fazê-lo porque o mundo mudou. A Colômbia é o único país latinoamericano que apoiou o golpe em Honduras.

Tem algo a dizer sobre as tensões atuais entre Colômbia, Venezuela e Equador?

A Colômbia invadiu o Equador e não conheço nenhum país que tenha apoiado isso, salvo os EUA. E sobre as relações com a Venezuela, são muito complicadas, mas espero que melhorem.

A América Latina continua sendo uma região de caudilhos?

Tem sido uma tradição muito ruim, mas, nesse sentido, a América Latina progrediu e, pela primeira vez, o cone sul do continente está a avançando rumo a uma integração para superar seus paradoxos, como, por exemplo, ser uma região muito rica, mas com uma grande pobreza.

O narcotráfico é um problema exclusivo da Colômbia?

É um problema dos Estados Unidos. Imagine que a Colômbia decida fumigar a Carolina do Norte e o Kentucky, onde se cultiva tabaco, o qual provoca mais mortes do que a cocaína.

Fonte: Agência de Notícias Nova Colômbia. Original em espanhol.
Imagem: Luis Ángel Murcia, Semana

3 de junho de 2010

O que o exército de Israel não quer que saibamos


por Noam Sheizaf no Amálgama* – Os vídeos do navio Mavi Marmara divulgados pelas Forças de Defesa de Israel (FDI) estão dando o tom das notícias em Israel durante as últimas 48 horas. O efeito tem sido espantoso: eles silenciaram todas as perguntas sobre a operação e fizeram o público se alinhar junto ao governo e o exército, como mostra uma pesquisa do Maariv. Eles fizeram com que israelenses saíssem às ruas, protestando em frente à embaixada da Turquia e em protestos menores pelo país.

Mas, por mais incrível que pareça, já fazem quase três dias que o exército atacou o navio e ainda não sabemos nada sobre o ataque propriamente, fora o fato de que alguns homens no Mavi Marmara agrediram os soldados quando estes desceram por helicóptero no convés superior. Também temos razões para acreditar que esse ataque foi planejado com antecedência, mas que armas de fogo não estavam envolvidas.

Em outras palavras: sabemos apenas o que Israel quis que soubéssemos.

Neste ponto é extremamente importante dizer o que não sabemos: Não sabemos os nomes e nacionalidades dos passageiros mortos. Não sabemos por certo quantas pessoas foram feridas. Não sabemos onde elas foram mortas, quando e como morreram. Não sabemos se e quando foi prestado tratamento médico a essas pessoas. Haviam câmeras de segurança no convés, mas Israel não nos mostra o que foi filmado, exceto o material que serve a seus propósitos. Os clipes de visão noturna liberados pelo exército acabam bem antes dos tiros começarem.

Não sabemos o que aconteceu antes dos civis agredirem os soldados. Alguns passageiros alegaram que os soldados abriram fogo antes mesmo de pisarem no navio, mas não sabemos se isso é verdade.

Mais importante, não sabemos nada sobre a batalha em si – se foi mesmo uma batalha. Parece ter sido uma longa batalha, já que temos uma rápida gravação em que pode-se ouvir a deputada israelense Hanin Zoabi pedindo por ajuda e implorando aos soldados em inglês e hebraico para que parassem de atirar (é o segundo áudio nessa página). A essa altura, já haviam passageiros feridos e podemos supor que os ataques aos soldados tivesse parado. Mas o tiroteio continuou.

Algumas dessas informações poderiam ter sido disponibilizadas se as FDI não tivessem confiscado todo o material do Mavi Marmara. O que é ainda pior é que o exército está agora editando os filmes e os liberando de forma que se encaixem em sua própria narrativa. Esse filme, do convés superior, parece ter sido feito por um passageiro ou membro da tripulação. O filme abaixo, mostrando os passageiros se preparando para o ataque israelense, foi feito pela câmera de segurança do navio.

Há um ótimo post no blog The Lede, do New York Times, sobre os clipes liberados pelas FDI. Nele, Robert Mackey observa que as imagens que o exército liberou carecem de contexto. Minha única observação é que elas foram deliberadamente tiradas de contexto.

A forma como Israel está retendo informação é muito preocupante. Se o exército não tem nada a esconder, por que não liberar o material? Naturalmente, Israel também está se recusando a tratar das perguntas maiores, tais como por que a flotilha foi atacada em águas internacionais, e, se esse foi o caso, se os passageiros não tinham o direito de resistir à tentativa dos soldados de adentrarem seu navio.

O pior efeito dessa guerra de relações públicas ocorre no público israelense, que agora vê toda a flotilha como um empreendimento terrorista. Pode-se ver os efeitos desse humor nacionalista na maneira com que os membros do Knesset quase atacaram fisicamente a deputada Zoabi hoje (o vídeo, aqui). De fato, a campanha do governo foi tão bem sucedida que muitos protestaram após a liberação dos passageiros detidos, alegando que os terroristas deveriam ser “levados à justiça”.

Tudo isso leva à conclusão de que apenas uma investigação internacional poderia nos dar alguma luz sobre os eventos no Mavi Marmara. Mesmo assim, as chances das FDI darem acesso completo aos materiais disponíveis e aos soldados são pequenas, na melhor das hipóteses.

* Noam Sheizaf, Tel Aviv, nasceu em 1974, serviu por cinco anos no exército israelense e hoje é jornalista, tendo trabalhado em veículos como Ynet.co.il e Maariv. Seu blog em inglês, Promised Land, é parceiro do Amálgama, cedendo conteúdo para tradução e reprodução. [tradução: Daniel Lopes]

Leia também DANDO NOME AOS BOIS: O QUE HOUVE FOI 'PIRATARIA' E 'SEQUESTRO' e Robert FisK: O jornalismo e as palavras do poder

8 de abril de 2010

"Me segurem, me segurem!"


Uri Avnery,
Gush Shalom (Bloco da Paz), Israel
htp://zope.gush-shalom.org/index_en.html


“Me segurem!” é história que todos conhecem da infância. Os meninos, quando se desentendiam com meninos maiores, sempre fingiam que tentavam conter-se para não atacar o grandão, e gritavam para a rodinha em volta: “Me segurem! Me segurem... Ou eu mato esse cara!”.

Israel vive hoje situação semelhante. Israel está fingindo que atacará o Irã a qualquer momento e grita para o planeta: “Me segurem ou...” E o mundo, de fato, tem segurado Israel.

É arriscado profetizar nesses assuntos, sobretudo porque se tem de lidar com gente nem sempre inteligente e nem sempre, digamos mentalmente sã. Mesmo assim, arrisco: não há qualquer possibilidade, de nenhum tipo e por seja qual for o cálculo, de Israel mandar seus aviões atacarem o Irã.

Não vou entrar em assuntos militares. Mas... será que a Força Aérea de Israel é capaz de executar tal operação? As circunstâncias de hoje são semelhantes às de há 28 anos, quando Israel conseguiu destruir o reator iraquiano? Será que Israel conseguirá destruir o esforço nuclear iraniano, cujas instalações são dispersas num vasto território e enterradas fundo no subsolo?

