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2 de novembro de 2010

Cobertura das Eleições: Oportunismo partidário

Por Marlos Mello em 2/11/2010 no Observatório da Imprensa

As eleições cumprem o papel fundamental de dar dimensão pública às questões políticas. Numa democracia, como a brasileira, os políticos sabem disso e, dependentes do voto e da avaliação popular, estão sempre em busca de espaço nos diversos meios de exposição. Sabe-se que somente os horários gratuitos de televisão e rádio não dão conta dessa almejada popularidade. Por isso, como forma de atrair a atenção dos eleitores, os candidatos não poupam discursos, nem mesmo atitudes que possam ampliar sua visibilidade.

O Brasil é um país de mais de 190 milhões de habitantes, dentre os quais estão os 135 milhões de eleitores, que se apresentam mais concisos em suas escolhas eleitorais. Porém esse número tão representativo não significa que há maior criticidade por parte do eleitorado. Este breve texto pretende apresentar algumas considerações a respeito das eleições brasileiras do ano de 2010. Não entraremos no mérito dos partidos e candidatos vencedores. Nosso objetivo é apresentar alguns dos desafios do novo cenário político brasileiro.

Para muitos eleitores, a política é simplesmente o fenômeno social mais assombroso e surpreendente que existe. há somente regras simbólicas de como os eleitores e eleitos devem se comportar. Neste sentido, não é exagero dizer que os cidadãos não percebem, ou talvez nem queiram perceber, a importância do contexto eleitoral. Como também não é exagero dizer que os candidatos, depois de eleitos, partem para novos desafios, ou seja, montar seu esquema de governo.

Cidades ficam paradas

Desse modo, os candidatos eleitos organizam a estrutura de trabalho do novo governo baseados nos acordos fixados em suas campanhas eleitorais. A impressão ainda prevalecente nos últimos anos de democracia brasileira é a de que a consciência e o consenso social evaporam no calor dos procedimentos de escolha dos ocupantes dos cargos majoritários. Geralmente, os oportunismos e fisiologismos partidários acabam tomando conta das principais pastas ministeriais. No nosso entendimento, o problema está na cultura política brasileira que é, simplesmente, uma cultura de acúmulo de cargos e funções distribuídas por autoconfiança do governante, mas esse é assunto para um próximo artigo.

As supostas autonomia e autossuficiência dos partidos políticos continuam a explorar a vasta porta eleitoral brasileira, que parece não ter fim, pois uma campanha eleitoral não termina nunca. Logo que uma eleição acaba, os partidos se organizam para uma nova batalha. Assim é, de dois em dois anos. Os critérios, embora desconhecidos por grande parte da população, parecem não deixar de fazer parte do cotidiano brasileiro. A dependência política é tão grande que a cada ano eleitoral as cidades ficam paradas em si mesmas, ou seja, projetos param, licitações deixam de acontecer e o centro das atenções são os candidatos e os eleitores.

Terrorismo eleitoral

Tal como se dá em outros setores da nossa vida, a política atinge patamares de importância altíssima. Isto se traduz nas características burocráticas da organização eleitoral, onde nem mesmo a Suprema Corte consegue julgar e decidir convictamente os fatos. Seria injusto apontar somente as deficiências das eleições brasileiras, porém atentando-se ao quadro de responsabilidade dos candidatos, especialmente no 2º turno, torna-se impossível não repugnar o comportamento de alguns que se propõem a dirigir os rumos do nosso país.

É preciso compreender que a democracia não deve ser praticada apenas quando convém a um ou outro candidato, mas está acima de quaisquer interesses pessoais. Infelizmente, hoje em dia acha-se largamente disseminada, nos grandes meios de comunicação, a ideia de que a democracia está associada a corrupção e impunidade. Contudo, não podemos deixar de nos manifestar a respeito do terrorismo eleitoral a que fomos submetidos. O oportunismo de alguns partidos políticos nos envergonha enquanto cidadãos e afasta até mesmo a possibilidade de respeito entre os candidatos.

Finalizando, as perguntas a que devemos dar resposta são as seguintes: Que atitudes e decisões significativas esperamos do novo governo? Continuaremos aprisionados ao modo de fazer política especulativa e, ultimamente, terrorista? O progresso brasileiro esta indubitavelmente vinculado a essas questões e não são os partidos que devem dar essas respostas. Na verdade, essas são preocupações fundamentais dos eleitores brasileiros.

7 de outubro de 2010

PT anuncia medidas contra "guerra suja" na campanha

Do Mulheres com Dilma:

Combate à “guerra suja” de boatos na campanha

O Partido dos Trabalhadores anunciou duas medidas importantes para combater os boatos e as falsidades contra a campanha de Dilma Rousseff. A coligação Para o Brasil Seguir Mudando lançará um manifesto para acabar com a "guerra suja" vista no final do primeiro turno das eleições presidenciais.

O segundo ponto é o pedido à Polícia Federal (PF) para investigar a autoria do panfleto apócrifo distribuído ontem no encontro nacional do PSDB e aliados que apóiam a candidatura de José Serra. O texto orienta como difundir uma campanha contra Dilma na internet. O caso foi noticiado no blog do jornalista Fernando Rodrigues.

"O manifesto faz uma análise do primeiro turno e contém uma avaliação de como deve ser a discussão do segundo turno, que vai balizar a ação política da militância do PT e dos partidos aliados", disse o presidente do PT, José Eduardo Dutra, após reunião da Executiva do partido, em Brasília.

Segundo ele, "queremos evitar e repelir esta verdadeira guerra suja que está sendo feita por alguns setores, tentando inclusive colocar temas religiosas como centro de uma disputa eleitoral".

No documento, além de combate à boataria, os partidos da coligação querem comparar os projetos das gestões Lula e Fernando Henrique Cardoso. Também apontarão os problemas questionamentos sobre as privatizações dos anos 90, a dependência de programas do Fundo Monetário Internacional e sobre o marco regulatório do pré-sal, que mudou o sistema de concessão para o sistema de partilha de produção de campos de petróleo.

