14 de outubro de 2006

Yeda X Olívio

Ir ao segundo turno com a Yeda Crusius não pode ser considerado exatamente como uma vitória.

Se alguém tinha dúvida de que a eleição do Rigotto, em 2002, foi engendrada pela mídia, agora, fica mais do que evidente o papel que ela exerceu na blindagem do seu governo. E antes que alguém diga que ele perdeu a eleição para a Yeda, eu digo que isso é irrelevante, na medida em que foi esta mesma blindagem que permitiu que a Yeda participasse da campanha sem que o fato de que ela fazer parte do governo Rigotto fosse apontado pela mídia como uma contradição.

O surgimento da Yeda com um discurso de “oposição” ao Governo Rigotto é uma piada que se assenta em dois pilares: esta blindagem produzida pela mídia e a profunda alienação de um eleitorado que é incapaz de perceber o óbvio, ou seja, Yeda e Rigotto são a mesma coisa.

Assim como cai por terra o argumento de que a mídia não é decisiva na formação das escolhas, também cai por terra aquilo que, na minha modesta opinião, é um mito: o gaúcho é o povo mais politizado do Brasil. Esta fantasia que infelizmente pautou muitas das ações políticas no Estado, particularmente do PT, que sempre confiou na capacidade do povo distinguir entre aquilo que é discurso demagógico e o que são realizações concretas, está na base da derrota do projeto de esquerda no Estado.

Esta incapacidade do eleitorado de fazer distinções entre projetos políticos e conversa fiada já vinha se configurando há um bom tempo. O sinal de alerta deveria ter sido disparado, no momento em que os gaúchos elegeram para Presidente o Lula e para Governador o Rigotto. Depois disso, a direita vence em Porto Alegre se apropriando das realizações do PT.

Agora, chegamos ao cúmulo da decadência, onde um projeto político sério e que trouxe realizações concretas ao Estado, é derrotado pela segunda vez por um vagabundo chamamento de campanha - “União pelo Rio-grande Afirmativo”. Esta frase, que sintetiza a falência da formação política, substituída pela picaretagem marqueteira, dá bem a dimensão do ponto a que chegamos. O Governo do Rigotto, da qual Yeda fez parte, só não foi uma hecatombe por conta dos projetos que o Olívio deixou engatilhados.

Para quem souber entender essa mensagem, isso significa que um projeto de esquerda dificilmente voltará ao poder no RS, a não ser que os partidos do campo popular, e particularmente o PT, encarem com seriedade a questão da mídia e da formação política. Isso significa abandonar definitivamente as fantasias de que iremos ganhar eleições com consultorias de marqueteiros, usando a mesma linguagem e a mesma simbologia da direita.

O campo popular precisa entender que estamos na era da Informação e da Desinformação e enquanto não se apropriar dos meios de manifestar seu pensamento e a sua opinião, fazendo um contraponto direto à mídia hegemônica, nosso futuro como força política está aniquilado.

O PT levou mais de 10 anos para chegar ao poder, exerceu administrações em Porto Alegre e no Estado reconhecidas mundialmente, mas que no plano local foram sistematicamente desgastadas por uma aliança político-midiática de direita. O campo popular foi derrotado no Estado, depois em Porto Alegre e, agora, recebe a pá de cal com esta última derrota. É preciso admitir que parte da responsabilidade caiba à incompetência crônica de alguns de seus quadros pela falta da compreensão do papel da mídia como espaço político.

O envolvimento do PT nos episódios de 2005 para cá não pode ser apontado como determinante desta derrota no RS, visto que o sentimento anti-petista já estava consolidado há muito tempo. Tais episódios só vieram a reforçar este sentimento.

Constatado isso, entendemos que a primeira providência a ser tomada após a derrota é a desconstrução deste sentimento e um intensivo trabalho de formação política que faça com que o eleitor entenda o processo político, identifique-se ideologicamente e vote por afinidade ao projeto do partido.

O resultado deste primeiro turno indica que o PT precisa recuperar parte do eleitorado que já era dele, ou seja, recomeçar praticamente do zero o que nos deixa muito longe da possibilidade de vencer o segundo turno. A derrota em Porto Alegre em 2004 evidencia isso.

Como se vê, o futuro não é muito animador.



Eugênio Neves

Artista Gráfico

01/10/06


2 comentários:

marconi leal disse...

Essa revirada no Sul é muito dolorosa, Claudia. Nós, do resto do país, sempre vimos aí um paraíso do bom senso, uma prova de que o Brasil poderia mudar de maneira digna. O RS durante longo tempo foi a vitrine do PT e deu força e também idéias inovadoras para as administrações que viriam no futuro. Mas, ainda somos neófitos em democracia, de maneira que não seria de estranhar uma retomada colorada por aí, ainda que pós a ascensão da famigerada paulista. Parabéns pelo blog, que conheci através do meu amigo Jean Scharlau e passo a meus favoritos. Grande abraço!

Claudia Cardoso disse...

Marconi, vivemos uma situação, creio eu, peculiar no RS. Temos uma empresa de mídia que ajudou a construir o anti-petismo. E a nossa esquerda, em particular o PT, não respondeu a isso à altura. Isso é um ponto. Talvez, os colorados voltem ao governo, pois a campanha do Olívio Dutra está impecável: aponta as contradições da Yeda, de forma documentada e apresenta o seu projeto de governo que soluciona tal questão. Ainda não finalizamos o post sobre este tema, logo estará no ar. Abraço e obrigado pela força!