Interessa-me focar um outro aspecto: será que o ataque ao Irã é politicamente viável? E levará a que consequências?

Em primeiro lugar, uma regra de base, na realidade israelense: o Estado de Israel não pode iniciar nenhuma operação militar de larga escala sem que os norte-americanos concordem.

Israel depende dos EUA em praticamente todos os campos e esferas, mas em nenhum campo ou esfera depende mais do que nos campos e esferas e assuntos bélicos e militares.

Todos os aviões necessários para a missão são fornecidos pelos EUA. O funcionamento e a operação dos aviões dependem de os EUA fornecerem peças de reposição. E seria absolutamente indispensável usar os aviões-tanques dos EUA para reabastecimento.

O mesmo se pode dizer de praticamente todas as armas e materiais de guerra do exército de Israel, além do dinheiro indispensável para comprá-los: tudo vem dos EUA.

Em 1956, Israel entrou em guerra sem o consentimento dos EUA. Ben-Gurion imaginou que bastaria acertar-se com o Reino Unido e a França. Errou imensamente. Cem horas depois de anunciar que “O Terceiro Reino de Israel” estava nascendo, anunciou com voz alquebrada que se retiraria de todos os territórios que acabava de ‘conquistar’. O presidente Dwight Eisenhower e seu colega soviético obrigaram Ben-Gurion a recuar, e foi o fim daquela aventura.

Desde então, Israel nunca mais iniciou guerra alguma sem, antes, obter autorização de Washington. Na véspera da Guerra dos Seis Dias, Israel enviou emissário especial aos EUA, para não haver qualquer dúvida quanto à autorização dos norte-americanos. O emissário recebeu luz verde dos norte-americanos e o ataque foi iniciado.

Às vésperas da Primeira Guerra do Líbano, Ariel Sharon, ministro da Defesa, correu a Washington para pedir autorização para atacar. Encontrou-se com o secretário de Estado Alexander Haig, que concordou com o ataque, mas exigiu que Israel só atacasse se fosse claramente provocado. Alguns dias depois, por coincidência, houve um atentado contra a vida do embaixador de Israel em Londres. E a guerra começou.
Os ataques do exército de Israel ao Hizbollah (“Segunda Guerra do Líbano”, como é chamada) e ao Hamás (a operação “Chumbo Derretido”) só foram possíveis porque foram operações incluídas na campanha dos EUA contra o “Islã Radical”. À primeira vista, o mesmo argumento aplicar-se-ia a um ataque ao Irã, mas... Não. Não. Não, porque um ataque de Israel ao Irã seria desastre militar, econômico e político para os EUA.
Dado que os iranianos também sabem muito bem que Israel não pode atacar sem que os EUA autorizem, os iranianos estão também jogando o seu jogo e reagirão de acordo com as circunstâncias.

Já escrevi aqui, que basta um rápido exame do mapa, para ver qual seria a reação imediata, se o Irã fosse atacado. O pequeno Estreito de Hormuz, à entrada do Golfo Persa (ou Árabe), pelo qual passa quantidade imensa do petróleo do mundo, seria fechado em questão de minutos. O resultado abalaria a economia mundial, dos EUA e Europa à China e Japão. Os preços chegariam às alturas. Países que hoje, a duras penas, começam a recuperar-se da última crise econômica mundial, afundariam na miséria, no desemprego, nos tumultos de rua e na bancarrota.

O Estreito só poderia ser reaberto por ataque por terra. Os EUA simplesmente não têm soldados para desperdiçar nesse tipo de operação – ainda que a opinião pública norte-americana aceitasse outra guerra, e guerra muito mais difícil do que no Iraque ou no Afeganistão, o que é improvável. Duvido até que os EUA se dispusessem a ajudar Israel a defender-se do inevitável contra-ataque por mísseis iranianos.

Qualquer ataque israelense a país islâmico central uniria o mundo islâmico, inclusive todo o mundo árabe. Os EUA passaram os últimos anos labutando muito para formar uma coalizão de países árabes “moderados” (quer dizer, de países árabes governados por ditadores sustentados pelos EUA), contra os Estados ditos “radicais”. Todo esse trabalho iria imediatamente pelo ralo. Nenhum líder árabe conseguiria manter-se neutro, se as massas fossem para as ruas exigindo ação.

Tudo isso é perfeitamente evidente para qualquer pessoa bem informada, e é super evidente para os líderes civis e militares norte-americanos. Secretários, generais e almirantes já foram enviados a Israel para explicar tudo isso aos líderes de Israel, em língua de jardim de infância: Não! No! Nyet!
Assim sendo, por que a opção militar ainda não foi excluída da mesa de discussões? Porque EUA e Israel gostam de tê-la ali, à vista, sobre a mesa.

Os EUA gostam de aparecer como a única força capaz de conter os ferozes Rottweilers israelenses. Assim, todas as demais potências são pressionadas a impor sanções ao Irã. Se alguém não concordar, ali estão os furiosos cães israelenses, sempre a um passo de escapar da coleira. Imaginem o que acontecerá!
E que sanções? Já há algum tempo, não há palavra mais aterrorizante do que essa – “sanções” – no palco das discussões internacionais. Mas se se pensa um pouco, logo se vê que há mais fumaça que fogo.

Alguns comandantes da Guarda Revolucionária talvez sejam feridos, a economia iraniana talvez sofra algum dano colateral. Mas já ninguém cogita de aplicar “sanções que paralisarão o Irã”, porque não há qualquer chance de Rússia e China concordarem. São dois parceiros do Irã, e “sanções que paralisem o Irã” atingiriam também russos e chineses.

Além disso, a possibilidade de essas sanções interromperem a construção de alguma bomba é mínima; sequer conseguirão retardar o processo. Do ponto de vista dos aiatolás, o esforço nuclear é imperativo de segurança nacional – país sem bomba atômica não tem como defender-se da ameaça norte-americana. Dado que os EUA jamais desistiram de tentar derrubar o regime dos aiatolás, nenhum governo iraniano pensaria diferente. Sobretudo durante o último século, norte-americanos e britânicos jamais agiram de outro modo. As negativas do Irã são perfunctórias. Segundo todos os relatos, até os mais extremistas opositores de Mahmoud Ahmadinejad apóiam o projeto da bomba atômica iraniana e o defenderão, se for atacado.

Nesse ponto, a liderança israelense tem razão: nada impedirá o Irã de construir sua bomba, exceto o emprego massivo de força militar. “Sanções” são brincadeira de criança. O governo dos EUA fala delas em termos tão empolgados, apenas para encobrir a evidência de que nem todo o exército dos EUA pode impedir os iranianos de ter sua bomba.

Quando Netanyahu & Co. criticam a falta de habilidade dos EUA para enfrentar o Irã, os norte-americanos lhe respondem na mesma toada: vocês também não merecem confiança.