“Vamos continuar fazendo uma campanha de debate de idéias, de projetos. Todas as vezes que nos sentirmos caluniados, atacados, todas as vezes que detectarmos prática de crimes vamos recorrer aos órgãos competentes", garante Dutra.

24 de setembro de 2010

A imprensa como partido político

Por Washington Araújo em 20/4/2010 no Observatório da Imprensa
Esperei baixar a poeira. Em vão, porque a poeira existiu apenas na internet. E tudo porque me causou estranheza ler no diário carioca O Globo (18/3/2010) a seguinte declaração de Maria Judith Brito, presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e executiva do grupo Folha de S.Paulo:
"A liberdade de imprensa é um bem maior que não deve ser limitado. A esse direito geral, o contraponto é sempre a questão da responsabilidade dos meios de comunicação e, obviamente, esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada. E esse papel de oposição, de investigação, sem dúvida nenhuma incomoda sobremaneira o governo." E como a poeira não baixou resolvi colocar no papel as questões que foram se multiplicando, igual praga de gafanhotos, plantação de cogumelos, irrupção de brotoejas. Ei-las:

1. É função da Associação Nacional de Jornais, além de representar legalmente os jornais, fazer o papel de oposição política no Brasil?

2. É de sua expertise mensurar o grau de força ou de fraqueza dos partidos de oposição ao governo?

3. Expirou aquela visão antiquada que tínhamos do jornalismo como sendo o de buscar a verdade, a informação legítima, para depois reportar com a maior fidelidade possível todos os assuntos que interessam à sociedade?

4. Como conciliar aquela função antiquada, própria dos que desejam fazer o bom jornalismo no Brasil, como tentei descrever na questão anterior, com a atuação político-partidária, servindo como porta-voz dos partidos de oposição?

5. Sendo o Datafolha propriedade de um dos grandes jornais do Brasil e este um dos afiliados da ANJ, como deveríamos fazer a leitura correta das pesquisas de opinião por ele trabalhadas? O Datafolha estaria também a serviço de uma oposição "que no Brasil se encontra fragilizada"?

6. Na condição de presidente da Associação Nacional dos Jornais (ANJ) será que Maria Judith Brito não se excedeu para muito além de suas responsabilidades institucionais?

7. Ou será próprio de quem brande o estatuto da liberdade de imprensa que entidade de classe de veículos de comunicação assuma o papel de oposição política no saudável debate entre governo e oposição?

8. Historicamente, sempre que um dirigente ou líder de partido político de oposição desanca o governo, seja justa ou injustamente, é natural que o governo responda à altura e na mesma intensidade com que o ataque foi desferido. Mas, no caso atual, em que a ANJ toma si para a missão de atuar como partido político de oposição, não seria de todo natural esperar que o governo reaja à altura do ataque recebido?

9. E, neste caso, como deveria ser encarada a reação do governo? Seria vista como ataque à liberdade de expressão? Ou seria considerado como legítima defesa de da liberdade de expressão ou de ideologia?

Claro e transparente

10. Durante o período de 1989 a 2002, em que a oposição política no Brasil esteve realmente fragilizada, e ao extremo, não teria sido o caso de a ANJ ter tomado para si as dores daquela oposição, muitas vezes, capenga?

11. E, no caso acima, como a ANJ acha que teriam reagido os governos Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso?

12. Com o histórico de nossos veículos de comunicação, muitos deles escorados em sua antiguidade, como aferir se há pureza de intenções por parte da ANJ em sua decisão de tomar para si responsabilidade que só lhe poderia ser concedida pelo voto dos brasileiros depositados nas urnas periodicamente? Não seria uma usurpação de responsabilidade?

13. Afinal, não é através de eleições democráticas e por sufrágio universal e secreto que a população demonstra sua aprovação ou desaprovação a partidos políticos?

14. Será legítimo que, assinantes de jornais e revistas representados pela associação presidida por Maria Judith Brito passem, doravante, a esmiuçar a cobertura política desses veículos, tentando descobrir qual a motivação dessa ou daquela reportagem, dessa ou daquela nota, dessa ou daquela capa?

15. E quanto ao direito dos eleitores de serem livremente informados... que garantias estes terão de que serão informados, de forma justa e o mais imparcial possível, das ações e idéias do governo a que declaradamente se opõe a ANJ?

16. Para aqueles autoproclamados guardiães da liberdade de expressão e do Estado democrático de direito: será papel dos meios de comunicação substituir a ação dos partidos políticos no Brasil, seja de situação ou de oposição?

17. Em isso acontecendo... não estaremos às voltas com clássica usurpação de função típica de partido político? E não seria esta uma gigantesca deformação do rito democrático?

18. Repudiam-se as relações deterioradas entre governo e mídia na Venezuela, mas ao que tudo indica nada se faz para impedir sua ocorrência no Brasil. Ironicamente, os maiores veículos de comunicação do país demonizam o país de Hugo Chávez. A origem do conflito político na Venezuela não está umbilicalmente ligado ao fato que na Venezuela os meios de comunicação funcionam como partido político de oposição, abrindo mão da atividade jornalística?

19. Esta declaração da presidente da ANJ, publicada no insuspeito O Globo, traduz fielmente o objetivo de a ANJ estabelecer a ruptura com o governo, afetar a credibilidade da imprensa e trazer insegurança a todos os governantes, uma vez que serve também aos governos estaduais e dos municípios onde a oposição estiver fragilizada?

20. Considerando esta declaração um divisor de águas quanto ao sempre intuído partidarismo e protagonismo político dos grandes veículos de comunicação do país, será que não seria mais que oportuno e inadiável a ANJ vir a público esclarecer tão formidável mudança de atitude e de missão institucional? Por que não abordar o assunto de forma clara e transparente nas páginas amarelas da revista Veja? Por que não convidar a Maria Judith Brito para ser entrevistada no programa Roda Vida da TV Cultura? Por que não convidá-la para o Programa do Jô? E para ser entrevistada pelo Heródoto Barbeiro na rádio CBN? Por que não solicitar a leitura de "Nota da ANJ"sobre o assunto no Jornal Nacional? Por que não submeter texto para publicação na seção "Tendências/Debates" do jornal Folha de S.Paulo, onde a presidente trabalha? De tão interessante não seria o momento de a revista Época traçar o perfil de Maria Judith Brito? E que tal ser sabatinada pela bancada do Canal Livre, da Band?

Prudente e sábio
Já que comecei falando de estranheza, estranhamento etc., achei esquisito a não-repercussão ostensiva da fala da presidente da ANJ junto aos veículos de seus principais afiliados. Estratégia política? Opção editorial? Ou as duas coisas?

Finalmente, resta uma questão de foro íntimo: que critério deverei usar, doravante, para separar o que é análise crítica própria de um partido político, para consumo interno de seus filiados, daquilo que é matéria propriamente jornalística, de interesse da sociedade como um todo?

Todos nós, certamente, já ouvimos centenas de vezes o ditado "cada macaco no seu galho". E todos nós o utilizamos nas mais diversas situações. O ditado é um dos mais festejados da sabedoria popular, é expressão de conhecimento, nascido da observação de fatos; um aprendizado empírico. Vem de longa data e se estabelece porque pode ser comprovado através da vivência e mais recentemente foi citado por Michel Foucault e Jurgen Habermas. No caso aqui abordado, o ditado popular cai como luva assim como as palavras de Judith Brito ficarão por muito tempo gravadas no bronze incorruptível da nossa memória.

Mesmo assim sinto ser oportuno aclarar que entendo como papel da mídia atividades como registrar, noticiar os fatos, documentar, fiscalizar os poderes, denunciar abusos e permitir à população uma compreensão mais ampla da realidade que nos abarca. Neste rol de funções não contemplo o de ser porta-voz de partido político, seja este qual for. Ora, o governo tem limites de ação: operacionais, constitucionais, políticos. A mídia, quando não investida de poderes supraconstitucionais, também tem seus limites que não são tão flexíveis a ponto de atender as conveniências dos seus proprietários ou concessionários. É prudente e sábio reconhecer que em uma sociedade democrática todos os setores precisam de regulação – e a mídia não é diferente. E é bom que não seja. Afinal, a lei é soberana e a ela todos devem se submeter, já escrevia o pensador Shoghi Effendi (1897-1957) na segunda metade de 1950. Nada mais atual que isto.

9 de agosto de 2010

O direito de resposta do PT que a revista Veja teve que engolir



O texto do direito de resposta acima é o seguinte:

Ao reproduzir declarações de candidato a vice-presidente, a revista endossa e amplifica ofensas ao PT que foram objeto de sanção da Justiça Eleitoral ao PSDB.

Em defesa de sua honra, de seus dirigentes, filiados e militantes, e em respeito à população brasileira, que tem o direito de ser corretamente informada, o Partido dos Trabalhadores vem desfazer inverdades publicadas pela revista Veja, na Edição 2.175.

O PT é um partido político democrático, registrado desde 1980 no Tribunal Superior Eleitoral, que defende a Constituição e cumpe rigorosamente a lei.

O PT condena o terrorismo, repudia a violência, pratica e defende a via democrática para a solução de conflitos.

As relações do PT com partidos políticos de diversos outros países são pautadas pela busca da cooperação entre os povos e pela construção da paz mundial.

O repúdio ao narcotráfico, que corrói a juventude, atemoriza a população e corrompe a sociedade, é parte constitutiva do ideáiro e da prática do PT desde a fundação do partido.

O PT combate com firmeza o narcotráfico e o crime organizado, por meio de sua representação no Poder Legislativo, de suas administrações municipais, estaduais e, especialmente, na Presidência da República.

Ao longo de sua existência, o PT demonstrou que não transige com o crime nem se relaciona com o narcotráfico. Afirmar o contrário, como fez a revista Veja, é transigir com a verdade.

4 de junho de 2010

A TV Cultiva acaba de entrar no ar


Trata-se de uma Web TV: WWW.TVCULTIVA.COM.BR. A partir de agora, cursos, palestras e análises de conjuntura estarão disponíveis neste site, com gravações de 30 minutos. Muitos vídeos serão disponibilizados gratuitamente e outro tanto será comercializado por um custo muito baixo. Já disponibilizamos um curso sobre Gestão Participativa em Rede, metodologia criada para descentralizar gestões municipais, integrar secretarias, criar sistema de comunicação e planejamento participativos (do território para a unidade central de gestão municipal e tradução local dos programas gerais) e controle social. Também disponibilizamos um curso sobre reforma de Estado, administração e políticas públicas (incluindo análise sobre as propostas neoliberais, Estado Gerencial e modelos de gestão participativa. Cada curso composto por 10 aulas a 10 reais cada aula. O cursista receberá textos de apoio incluídos.

Em poucos dias, disponibilizaremos vídeos de análise de conjuntura e outros cursos. Também disponibilizamos palestras sobre bonapartismo e modernização conservadora, conceitos que André Singer (bonapartismo) e eu (modernização conservadora) para analisar o lulismo.

Em algumas semanas, disponibilizaremos um vídeo em que eu sou sabatinado pelos jornalistas Merval Pereira (O Globo), Paulo Passarinho (Rádio Bandeirantes RJ) e Roberta Zampetti (Rede Minas) a respeito do meu livro (Lulismo: da Era dos Movimentos Sociais à ascensão da Nova Classe Média), que será lançado dia 22 de junho.

Finalmente, criamos um espaço específico para consultoria online, para prefeituras, sindicatos, ongs, fundações, a partir de pagamento de mensalidade a preço reduzido. É possível reduzir em quase 90% o custo mensal de uma consultoria a partir deste recurso, com atendimento online, produção de material à distância, empregando o que há de mais contemporâneo e eficiente para atender com rapidez demandas específicas.

Aproveite. Deu um trabalhão imenso para criarmos esta inovação. Use e abuse.