De fato, que confiança mereceriam os políticos e militares israelenses? Eles mesmos convenceram a opinião pública em Israel de que o Irã seria questão de vida ou morte para Israel. Que o Iran seria governado por um neo-Hitler, antissemita doente, obcecado negador do Holocausto. Se esse demônio construir uma bomba atômica, não hesitará em lançá-la sobre Telavive e Dimona. Com essa espada sobre as cabeças israelenses, não há tempo a perder, nenhum outro assunto merece atenção – por exemplo, a questão palestina e a ocupação da Palestina.

Assim, quem quer que, hoje, insista em discutir a questão palestina no governo de Netanyahu, é imediatamente interrompido: “Que Palestina? Esqueçam isso! Nosso problema é a bomba atômica iraniana!”

Até agora, Obama e sua equipe têm conseguido inverter a argumentação de Netanyahu: se há alguma ameaça existencial contra Israel, dizem eles, basta raciocinar. Se a questão das construções ameaça a própria existência de Israel, é simples: entreguem as colônias da Cisjordânia... e salvem a existência de Israel. Aceitem a proposta da Liga Árabe, façam a paz com os palestinos, e o mais rapidamente possível. Esse movimento de Israel fará melhorar a posição dos EUA no Iraque e no Afeganistão e liberará nossos soldados. O Irã ficará com um motivo a menos para fazer guerra contra Israel! As massas no mundo árabe terão um motivo a menos para apoiar o Irã!

E os EUA concluem: Se um novo quarteirão exclusivo para judeus em Jerusalém Leste é mais importante para Israel do que a bomba iraniana... a bomba iraniana, evidentemente, é realmente muito menos preocupante, para Israel, do que Netanyahu vive dizendo! Cá entre nós, modestamente, eu também acho: a bomba iraniana, de fato, não é problema.

Há dois dias, a jornalista correspondente do Channel 2, muito popular em Israel, telefonou-me e perguntou, com voz chocada: “É verdade que você deu uma entrevista a uma agência iraniana de notícias?!”
“É verdade”, respondi. A agência mandou-me algumas perguntas por e-mail, sobre a situação política; e respondi por e-mail. “Por que você respondeu?!” – ela perguntou-acusou. “E por que não responderia?!”, disse eu. E a conversa acabou ali.

De fato, por que não? Sim, Ahmadinejad é líder repulsivo. Espero que os iranianos livrem-se dele e deve-se esperar que aconteça logo. Mas as relações entre Israel e o Irã não dependem de Ahmadinejad, seja quem for.
Israel e Irã sempre foram nações amigas, do tempo de Ciro ao tempo de Khomeini (a quem Israel forneceu armas, na guerra contra o Iraque).

Na Israel de hoje, o Irã está sendo apresentado como caricatura: como país primitivo, louco, sem outra coisa na cabeça além da obsessão de destruir o Estado sionista. Mas basta ler alguns bons livros sobre o Irã (recomendaria “Understanding Iran”, William Roe Polk, Harper: EUA, 2009[1]), para conhecer um dos países civilizados mais antigos do mundo, onde nasceram vários grandes impérios e que tem impressionante contribuição para a cultura humana, uma tradição antiga e honrada. Para muitos especialistas, a religião dos judeus foi profundamente influenciada pelos ensinamentos éticos de Zoroastro (Zaratustra).
Sejam quais forem os desmandos de Ahmadinejad, os clérigos islâmicos, que governam realmente o país, têm implantado e mantido políticas cautelosas e sóbrias, e jamais atacaram qualquer outra nação. Têm interesses, é claro, mas Israel não é assunto que interesse ao Irã. A ideia de que os iranianos sacrificariam o próprio país e seus cidadãos, para destruir Israel é, no mínimo, ridícula.

A simples verdade é que não meio para impedir que os iranianos alcancem sua bomba atômica. Melhor, portanto, pensar com seriedade sobre o mundo com a bomba iraniana: não se alterará o ‘equilíbrio nuclear’ no campo do terrorismo, como o que sempre houve entre Índia e Paquistão; mas o Irã será elevado à categoria de potência regional; e será indispensável iniciar diálogo racional e sóbrio que inclua o Irã.

A principal conclusão, contudo, é a seguinte: é preciso fazer a paz entre Israel e os palestinos, porque assim de esvaziará o argumento iraniano, de que precisa da bomba para proteger-se contra os israelenses, algozes dos palestinos.

[1] Há interessante “Carta aberta ao presidente Obama”, de outubro de 2009, do mesmo autor e sobre o mesmo assunto, em http://www.vermelho.org.br/blogs/outroladodanoticia/?p=6748 (traduzida) NT.


Pescado do blog do Bourdokan.

Imagem: Internet

6 de maio de 2009

A Palestina está à venda em Jerusalém: "Excelente localização"

Tradução: Caia Fittipaldi

Daphna Golan*, 5/4/2009, Haaretz, Telavive

http://www.haaretz.com/hasen/spages/1083089.html


Esperemos que a Casa Branca seja assinante dos jornais de Jerusalém, e leia-os antes da chegada de Benjamin Netanyahu a Washington. Basta passar os olhos pelos anúncios gigantes de 'novos empreendimentos imobiliários', para que se economizem quantidades consideráveis de dinheiro, tempo e lamentações dos contribuintes norte-americanos e israelenses.

Há anos Israel promete que não haverá novas construções nas colônias na Cisjordânia. O presidente Shimon Peres reiterou essa promessa recentemente ao primeiro-ministro tcheco, Mirek Topolanek, que atualmente ocupa a presidência da União Europeia. Topolanek, por sua vez, prometeu trabalhar para melhorar as relações entre Israel e a Europa. Netanyahu, em sua visita aos EUA, certamente repetirá as mesmas mentiras já mentidas por Peres.

Essa semana, um jornal de Jerusalém noticiou que qualquer fábrica de propriedade de propriedade de cidadão israelense que deseje transferir-se para a colônia de Ma'aleh Adumim terá vantagens de três tipos.

Primeiro, a "excelente localização", a dez minutos de Jerusalém. O mapa mostrado no anúncio só indica colônias israelenses como locais recomendados para instalações de fábricas – nenhuma comunidade palestina, sequer as localizadas ao lado, porta com porta, das colônias israelenses.

A segunda vantagem anunciada é a acessibilidade. Caso os norte-americanos não entendam, aí está dito que Israel construiu estradas para uso exclusivo de israelenses, de modo que possam viver e trabalhar nos territórios ocupados sem jamais cruzarem com palestinos.

A estrada 443 foi pavimentada, para dar mais 'acessibilidade' até Ma'aleh Adumim. O Estado afirmou, ante a Alta Corte de Justiça, que a estrada – construída em terra expropriada de palestinos – visava a beneficiar a "população local". Estranhamente, comprovando exatamente o contrário disso, a estrada é vedada aos palestinos e só israelenses transitam ali.