Rudá Ricci

23 de maio de 2010

Koutzii e a degradação da política


"Apesar da degradação da política, da indução dos grandes centros midiáticos e da direita, o episódio eleitoral é arena de disputa onde não somente se escolhe candidato, partido e projeto mas também se pode restaurar valores, história, capacidade crítica e compreensão analítica, quer dizer, mais condições para os humanos, mais liberdade e mais Brasil."

Com esta frase, Flávio Koutzii encerra seu artigo Nesses momentos políticos... publicado no Sul21, onde aborda a "profunda fragilização do pensamento e da reflexão", nesse momento da história. Para sustentar sua argumentação, Koutzii recorre a vários exemplos encontráveis diariamente na mídia oligopolizada, que é, sem sombra de dúvida, a maior responsável pelo "empobrecimento do pensamento".

Sendo assim, parece improvável que um "episódio eleitoral", por si só, possa produzir alguma mudança significativa nessa tendência. Como é possível que as pessoas possam distinguir com clareza, em meio a esse turbilhão de desinformação, qual o projeto político que tem propostas reais e inovadoras e qual o projeto que quer, simplesmente, manter os privilégios da minoria? A mídia, controlada com mão de ferro por essa minoria, tem demonstrado que não tem a mínima intenção de lançar luzes sobre a realidade do presente e tão pouco "ficar olhando pelo espelho retrovisor".

Aliada a determinação da mídia em obstruir qualquer debate construtivo, está o desinteresse natural da maioria das pessoas por qualquer coisa que seja minimamente relevante. E entre essas coisas que a maioria não tem interesse ou não gosta de discutir, pode-se dizer que a política ocupa um lugar de destaque.

É preciso reconhecer que esse desinteresse não é só natural, também é construído e tem se acentuado dramaticamente com a campanha midiática no sentido de desqualificar a política e os políticos e seu papel fundamental na mediação dos interesses conflitantes dentro das sociedades. Sei que toco num ponto que é tabu na esquerda: a crença de que o povo é uma espécie de depositário de toda a sabedoria e em função disso, tudo o que emana dele está automaticamente legitimado, crença essa que pode ser resumida no dito popular "a voz do povo é a voz de deus". Se assim fosse, o campo progressista não estaria hoje na embretada em que se encontra. O mundo foi envolvido numa espiral conservadora após o desmantelamento do bloco soviético e, mesmo agora, depois da última crise mundial, a agenda neoliberal continua praticamente intacta. E, ainda, pasmem, responsabilizando os estados nacionais pelas débâcles econômicas por não "fazerem a lição de casa"! E que percepção tem as massas disso tudo?

Li, outro dia, um texto de um analista sobre a crise grega, onde ele exaltava o povo grego pelas manifestações contra as medidas ortodoxas do governo para combater a crise. Bom, nesse momento, só faltava o povo grego não ir às ruas! Ao invés de se aclamar esse protagonismo tardio, não seria de se perguntar, onde estava esse povo enquanto a crise era gestada? Ainda mais se considerarmos que a débâcle grega se deu bem depois da crise na Argentina, por exemplo, que pode ser considerado um caso clássico de país que se submeteu, incondicionalmente, ao receituário neoliberal.

Ao reconhecer-se, como Koutzii reconhece, que "a simplificação maniqueísta, a ampliação do fragmento e a supervalorização de fatos isolados e pontuais... se acentuaram radicalmente neste período histórico", como pode-se esperar do eleitor médio discernimento suficiente para enxergar através desse emaranhado de desinformação veiculado pela mídia? E isso é tão verdade quanto mais que se sabe, que não é preciso valer-se do exemplo grego para perceber o quanto a percepção que o eleitorado tem da realidade está terrivelmente distorcida. É só ver como andam as pesquisas de intenção de voto no RS. Mesmo depois da devastação yedista, nossos eleitores, somadas as intenções em Yeda e Fogaça, continuam chancelando a direita. E em âmbito nacional, só o fato de Dilma ter que disputar com Serra, um candidato que sequer deveria aparecer nas pesquisas, por si só já é uma derrota. Como nosso povo ainda dá crédito a uma figura como Serra, cujo governo é marcado pela incompetência e pela corrupção?

Então, não me parece que uma eleição disputada num cenário dominado pela mídia corporativa, possa "restaurar valores, história, capacidade crítica e compreensão analítica". E o fato do eleitorado ser naturalmente desinteressado pela política, ou induzido a esse desinteresse, passa a ser secundário, quando discutido exclusivamente no âmbito de uma eleição, já que tentar reverter esse quadro - o desinteresse - é praticamente impossível no curto período eleitoral.

Por outro lado, se considerarmos esse desinteresse como uma construção midiática, insidiosa e permanente, aí sim, ele torna-se relevante e obriga o campo progressista a revisar profundamente sua forma de fazer política. Obriga-o a uma decisão impostergável frente a uma questão que ele vem negligenciando grosseiramente: o enfrentamento à mídia hegemônica. A mim parece que o processo eleitoral no ambiente político de uma democracia burguesa, que tem na mídia oligopolizada sua viga mestra, não consegue fazer as transformações políticas necessárias. Isso já está fartamente demonstrado. As transformações só serão possíveis no momento em que a esquerda chamar para si a tarefa de construir sua própria mídia e ser capaz de fazer frente ao oligopólio que controla as comunicações no Brasil. Só será possível recompor a "capacidade crítica e compreensão analítica" da população, quando pudermos promover um debate democrático e permanente, por fora do controle oligopolizado da mídia.

A mudança não se dará através de "episódios eleitorais" por si só, mas através de uma mídia que promova um debate que possa influir nas eleições. Influir a favor do campo progressista, bem entendido. Porque, pelo lado da direita, a mídia corporativa, os partidos conservadores e os interesses da classe dominante se mesclam de tal forma para influir nos resultados eleitorais, que chega a ser redundante. Não foi à toa que a presidente da ANJ disse, sem meias palavras, que a mídia estava assumindo o papel de oposição ao governo Lula, diante daquilo que ela considerava a fragilidade dos partidos da direita para tal missão.