Terceiro, o anúncio promete as mesmas deduções de impostos que se oferecem para construções na chamada "Área A, de Prioridade Nacional", e acrescenta: "a área industrial na colônia de Ma'aleh Adumim é a maior reserva de terra em toda a área de Jerusalém. Os lotes estão à venda por preços módicos."

É exatamente a mesma área na qual Israel prometeu que não haveria novas construções, para que, algum dia, os palestinos pudessem movimentar-se livremente entre o norte e o sul da Cisjordânia.

Se alguém na Casa Branca ou nos EUA ainda pensa que as novas construções em Ma'aleh Adumim seriam exceção à regra, os enormes anúncios publicitários publicados nos jornais de Jerusalém comprovam que, sim, há projeto já em andamento para novas construções em todos os territórios ocupados à volta de Jerusalém.

Há, por exemplo, anúncio de "oportunidade de ouro" em Har Homa, mas nenhuma informação sobre os palestinos em cujas terras as novas casas estão sendo construídas.

O anúncio tampouco fala da vila de Nuaman que ali existia e cujas terras foram anexadas a Israel, mas cujos moradores têm documentos de identidade palestinos e, portanto, são classificados como residentes ilegais... dentro de suas próprias casas e em terrenos de sua propriedade.

O muro da separação aprisiona os moradores de Nuaman e os separa, simultaneamente, tanto de Jerusalém – cidade à qual absolutamente não podem chegar – como, também, da Cisjordânia. Só podem entrar na Cisjordânia quando os pontos de fronteira estão abertos.

Outro anúncio, de construção "nascida numa colher de prata", exibe um prédio e apartamento modelos, mas sem dizer que estão localizados na área das cidades de Sur Baher, Umm Tuba, Abu Dis e Beit Sahour. São cidades e vilas palestinas, algumas delas incluídas na jurisdição municipal de Jerusalém, que foram varridas, não apenas do mapa exibido nos anúncios publicitários desses novos 'empreendimentos imobiliários', mas também da consciência do governo de Israel, o qual tampouco jamais ofereceu aos palestinos qualquer plano de zoneamento que lhes permitisse pensar em construir moradias, pavimentar estradas e construir escolas.

Hoje, quando os contribuintes norte-americanos estão obrigados a sobreviver às dificuldades da crise econômica, Israel bem poderia poupar-lhes o dinheiro que investem na construção e na manutenção das colônias ilegais.

Em vez de torrar tempo e recursos tentando entender por que Israel insiste em construir estradas, 'projetos imobiliários' e colônias exclusivas para israelenses, a Casa Branca bem poderia providenciar uma assinatura dos jornais de Jerusalém.

Ali os norte-americanos seriam facilmente informados – e poderiam informar o primeiro-ministro de Israel e sua trupe – de que só seriam bem-vindos, para discutir o apoio dos EUA, se, e se somente se, os israelenses realmente pararem de construir 'empreendimentos imobiliários' ilegais nos territórios palestinos ocupados.

* Professor de Direito, na Universidade Hebraica de Jerusalém.

10 de abril de 2009

Até quando irá esta maldade?

Lemos no blog do Bourdoukan:

SALVEM AS OLIVEIRAS PALESTINAS

Está ficando monótono. Terrivelmente monótono. Depois dos bulldozers, os dirigentes israelenses resolveram inovar. Agora eles utilizam motoserras contra as oliveiras.

Diariamente, 50 dessas árvores milenares são destruídas para dar continuidade à construção do muro do apartheid.

Que o diga a população das aldeias palestinas de Wadi Rasha, Ras Tira e Daba'a.

Os moradores realizaram uma série de protestos contra a destruição das oliveiras.

A resposta dos israelenses foram tiros, bombas de gás e espancamentos.

Nenhuma entidade que diz defender a natureza protestou.

As ONGs, ao que parece, preferem fazer exibicionismo midiático do que defender os poucos bosques palestinos que teimam em sobreviver.

Alem dos buldozers e motoserras contra as oliveiras, os palestinos são obrigados a assistir, sob a mira das armas da soldadesca, o roubo de suas azeitonas pelos colonos israelenses, estes também armados até os dentes.

A quem apelar?

15 de fevereiro de 2009

Entrevista com Idelber Avelar

Olívio Dutra com Dona Judite na Feira do Livro em 2008

Os funcionários da grande mídia precisam realizar um estágio com Olívio Dutra, por exemplo, sobre o que é ser massacrado incessantemente com palavras durante anos, ao invés de fazerem esses escândalos de dondocas "linchadas" toda vez que são criticados.

Idelber Avelar em ótima entrevista, sobre a Palestina Ocupada e a eleição de Barak Obama, publicada em seu blog e que DEVE ser lida, acessando AQUI.

13 de fevereiro de 2009

A Guerra de Gaza e a desumanização do povo palestino


London Review of Books, "LRB contributors react to events in Gaza", 15/1/2009
http://www.lrb.co.uk/web/15/01/2009/mult04_.html

Ilan Pappe é professor catedrático do Departamento de História da Universidade de Exeter e co-diretor do Exeter Centre for Ethno-Political Studies. É autor de The Ethnic Cleansing of Palestine, de 2007.

Em 2004, o exército de Israel começou a construir uma cidade árabe cenográfica no deserto de Negev. Tem as dimensões de uma cidade real, tem ruas (todas com nomes), mesquitas, prédios públicos e carros. Ao custo de 45 milhões de dólares, essa cidade-fantasma foi adaptada para ser fantasma de Gaza, no inverno de 2006, depois de o Hizbóllah ter forçado Israel a retirar-se do Líbano, no norte. Nessa Gaza fantasma, o exército de Israel treinou para oferecer 'melhor combate' ao Hamás, no sul.

Quando o general Dan Halutz, chefe do estado-maior do exército israelense visitou a cidade fantasma depois da guerra do Líbano, disse à imprensa que os soldados "treinavam para atuar no cenário densamente povoado da cidade de Gaza". Em 2009, quando o bombardeio de Gaza já durava uma semana, Ehud Barak assistiu a um ensaio da invasão por terra. Equipes de televisões estrangeiras filmaram-no lá, assistindo à conquista da cidade cenográfica, às explosões de casas vazias onde, é claro, soldados matavam os 'terroristas' lá escondidos.

"O problema é Gaza", disse, em junho de 1967, Levy Eshkol, então primeiro-ministro de Israel. "Eu estava lá em 1956 e vi as serpentes peçonhentas andando pela rua. Vamos enjaular algumas delas no Sinai e, quem sabe, as outras imigram." Eshkol discutia o destino dos territórios recém ocupados: ele e seu gabinete queriam a Faixa de Gaza; mas não queriam as pessoas que ali viviam.

Muitos israelenses referem-se a Gaza como 'Me'arat Nachashim', uma cova de serpentes. Antes da Intifada I, quando a Faixa fornecia a Telavive a mão-de-obra para lavar pratos e varrer ruas, os gazenses eram desprezados ainda um pouco mais humanamente. A lua-de-mel terminou com a primeira Intifada, depois de vários incidentes nos quais alguns desses subalternos esfaquearam seus patrões. Dizia-se que os ataques haviam sido inspirados por fanatismo religioso e essa teoria gerou uma onda de islamofobia em Israel, que levou ao primeiro movimento para cercar Gaza e à construção de uma cerca eletrificada à volta da cidade. Mesmo depois dos Acordos de Oslo de 1993, Gaza permaneceu vedada, e era usada como fonte de mão-de-obra barata; ao longo dos anos 90s, a idéia de "paz" para Gaza significou a paulatina conversão de Gaza em gueto.

Em 2000, Doron Almog, então chefe do comando Sul, começou a policiar os arredores de Gaza: "Instalamos pontos de observação equipados com a mais avançada tecnologia e nossos soldados têm ordens para atirar em qualquer um que se aproxime da cerca; a distância mínima permitida é de 6 km", vociferava, sugerindo que política similar fosse adotada na Cisjordânia.

Só nos dois últimos anos, uma centena de palestinos foram assassinados por soldados simplesmente porque se aproximaram demais dos muros. De 2000 até a guerra de Gaza, os soldados israelenses mataram 3 mil palestinos (634 dos quais, crianças) em Gaza.

Entre 1967 e 2005, terra e água de Gaza vêm sendo sistematicamente roubadas pelos colonos judeus em Gush Katif, pagas pela população local. O preço da paz e da segurança dos palestinos nessa área foi entregarem-se para serem presos e colonizados. Desde 2000, os gazenses escolheram resistir em maiores números e com mais força. Não é o tipo de resistência que o ocidente admira muito: é resistência islâmica e militar.

A marca registrada dessa resistência são os foguetes Qassam, muito primitivos, que, de início, foram lançados principalmente contra os colonos em Katif. A presença de colonos na área impediu que o exército de Israel retaliasse com a brutalidade que usa contra alvos exclusivamente palestinos. Então os colonos foram evacuados, não como movimento unilateral com vistas a algum processo de paz como se disse então (a ponto de alguém ter sugerido que se desse o Prêmio Nobel da Paz a Ariel Sharon), mas apenas para facilitar a subsequente ação militar contra a Faixa de Gaza e para consolidar o controle da Cisjordânia.

Depois do desengajamento de Gaza, o Hamás assumiu, primeiro por eleições democráticas, depois por golpe preventivo, para evitar que o Fatah, com apoio dos norte-americanos, assumisse o poder. Enquanto isso, os guardas israelenses de fronteira continuaram a matar palestinos que se aproximavam do muro, e impôs-se o bloqueio em toda a Faixa de Gaza. O Hamás respondeu com foguetes contra Sderot, o que deu pretexto para que Israel usasse toda sua Força Aérea, artilharia e navios de guerra. Israel alegava que atirava contra "áreas de lançamento de mísseis", mas, na prática, significava que atirava contra qualquer área e todas as áreas de Gaza. Sempre com muitas mortes: só em 2007, houve 300 mortes em Gaza, 12 crianças.

Israel justifica o que faz em Gaza como parte da luta contra o terrorismo, ao mesmo tempo em que viola todas as leis internacionais de guerra. Como se os palestinos não devessem ter espaço algum na Palestina histórica, a menos que aceitem viver sem nenhum direito civil e sem nenhum direito humano. Podem ser ou cidadãos de segunda classe no Estado de Israel ou prisioneiros das mega prisões da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. Os que resistam são presos sem julgamento, ou mortos. Essa é a mensagem de Israel.

A resistência na Palestina sempre teve base nas vilas e cidades; e que outra base poderia ter? Por isso as cidades palestinas, vilas e vilarejos, cenográficos ou reais, sempre foram designadas, desde a revolta dos árabes de 1936, como "bases inimigas", nos planos e ordens de comando militares. Toda e qualquer retaliação ou ação punitiva sempre matará muitos civis, porque entre eles sempre pode haver militantes da resistência contra Israel. Haifa foi atacada como base inimiga em 1948, tanto quanto Jenin em 2002; hoje, Beit Hanoun, Rafah e Gaza são atacadas, também, como bases inimigas. Quando se tem poder de fogo e nenhum limite de contenção moral contra massacrar civis, tem-se a situação que todos vimos em Gaza.

Mas não é só no discurso militar, que os palestinos são desumanizados.

Processo similar está em andamento também na sociedade civil dos judeus israelenses – e isso explica o apoio massivo que a população israelense deu à chacina de Gaza. Os palestinos têm sido tão desumanizados pelos judeus israelenses – políticos, soldados e cidadãos comuns – que se tornou natural matar palestinos, tão natural quanto foi expulsar palestinos em 1948, ou cercá-los e emparedá-los nos territórios ocupados.

A reação ocidental indica que os líderes políticos ocidentais não conseguem ver a conexão direta que liga (i) a desumanização dos palestinos pelo sionismo e (ii) as políticas israelenses bárbaras em Gaza.

Há grave risco de que, ao final da "Operação Cast Lead", Gaza, toda ela, seja espelho da cidade fantasma do deserto de Negev.
Tradução Caia Fittipaldi

21 de janeiro de 2009

Explodem as ruas, no Egito

Nem sinal de calma nas ruas do Egito, ante a iminência de novos ataques em Gaza

Reem Leila, do Cairo (Al-Ahram, Egito, 15-21/1/2009)
http://weekly.ahram.org.eg/2009/930/eg6.htm

Os acontecimentos em Gaza nas últimas três semanas levaram à rua a população egípcia, numa demonstração de revolta dirigida tanto contra o governo egípcio quanto à agressão israelense à Palestina.

A maior manifestação aconteceu em Alexandria, com milhares de manifestantes que se reuniram na 6ª-feira, depois das orações. Liderados por militantes da Fraternidade Muçulmana, cantaram slogans contra o ataque israelense e contra a cumplicidade do Egito no bloqueio de Gaza. Os manifestantes conclamavam os egípcios a lutar ao lado dos palestinenses. Um dos slogans, repetido incansavelmente nas manifestações durante as últimas semanas, dizia "Onde está o exército? Guerra a Israel!"

No mesmo dia, o Sindicato dos Médicos reuniu-se em assembleia extraordinária, na qual se anunciou que 11 médicos egípcios haviam sido autorizados a entrar em Gaza para auxiliar no socorro aos palestinenses feridos.

"Muitos médicos assinaram declarações assumindo responsabilidade pessoal pelo que lhes aconteça em Gaza, para reforçar o pedido de autorização ao Ministério da Saúde do Egito, sem a qual não poderiam viajar. O Ministério negou inicialmente a autorização, alegando falta de segurança para os médicos em Gaza, mas, depois, concordou" – informou Hamdi El-Sayed, presidente do Sindicato dos Médicos. El-Sayed, que também é presidente da Assembleia Popular (AP) do Comitê de Saúde, disse que os médicos, que viajam como voluntários, conhecem bem a situação em Gaza. "Há 27 médicos egípcios altamente qualificados em Arish – cidade onde houve forte manifestação contra os ataques israelenses –, prontos para viajar a qualquer momento.