Cartum: Edgar Vasques
Atualizado às 13h20min.

16 de maio de 2010

Desencanto de cuecas


Estranhas as declarações do Sen. Pedro Simon [PMDB/RS] sobre a política e o seu desencanto com aquilo que ele próprio fez toda a vida. Antes de se desencantar com a política, o senador deveria estar mais preocupado sobre a decepção que seus eleitores devem ter em relação a ele. Em algum momento da vida política do nosso estado, os que desejavam a volta do regime democrático, votaram nele. Não podemos esquecer que Simon foi o primeiro político de oposição eleito governador do RS, após o período do arbítrio. O que acabou, rapidamente, transformando-se em decepção, pois Simon largou no meio o seu cargo de governador, para concorrer ao Senado, onde está até hoje, fazendo discursos inflamados, impregnados de revolta cívica e se "decepcionando" com a política. E se a política está transformada nisso que vemos hoje, muito se deve à atuação, ou a falta dela, por parte de políticos como ele. Simon ficou décadas no poder, com mandato que lhe foi outorgado nas urnas e nunca moveu uma palha para fazer a necessária reforma política que, hoje, poderia evitar esse seu desencanto.

Mas, se o senador, não foi capaz de, reconheçamos, levar adiante essa tarefa hercúlea, poderia, pelo menos, ter se comportado, em determinados episódios, com um mínimo de ética, já q ele sempre fez questão de posar como um bastião moralidade pública. No entanto, sua ética e moralidade tem características singulares: são seletivas. Isto ficou escancarado em relação aos fatos nebulosos envolvendo os governos Britto [na época PMDB] e Rigotto [PMDB] e os escabrosos, envolvendo o governo de Yeda Crusius [PSDB]. Enquanto criticava aquilo que ele considerava como fatos comprometedores do Governo Lula [PT], dava apoio declarado aos seus aliados políticos aqui no estado. Tanto que isso lhe rendeu a pecha de ter uma moral delimitada geograficamente: uma para acima e outra para abaixo do Mampituba.

Então, Senador Pedro Simon, quem deve se decepcionar com quem?

Leia mais sobre o assunto no Sul21 AQUI.

5 de abril de 2010

O papelão da mídia guasca

Marcha dos Sem, 1999.

Tivemos o desprazer de ouvir programa de rádio da Gaúcha esta tarde. Há coisas que acontecem com a gente que é maior que a nossa vontade.

No entanto, sempre aprendemos alguma coisa de más experiências. A primeira constatação: mas que programinha mais chato foi o da tarde! Um Ostermann com riso forçado, durante entrevista, depois outra de um curso, cujas matrículas já estavam encerradas! Pautas sensacionais! Imagina ficar sem essas informações valiosíssimas para a educação da gente!

Passado o tédio da programação, entra o "Chamada Geral" com o André Machado. A reportagem maior foi a respeito do assassinato do ex-Vice Prefeito e ex-Secretário da Saúde de Porto Alegre, Eliseu Santos. Foi quando soubemos, que a DEIC também chamou uma coletiva de imprensa para divulgar sua "opinião" a respeito do trabalho do Ministério Público Estadual.

Daí, o editor [ou será editora?] do "Chamada Geral" se desdobrou... em mostrar o "quão injustiçada" foi a Polícia Civil pelo MPE. Na edição, ouvimos a manifestação de três delegados, durante a tal coletiva. Quando tocou a vez de tratar do tema da coletiva do MPE, entra a entrevista concedida pela Promotora Lúcia Helena Callegari. A/o ouvinte não teve a oportunidade de ouvir a manifestação dos promotores durante a própria coletiva.

Escancarou-se, mais uma vez, o lado que o Grupo RBS, através de seu programa de rádio, tomou frente ao caso: o da Polícia! Como bem escreveu o Diário Gauche, esse Grupo é uma empresa enxovalhada, que reforça, ainda mais, o seu papel vergonhoso e criminoso de mal informar a população. Segue na toada de proteger alguém, ou alguma instituição, a fim de não favorecer o inimigo estratégico desse partipo político ilegal, conhecido como PRBS: o Partido dos Trabalhadores. Alguma dúvida?

A eleição 2010 está aí e a mídia tem seu inimigo partidário

Da Câmara de Vereadores, a repórter escalada, cujo nome não recordamos agora, apresentou gravação da manifestação do Ver. Pedro Ruas [PSOL] em Planário. Falou da adesão da Ver. Neusa Canabarro [PDT] ao requerimento da CPI, como "surpresa", mas não falou, em momento algum, na sigla, ou em algum vereador do Partido dos Trabalhadores. Apenas sugeriu, que a "oposição" conseguiu 11 assinaturas, restando 1 para a instalação desta Comissão. Invisibilidade, silêncio, negação da participação do PT nos pedidos de CPI na Câmara de Vereadores.

Este movimento de abafa do caso Eliseu Santos, pela mídia guasca, em especial, pelo Grupo RBS, tem seta apontada para a eleição deste ano. Existe um pavor real, de que o Partido dos Trabalhadores assuma o executivo estadual. Quando o Olívio Dutra venceu a eleição em 1998, o desespero tomou conta do PMDB, e do PRBS, pois algumas privatizações andavam de vento em popa e a derrota do Britto enterrava a mamata, seja pela participação direta do Grupo RBS em privatizações a preço de banana, seja em função da grana que ganharia com novos anunciantes.

Mas, em 2010, depois de oito anos de desgovernos no RS, por que o Grupo RBS pode detestar a vitória de Tarso Genro [PT]? E por que uma empresa privada de comunicação se acha no direito e no dever de ditar as regras eleitorais no RS?

O esquema de tentar dois candidatos do PRBS, no pleito de outubro de 2010, está reativado. O Grupo RBS tem dois candidatos: Yeda Rorato Crusius[PSDB] e José Fogaça.[PMDB]. Como ambos tem seus governos envolvidos em escândalos de desvio de dinheiro público, uma mais que o outro, é chocante ver uma empresa de comunicação desejar associar sua "marca" a tão péssimas companhias. A não ser que seja farinha do mesmo saco.