No sábado, houve novas manifestações. Milhares de estudantes da Universidade do Cairo protestaram no campus, antes de saírem em passeata pela cidade. Os estudantes queimaram uma enorme bandeira de Israel, cantando cantos religiosos e gritando "guerra a Israel". Houve vários policiais e 60 estudantes feridos, e três ativistas foram presos.

Dia 9/1, em assembleia, os professores condenaram Israel e criticaram o silêncio dos governos árabes. Adel Abdel-Gawad, presidente do Clube de Professores da Universidade do Cairo (Cairo University Teaching Staff Club), disse que os professores assinaram uma petição em que reivindicam o direito de os egípcios lutarem ao lado dos palestinenses, contra Israel. "Também aprovamos um boicote a produtos fabricados em Israel e nos EUA", disse Abdel-Gawad.

Embora a maioria das manifestações tenha sido convocada pela Fraternidade Muçulmana, participaram pessoas de todo o espectro político, inclusive da esquerda secular, sem qualquer conflito com os religiosos islâmicos.

No início da semana grupos da Irmandade Muçulmana entregaram uma carta ao presidente Hosni Mubarak, exigindo que o Egito amplie os trabalhos de assistência e ofereça mais do que "apenas transporte e ajuda humanitária aos feridos". Mohamed El-Beltagui, secretário assistente do bloco parlamentar da Fraternidade Muçulmana tem insistido para que o Egito "dê os primeiros passos na direção de unir os países árabes, para que ponham fim ao holocausto em Gaza".

As manifestações têm mostrado claramente que a Fraternidade Muçulmana pode mobilizar milhares de pessoas quando queira, e o grupo já declarou que as manifestações continuarão.

As dimensões das manifestações populares têm levado os analistas a reavaliar as dimensões e a capacidade de mobilização do grupo.

Amr El-Shobaki, analista político do Centro Al-Ahram de Estudos Políticos e Estratégicos aponta que o governo egípcio tem sido visto, na opinião pública em geral, como cúmplice do bombardeio contra Gaza. Dado que os egípcios não têm muitos meios para manifestar sua indignação contra Israel, o apoio às manifestações da Fraternidade Muçulmana cresce, pode-se dizer, naturalmente. De qualquer modo, disse ele, as manifestações no Cairo têm sido menores do que em outras capitais, reflexo, diz El-Shobaki, "da atmosfera de fraca democracia em que vive o Egito, e do medo de que haja forte repressão pelas forças de segurança".

Os que estão indo à rua, diz ele, são os que culpam o governo egípcio pela tragédia de Gaza.

"Os partidos políticos nada fazem – inclusive o partido que está no poder –, têm fraco desempenho e a população já não confia neles. O único grupo no qual a ira popular pode manifestar-se é a Fraternidade Muçulmana, que é "a força de oposição mais bem organizada e mais ativa, em todo o país."

O Partido Nacional Democrático (NDP), que está no poder, promoveu várias reuniões em todo o país, em solidariedade com o povo palestinense. No domingo, mais de 3.000 pessoas, de Kom Ombo, Nubia e Aswan reuniram-se em manifestação, condenando o Iran, a Síria e o Hizbóllah, além de Israel. As reuniões do NDP defendem as políticas de Mubarak em relação ao conflito de Gaza, e destacam que o Egito enviou 25 milhões (libras egípcias) em donativos, 20 toneladas de ajuda humanitária e abriu a fronteira pra dar passagem a feridos, para que fossem atendidos no Egito.

"Normalmente não apoio as manifestações da Fraternidade Muçulmana, nem me envolvo em política", disse Heba Magdi, estudante universitária. "Mas isso agora é diferente. Dado que ninguém mais faz nada, tenho apoiado os movimentos da Fraternidade. O que está acontecendo em Gaza é horrível demais e o governo não está fazendo o que deve fazer."

O sentimento de Magdi é cada vez mais encontrado na população em geral, no Egito, que acusa o governo de só oferecer "críticas muito leves" à ação de Israel. "A Fraternidade Muçulmana é hoje a única força de oposição que há no Egito, o que a torna perigosamente muito poderosa", diz El-Shobaki.

Para El-Shobaki, a imprensa egípcia é parcialmente responsável por essa situação. Os jornais comprometidos com o governo, diz ele, parecem só se preocupar com os foguetes do Hamás, e com melhorar a imagem do próprio governo. Nenhum jornal manifesta qualquer solidariedade com os palestinenses que estão sendo chacinados em Gaza. "A Fraternidade Muçulmana é a única via que resta para a população que deseje oferecer solidariedade aos palestinenses."

A causa Palestina, que já foi um fator que unia os árabes em geral, e os egípcios em especial, está hoje fraturada.

"As pessoas querem apoiar a Palestina, mas não sabem que Palestina apoiar: a Palestina que elegeu o Hamás ou a Palestina na qual quem governa é o Fatah?" – pergunta o sociólogo Qadri Hefni. "Todos, os partidos políticos e as pessoas, a população em geral, são contrários a Israel e aos ataques contra os palestinenses, mas o governo é contra o Hamás e aliado de Máhmude Abbas. E a Fraternidade Muçulmana apoia o Hamás. As pessoas ficam sem saber o que fazer."

O governo egípcio está numa posição muito precária. O tratado de paz com Israel desmente as alegações anteriores de que o Egito não teve conhecimento prévio dos planos de Israel no ataque contra Gaza, e toda a credibilidade do governo Mubarak está abalada.

Mas Hefni acredita que o governo egípcio fez "esforços tremendos" para deter a agressão contra Gaza, por Israel, apesar de todas as circunstâncias.

"Não podemos fazer mais do que já fizemos. Temos muitos problemas domésticos. Esses que gritam que os egípcios devem atacar Israel, que vão e lutem para defender Gaza, em vez de perturbar a ordem pública e gritar slogans vazios."

Enquanto o número de mortos em Gaza não pára de aumentar, aumenta também a revolta nas ruas no Egito e em todo o mundo árabe.
Tradução: Caia Fittipaldi

20 de janeiro de 2009

O comandante-em-chefe enlouquceu


Por Uri Avnery, 17/1/2009


169 antes da guerra de Gaza, Heinrich Heine escreveu 12 versos premonitórios, sob o título de “An Edom” [para Edom]. O poeta judeu-alemão falava da Alemanha ou, talvez de todas as nações da Europa cristã. Escreveu o seguinte (aqui, em tradução precária[1]):

“Por mil anos e mais / vivemos um pacto / Você me deixou respirar / Eu deixei sua loucura crescer // Às vezes, quando os dias são mais escuros / Você é tomado de desejos estranhos / E pinta as garras / Com o sangue da vida das minhas veias // Hoje nossa amizade é firme / Cada dia mais forte, dia a dia / Porque sua loucura já ruge em mim / Eu, cada dia mais, à sua imagem.”