Mais: uma empresa de comunicação pode e deve abrir o seu voto, mas agir como partido político foge à sua alçada. É uma ação ilegal.

Compromisso com a Verdade

Por fim, a pergunta que não quer calar, qual é a ligação, se é que existe, entre a mídia guasca, em especial o Grupo RBS, e a Polícia Civil? Por que tomar partido dos delegados, da Polícia, se uma mídia com "M" deveria ter seu compromisso COM A VERDADE, com a realidade factual, doa, a quem doer?

1 de abril de 2010

Empresas de mídia não são partidos políticos


Finalmente, mesmo que através de um ato falho, alguém ligado às altas instâncias da mídia corporativa admite que ela age como partido político. A declaração foi de Maria Judith Brito [foto], presidenta da ANJ. Segunda Maria Judith:

"A liberdade de imprensa é um bem maior que não deve ser limitado. A esse direito geral, o contraponto é sempre a questão da responsabilidade dos meios de comunicação. E, obviamente, esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada. E esse papel de oposição, de investigação, sem dúvida nenhuma incomoda sobremaneira o governo."

Tal declaração transpor o âmbito daquela associação, provavelmente, deva-se ao fato de que os jornalistas, que fizeram a cobertura do evento, não terem avaliado o quanto ela seria comprometedora para o discurso de imparcialidade que as corporações midiáticas insistem em alardear.

Vindo de quem vem, essa declaração expõe uma enorme contradição. Maria Judith defende a liberdade de imprensa como um bem que não pode se sujeitar a qualquer limitação. Mas, a mídia ao assumir o papel de partido político, acaba, ela própria, impondo os limites à tão desejada liberdade de imprensa, pois as pautas são ajustadas aos seus "interesses partidários". Assim, o distanciamento mínimo para operar a informação com credibilidade fica comprometido. O que, no final das contas, é o que estamos vendo.

Abrir o voto e identificar-se ideologicamente é tão necessário, quanto desejável, para que o público saiba quem defende o que. No caso da mídia, seja ela corporativa ou blogueira, ao agir como partido político, invade instâncias estranhas à sua função. Ela não pode representar a sociedade, simplesmente, porque seus integrantes não estão sujeitos aos periódicos processos eleitorais, que caracterizam a vida dos partidos. Isso, por si só, já define muito bem o limite da sua atuação. E temos ainda a considerar o agravante de que, no Brasil, as empresas de comunicação são, essencialmente, privadas; agem como qualquer outra empresa privada, defendendo seus interesses corporativos e estão sob controle de um grupo muito restrito.

Além do mais, as legislações que regem partidos políticos e empresas de comunicação são completamente diferentes. Se fosse possível levar até às últimas consequências as palavras da Presidenta da ANJ, poderíamos dizer que ela está incorrendo em ilegalidades diversas, tanto do ponto de vista do funcionamento das empresas de comunicação, como dos partidos políticos.
Leia também o Diário Gauche e o blog do Jorge Furtado.
Atualizado em 2 de abril de 2010 às 21h26min.
Foto Eliária Andrade/O Globo

23 de setembro de 2009

Deputados da CCTCI abandonaram sessão



A Comissão Nacional Pró-Conferência Nacional de Comunicação escreveu nota de repúdio sobre episódio ocorrido na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara dos Deputados dia 16 de setembro de 2009, no qual deputados retiraram-se da sessão para não votar o requerimento da Deputada Luiza Erundina [PSB/SP], que pedia a avaliação da concessão dada à empresa Rádio e Televisão Bandeirantes de Minas Gerais para transmitir programação de TV em Belo Horizonte. O requerimento volta para a pauta no dia 23 de setembro.

A lista dos que se retiraram da sessão:

Beto Mansur (PP/SP)
Bilac Pinto (PR/MG)
José Rocha (PR/BA)
Narcio Rodrigues (PSDB/MG)
Paulo Lustosa (PMDB/CE)
Ratinho Júnior (PSC/PR)
Wladimir Costa (PMDB/PA)
Márcio Marinho (PR/BA)
Flávio Bezerra (PMDB/CE)
Nelson Meurer (PP/PR)
Bispo Gê (DEM/SP)
Eduardo Gomes (PSDB/TO)
Eleuses Paiva (DEM/SP)
Emanuel Fernandes (PSDB/SP)
Manoel Salviano (PSDB/CE)
Solange Amaral (DEM/RJ)
Rômulo Gouveia (PSDB/PB)
Julio Semeghini (PSDB/SP)
Lobbe Neto (PSDB/SP)
Edigar Mão Branca (PV/BA)

Como se vê, a tática é a mesma utilizada pelos deputados que constituem a CPI da Corrupção sobre o Governo Yeda Crusius: quando não se deseja tratar de assunto importante à democracia, simplesmente, retiram-se da sala e não se discute!

A nota termina assim:

11 de setembro de 2009

Impedimento da Governadora nos jornais de hoje

Capa e agenda positiva, ou seja, é preciso anunciar, mas a principal voz é a do Governo Estadual:

Capa do tipo "desculpe, mas é preciso anunciar":

É preciso lupa para ler a manchete acima de O Sul.


Capa silêncio total e a comunidade popular que se exploda em matéria de informação:


Ontem, no evento Cidades Criativas, o funcionário do Grupo RBS Luiz Antônio Araújo afirmou, que os jornais atuais não estão mais ligados a partidos políticos. O que ele não disse, é que, se não possuem vínculo político partidário, é porque suas agendas são maiores, ou seja, é fazer política de direita, conforme os partidos e políticos que melhor se adequarem aos seus interesses econômicos daquele momento. Sofismar é a tônica dos funcionários de mídia corporativa.

Os jornais do centro do país, em suas páginas na Internet, no dia 10/09/09 sobre esse assunto: leia o FBI AQUI e o Mídia Mundo AQUI.

9 de setembro de 2009

Sobre partidos políticas e a imprensa


Vale a pena resgatar a analogia, feita por Perseu Abramo, entre partido político e imprensa, em tempos de silêncio midiático no RS.

Ensina o mestre:

[...] os grandes e modernos órgãos de comunicação, no Brasil, parecem-se efetivamente muito com partidos políticos.

1. Da mesma forma que os partidos têm seus manifestos de fundação, seus programas, suas teses, os órgãos de comunicação têm seus projetos editoriais, suas linhas editoriais, seus artigos de fundo.


2. Os partidos têm estatutos, regimentos internos e regulamentos; os órgãos de comunicação têm seus Manuais de Redação, suas Normas de Trabalho.

3. Os partidos têm seu aparato material: sedes, móveis e equipamentos, verbas, veículos, etc. Os órgãos de comunicação também têm seu aparato material, freqüentemente mais diversificado e mais moderno que o da média dos partidos.


4. Os partidos têm seus filiados, seus militantes, seus quadros dirigentes centrais e intermediários. Os órgãos têm o equivalente: empregados, chefes, diretores, editores, de quem exigem adesão e fidelidade freqüentemente maior que a que os partidos exigem de seus filiados.


5. Os partidos têm normas disciplinares com as quais aplicam sanções aos filiados que se afastam da linha partidária. Os órgãos também têm normas disciplinares, com as quais aplicam prêmios de reforço aos mais fiéis, e rebaixamentos, suspensões e expulsões aos que se desviam da linha editorial.

6. Os partidos têm sede central, diretórios regionais e locais, células, núcleos, áreas de influência e intercâmbio com entidades do movimento social. Os órgãos têm sede central ou matriz, sucursais correspondentes e enviados especiais, contratos e convênios com outros órgãos e com agências internacionais.


7. Os partidos são um ponto de referência para segmentos sociais, têm seus simpatizantes e seu eleitorado. Os órgãos também são um ponto de referência para milhares ou milhões de leitores/espectadores, têm seus simpatizantes e seguidores, o seu leitorado.


8. Os partidos procuram ter os seus boletins, o seu jornal, a sua revista, seus volantes e panfletos, seus carros de som e seus palanques com alto-falantes, enfim, seus meios de comunicação. Os órgãos de comunicação são os meios de comunicação de si mesmos enquanto partidos.


9. Os partidos procuram conduzir partes da sociedade ou o conjunto da sociedade para alvos institucionais, para a conservação de algumas instituições e para a transformação de outras; têm enfim um projeto histórico relacionado com o Poder. Os órgãos de comunicação também procuram conduzir a sociedade, em parte ou no todo, no sentido da conservação ou da mudança das instituições sociais; têm, portanto, um projeto histórico relacionado com o Poder
.

10. Os partidos têm representatividade, em maior ou menor grau, na medida em que exprimem interesses e valores de segmentos sociais; por isso destacam, entre seus membros, os que disputam e exercem mandatos de representação, legislativa ou executiva. Os órgãos de comunicação agem como se também recebessem mandatos de representação popular, e alguns se proclamam explicitamente como detentores de mandatos. Oscilam .entre se auto suporem demiurgos da vontade divina ou mandatados do povo, e confundem o consumo dos seus produtos ou o índice de tiragem ou audiência com o voto popular depositado em urna.


Essas analogias não constituem apenas - como poderia parecer - um mero jogo de palavras, uma brincadeira semântica e retórica. [...] Na verdade, elas dizem que os órgãos de comunicação se transformaram em entidades novas, diferentes do que eram em sua origem, distintas das demais instituições sociais, mas extremamente semelhantes a um determinado tipo dessas instituições sociais, que são os partidos políticos.


Se os órgãos não são partidos políticos na acepção rigorosa do termo, são, pelo menos, agentes partidários, entidades para-partidárias, únicas, sui generis. Comportam-se e agem como partidos políticos. Deixam de ser instituições da sociedade civil para se tornarem instituições da sociedade política. Procuram representar - mesmo sem mandato real ou delegação explícita e consciente - valores e interesses de segmentos da sociedade. E tentam fazer a intermediação entre a sociedade civil e o Estado, o Poder. É por essa razão que os principais órgãos de comunicação podem proclamar sua autonomia e sua independência, não só diante dos anunciantes como diante do governo e do Estado. Na realidade, esses grandes órgãos efetivamente são autônomos e independentes, em grande parte, em relação a outras formas de Poder. Mas não - como querem fazer crer - porque estejam acima dos conflitos de classe, da disputa do Poder ou das divergências partidárias Nem porque estejam a serviço do Brasil ou da parte do Brasil que constitui o seu específico leitorado.
Mas sim porque são eles mesmos, em si, fonte original de Poder, entes político-partidários, e disputam o Poder maior sobre a sociedade em benefício dos seus próprios interesses e valores políticos*. [...]

*Grifos nossos.

23 de janeiro de 2009

Sobre o Hizbollah

Caia Fittipaldi traduziu uma entrevista [longa] de Joseph Alagha* para a Religioscope, em 17 de maio de 2007, sobre o Hizbóllah. Como tal pauta não será debatida na mídia corporativa, disponibilizamo-la no blog:

Religioscope – O Hizbóllah não é simples resultado da invasão israelense de 1982. Parece ser também resultado da mobilização política da comunidade xiita e de sua islamização. O senhor pderia falar um pouco sobre os aspectos históricos desses dois momentos?

Joseph Alagha – O Hizbóllah não surgiu, como movimento da resistência islâmica, do nada, é claro. É o resultado de um longo processo histórico que começa antes de o Hizbóllah estruturar-se. Até os anos 90s, a comunidade xiita esteve sub-representada numa paisagem política, no Líbano, dominada pelos cristãos – especialmente os maronitas – e os sunitas. Socialmente e economicamente, a comunidade xiita também vivia sob exclusão. Nos anos 50s e 60s, ser xiita ainda era uma espécie de desgraça, era ser cidadão de terceira classe.