O sionismo, que surgiu cerca de 50 anos depois de esses versos terem sido escritos, realizou plenamente essa profecia. Os israelenses nos tornamos nação idêntica a outras, e a memória do Holocausto, de tempos em tempos, nos faz agir como as piores nações. Poucos israelenses conhecem esses versos de Heine, mas Israel, como país, é encarnação deles.

Nessa guerra, políticos e generais têm repetido que "o dono da barraca enlouqueceu", como gritam os feirantes, no sentido de "o dono da barraca enlouqueceu e está distribuindo tomates de graça." Mas ao longo do tempo algo foi acontecendo e converteu-se em doutrina mortal que muito seguidamente aparece no discurso público, em Israel: para deter os inimigos de Israel, Israel terá de agir como louco, sem limite, matar e destruir o mais possível, sem limite, sem piedade.

Nessa guerra, a loucura tornou-se dogma político e militar: só se Israel matar a maior quantidade possível de "eles", mil "eles" para cada dez "dos nossos", então "eles" entenderão que não vale a pena meter-se "com Israel". "Tem de entrar na consciência deles..." – é frase que se ouve muito, hoje em Israel. Daqui em diante, "eles" pensarão duas vezes antes de agredir Israel com Qassams, mesmo que em reação... ao que Israel faça a "eles", seja lá o que for.

É impossível avaliar o quanto há de vicioso nessa guerra, sem pensar no contexto histórico: o sentimento de vitimismo, depois de tudo que os judeus sofreram ao longo dos anos, e a convicção de que, depois do Holocausto, os judeus teriam algum direito de fazer qualquer coisa, qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa, para defenderem-se, sem peias, sem limites nem legais nem morais.

Quando estava no auge a matança e a destruição em Gaza, aconteceu algo, nos distantes EUA, que nada teve a ver diretamente com a guerra, mas, ao mesmo tempo, é muito intimamente conectado com ela.

O filme israelense “Waltz with Bashir[2] recebeu um importante prêmio internacional. Os jornais, em Israel, festejaram o prêmio com orgulho, tanto quanto atentamente não ofereceram nenhuma informação sobre o filme. Só até aí, já foi fenômeno interessante: saudou-se o sucesso de um filme, tanto quanto não se informou sobre o tema do filme.

"Waltz with Bashir" é um importante filme-documentário-animação sobre um dos capítulos mais negros da história de Israel: o massacre de Sabra e Chatila. Durante a I Guerra do Líbano, uma milícia de libaneses cristãos, sob os auspícios do exército de Israel, massacrou centenas de refugiados palestinenses, encurralados num campo de refugiados, homens, mulheres, crianças e velhos. O filme narra essa atrocidade com acuidade meticulosa, sem omitir a participação de israelenses.

Nada disso se leu nos jornais de Israel, no noticiário sobre o prêmio. Na cerimônia de premiação o diretor do filme protestou contra o massacre de Gaza. Não se sabe exatamente quantas mulheres e crianças estavam sendo assassinadas no momento em que acontecia a cerimônia – mas não há dúvidas de que o massacre em Gaza foi ainda mais terrível que o de 1982. Naquela ocasião, 400 mil israelenses saíram de casa e protestaram, nas ruas, em protesto espontâneo, que ninguém convocou, em Telavive. Hoje, apenas 10 mil israelenses têm ido às ruas, quase diariamente, para protestar contra a matança em Gaza.

A comissão oficial de investigação do governo israelense que investigou os eventos do massacre de Sabra declarou que "Israel foi indiretamente responsável" pela atrocidade. Vários altos funcionários e oficiais foram suspensos. Entre eles, um comandante-de-divisão, Amos Yaron. Nenhum dos demais indiciados, do ministro da Defesa, Ariel Sharon, ao chefe do estado-maior, Rafael Eitan, jamais manifestou uma palavra de arrependimento, mas Yaron expressou algum remorso, em discurso aos seus comandados, e admitiu: "nossa sensibilidade estava obnubilada".

Muitas sensibilidades continuam muito evidentemente obnubiladas, na guerra de Gaza.

A primeira guerra do Líbano durou quase 18 anos[3] e morreram mais de 500 soldados israelenses. Os arquitetos da segunda guerra do Líbano decidiram que a guerra seria mais curta, com menos israelenses mortos. Inventaram o princípio do "comandante louco": destruir tudo, vilas, cidades, devastação total, destruir, até reduzir a ruínas a chamada "infra-estrutura". Em 33 dias de guerra, já havia 1.000 libaneses mortos, praticamente todos civis – recorde que já foi batido em Gaza, no 17º dia.

Mesmo assim, houve muitas baixas, no exército de Israel, nos combates diretos; e a opinião pública que, então, de início, apoiara a segunda guerra tanto quanto apoiara a primeira, rapidamente mudou de direção.

Dessa vez, pairam sobre a guerra de Gaza os fumos da segunda guerra do Líbano. Em Israel, todos juraram que haviam aprendido as lições daquela guerra. Mas a principal lição que a segunda guerra do Líbano ensinou a Israel foi: não arriscar a vida de nenhum soldado. Uma guerra sem israelenses mortos. Como fazer? Usar um descomunal poder de fogo para pulverizar o que quer que haja, matar tudo que se mova, no campo de visão de... qualquer um. Matar. Matar os combatentes adversários e, também todos os seres humanos que haja à vista e que representem qualquer tipo de ameaça – mesmo que esteja identificado como médico ou como enfermeiro, mesmo que esteja dirigindo uma ambulância, mesmo que seja motorista de um caminhão que carrega comida. Destruir todos os prédios de dentro dos quais alguém possa, presumivelmente, atacar algum soldado israelense – mesmo que seja uma escola cheia de refugiados, doentes e feridos. Bombardear, com canhões e granadas todos os prédios, casas, mesquitas, escolas, comboios da ONU, até ruínas de túmulos onde tenham sido enterrados os mortos de ontem.

A mídia israelense devotou horas de atenção a um foguete Qassam que caiu sobre uma casa em Ashkelon, cujos três moradores levaram um susto, e alguns segundos às 40 mulheres e crianças assassinadas numa escola da ONU. As sobreviventes declararam que "atiraram contra nós a queima-roupa" – frase que a mídia em Israel imediatamente desqualificou como "evidente mentira".

O poder de fogo foi usado para semear o terror – bombardear tudo, de um hospital a um armazém da ONU em que se guardava comida para distribuição e mesquitas. O pretexto? O de sempre: "os soldados israelenses foram atacados".

Nada disso aconteceria, se toda a Israel já não estivesse com "a sensibilidade obnubilada". Os israelenses já não se chocam ante a imagem de um bebê mutilado, ou ao saber que crianças passaram dias ao lado do cadáver da mãe, porque soldados israelenses impediam que saíssem das ruínas de sua casa. Ninguém se importa: nem os soldados, nem os pilotos, nem os jornalistas, nem os políticos, nem os generais.

A insanidade moral contaminou todos os israelenses. O principal agente da contaminação, expoente nacional da insanidade moral em Israel, é Ehud Barak. De fato, já está sendo derrotado, em quociente de insanidade moral por Tzipi Livni, que sorriu, na televisão, ao falar desses eventos horripilantes. Nem Heinrich Heine poderia ter imaginado tudo isso.

Os últimos dias foram dominados pelo "efeito Obama”.

Estamos num avião e, de repente, aparece à frente uma enorme montanha, num vazio entre as nuvens. Na cabine, pânico: como evitar a colisão?

Quem planejou a guerra escolheu cuidadosamente o timing: nos feriados de fim de ano, todos fora de suas bases, e Bush ainda por aí. Parecem tem esquecido que, dia 20/1, Obama assumirá a Casa Branca.

Essa data, agora, lança uma sombra de pressa sobre todos. O Barak israelense sabe que, se o Barak norte-americano se zangar, é desastre na certa. Conclusão: os horrores em Gaza têm de cessar antes da posse de Obama. Essa semana, esse é o único fato a ser considerado em todas as decisões políticas e militares. Esqueçam "os foguetes", esqueçam "a vitória", esqueçam "quebrar o Hamás".

Com o cessar-fogo, surgirá a questão de decidir quem ganhou, quem perdeu.

Em Israel, só se fala sobre "o quadro da vitória" – não sobre alguma vitória; só se fala sobre "o quadro". A metáfora é essencialmente importante, para convencer a opinião pública israelense de que foi bom negócio. Nesse momento, todos, milhares de jornalistas, até o menor deles, estão mobilizados para a missão de pintar o tal "quadro".

Os líderes israelenses rugirão a propósito de duas "realizações": o fim dos foguetes e o fechamento da fronteira Gaza-Egito (também chamado "corredor Filadelfo"). Os foguetes poderiam ter sido controlados sem essa guerra assassina, se o governo de Israel tivesse concordado em negociar com o Hamás, depois de o partido ter sido eleito na Palestina. Os túneis nem teriam sido escavados, antes de tudo, se o governo israelense não tivesse imposto o bloqueio mortal, na Faixa de Gaza.

Mas o principal sucesso de que se vangloriarão os senhores-da-guerra em Israel é, ao mesmo tempo, o 'sucesso' da selvageria e da barbárie impressas no próprio projeto de guerra: as atrocidades, do ponto de vista deles, terão "efeito de contenção"; e esse efeito, crêem eles, perdurará por muito tempo.

O Hamás dirá que obteve imensa vitória; que a evidência de que sobreviveram em luta contra a gigante Israel e sua máquina de guerra é, só ela, vitória; um pequeno Davi contra o gigante Golias. É vitória. Nos termos das definições clássicas, exército vencedor é o que continua no campo de batalha, depois da batalha. O Hamás lá está. O governo do Hamás continua vivo na Faixa de Gaza, contra toda a guerra que foi feita para eliminá-lo. É feito significativo.

O Hamás dirá também que o exército de Israel não ocupou facilmente as cidades da Palestina onde havia combatentes do Hamás. É verdade. O exército já informou o governo de que tomar a cidade de Gaza custará a vida de cerca de 200 soldados; ninguém aceitará pagar esse preço, às vésperas das eleições.

Evidente verdade é, também, que uma força de guerrilheiros, alguns milhares de combatentes armados só com armas leves, lutou durante longas semanas contra um dos mais poderosos exércitos do mundo e que, em vários sentidos, conseguiu, sim, deter-lhe o avanço. Isso será visto por milhões de palestinenses e por todos os árabes e muçulmanos – e não só por esses – como vitória importantíssima.

No final, haverá alguma espécie de acordo, que incluirá os termos óbvios. Nenhum país admitiria que seus cidadãos vivam expostos a foguetes disparados de fora das fronteiras. Nenhuma população admitiria viver para sempre sob bloqueio desumano. Então, (1) o Hamás terá de desistir dos foguetes; (2) Israel terá de abrir os pontos de passagem entre a Faixa de Gaza e o resto do mundo; e (3) terá fim a entrada de armas para a Faixa (na medida do possível), como Israel pede. Chegar-se-ia ao mesmo resultado, sem guerra, se o governo de Israel não tivesse boicotado o Hamás.

Seja como for, os piores resultados dessa guerra já são visíveis e continuarão visíveis por muitos anos: Israel imprimiu terrível imagem dela própria na consciência do mundo.

Bilhões de pessoas viram os israelenses como bestas-feras, de dentes pingando sangue. Nunca mais voltarão a ver Israel como Estado que busca paz, progresso e justiça. A Declaração de Independência norte-americana fala com aprovação e recomenda "respeito decente às opiniões da humanidade". É sábio princípio.

Ainda pior é o impacto sobre as centenas de milhões de árabes que cercam Israel nessa parte do mundo: verão os combatentes do Hamás como heróis da nação árabe e, além disso, também verão seus próprios governos nacionais em plena nudez, como são: criminosos, venais, corruptos e traiçoeiros.

A derrota dos árabes na guerra de 1948 determinou, quase como consequência imediata, a queda dos regimes árabes de então e a ascensão de uma nova geração de líderes nacionalistas. De Gamal Abd-al-Nasser, por exemplo. A guerra de 2009 pode determinar a queda da atual safra de governantes árabes e a ascensão de uma nova geração de líderes – e podem ser fundamentalistas islâmicos que odeiam Israel e o ocidente.

Nos próximos anos, todos verão com clareza a absoluta loucura que foi a guerra de Gaza. O comandante-em-chefe enlouqueceu – no sentido literal das palavras.


* URI AVNERY, 17/1/2009, "The Boss Has Gone Mad", em Gush Shalom [Grupo da Paz], em http://zope.gush-shalom.org/home/en/channels/avnery/1232152100/. Tradução de Caia Fittipaldi, autorizada pelo autor.

[1] Em tradução de John Paine (em http://oldpoetry.com/opoem/65323-Heinrich-Heine-To-Edom-), do alemão para o inglês: "WITH each other, brother fashion, / Have we borne this many an age. / Thou hast borne with my existence, / And I borne have with thy rage. / Many a time, in days of darkness, / Wonder-strange hath been thy mood, / And thy dear and pious talons / Hast thou reddened in my blood. // Now our friendship groweth closer; / Nay, it waxeth daily now: / I myself begin to bluster / And am nigh as mad as thou."

[2] Sobre o filme-documentário-animação, há informação em http://cinematograficamentefalando.blogs.sapo.pt/323351.html

[3] Oficialmente, durou de 1975 a 1990, com períodos de trégua. Sobre isso, ver http://i-cias.com/e.o/leb_civ_war.htm