Dia 30/12/1957, o líder da comunidade libanesa xiita morreu, Sayyid[1] Abdul Husayn Sharafeddin. O presidente da república, Kamil Sham'un (1900-87), solicitou que fosse enviado do Iran um outro líder religioso; o enviado foi Imam[2] Sayyid Musa al-Sadr (1928-78?). Curiosamente, porque a história é cheia dessas ironias, foi o mesmo presidente libanês, Kamil Sham'un, quem pediu a intervenção dos marines dos EUA, no Líbano.

Musa Sadr nasceu em Qom, Iran, cidadão iraniano portanto, embora de ascendência libanesa. É filho do Aiatolá Sadr al-Din Sadr (falecido em 1954) que nasceu em Tiro. Esse, Musa Sadr, foi o líder carismático que mobilizou a comunidade xiita no Líbano. Em 1969, ascendeu ao posto de líder do Supremo Conselho Islâmico Xiita o que lhe deu condições de prosseguir mais firmemente no trabalho de estabelecer instituições sociais e econômicas para a comunidade xiita. Suas iniciativas abriram muitas possibilidades e progressivamente promoveram a integração dessa comunidade no sistema político do Líbano.

Mas o Imam Musa Sadr jamais pensou em "Estado islâmico", ideia que o Hizbóllah só desenvolveria nos anos 80s. O objetivo de Musa Sadr foi integrar a comunidade xiita no sistema libanês. Mas vale observar também que a política da infitah, ou "abertura" para outras comunidades libanesas, só avançou depois do Acordo de Ta'if (1989[3]), largamente influenciado pelo pensamento de Musa Sadr.

Em outras palavras, a politização da comunidade xiita aconteceu no período em que Musa Sadr foi líder religioso e tem fundamentos sociais, políticos e militares. Em janeiro de 1975, meses antes de começar a guerra civil, Musa Sadr fundou um movimento islâmico de resistência, Harakat al-Muqawama, mais conhecido pela sigla "Amal" [de Afwaj al-Mouqawama Al-Lubnaniyya, "Brigadas da Resistência Libanesa"]. Aspecto interessante da política de Musa Sadr são os contatos e relações que estabeleceu com o arcebispo dos católicos gregos, Grégoire Haddad; juntos, criaram o "Movimento dos Carentes", Harakat al-Mahrumeen. A resistência do grupo Amal nasceu de fato desse grupo "dos Carentes", que não tem identidade islâmica.

O final dos anos 70s coincidiu com a primeira invasão de Israel e com a volta do Imam Khomeini, do Iran. Esse retorno como que hipnotizou, literalmente, a comunidade xiita no Líbano e alterou-a profundamente, também no plano ideológico. Pela primeira vez, desde os tempos do Profeta e do Imam Ali, os xiitas estavam em posição de poderem estabelecer um Estado islâmico. Esse sucesso acelerou muito a mobilização da comunidade xiita no Líbano.

É importante destacar que, embora Imam Sadr evitasse usar palavras de ordem do islamismo, como as que se encontram explícitas nos discursos de Khomeini, os discursos de ambos são quase idênticos. Ambos sempre disseram que os islâmicos têm o dever de lutar contra Israel; ambos têm a mesma disposição combativa. Ao mesmo tempo, ambos, Khomeini e especialmente Musa Sadr, sempre pregaram a convivência pacífica entre todos os libaneses, como um tesouro do qual ninguém deveria abrir mão. Khomeini desenvolveu uma abordagem binária, de oposição entre opressor e oprimido – abordagem que permite alianças de cristãos e muçulmanos libaneses, por exemplo.

A militância xiita, iniciada com o trabalho do Imam Musa Sadr, islamizou-se, assim, no contexto da emergência do Islam no Iran, no início dos anos 80s. No Líbano, a exportação da Revolução Islâmica foi um sucesso.

O Hizbóllah, como ideologia religiosa, começou em 1978, mas só se estabeleceu como movimento em algum momento entre 1982 (invasão de Israel ao Líbano) e 1985 (apresentação do manifesto do grupo, por Shaykh Ibrahim al-Amin), segundo o qual o evento 1, acima, tem a ver com a formação do grupo. Em 1979, logo depois da 'vitória' da Revolução Iraniana, apareceu o logotipo do Hizbóllah; o nome foi criado por al-Musawi, um Sayyid de Najaf, Iraque, que depois foi segundo secretário-geral do Hizbóllah. Al-Musawi foi professor do atual líder do movimento, Sayyid Hassan Nasrállah.

Religioscope – Como o senhor define o DNA do Hizbóllah?

Joseph Alagha – Basicamente, se pode dizer que o Hizbóllah é um movimento Islâmico jihadi progressista. O uso do termo "jihad" não nos deve levar a pensar que o Hizbóllah seja inerentemente um grupo radical, para o qual a violência seja a única via a considerar. É verdade que seu principal objetivo foi, é claro, militar, profundamene ligado à resistência a Israel (al-Muqawama al-Islamiyya), mas não exclusivamente ligado a isso. Além do fato de que o Partido de Deus conseguiu aproximar atores cristãos e sunitas, em algumas de suas lutas políticas, a jihad[4] do Hizbóllah não é luta militante que vise a derrubar um governo 'de infiéis'; essencialmente, é um esforço moral para alcançar a auto-disciplina.

Parece anedótico ou superficial, mas, em vários sentidos, essa filosofia da al-Jihad al-Akbar ("a grande luta") tem sido traduzida em ação, com resultados políticos consideráveis. O movimento não apenas tem-se mantido distante da corrupção que corrói a reputação de todas as organizações políticas libanesas, mas também desenvolveu uma política interna de absoluta transparência, com efeitos também sobre as ambições pessoais que são, pode-se dizer, religiosamente autolimitadas. Quando, no Líbano, todos os políticos têm fama de levar até as poltronas dos gabinetes quando deixam os cargos, o Hizbóllah tem uma política de poder rotativo que visa, diretamente, a evitar a corrupção burocrática. Os quadros do movimento têm de trocar regularmente de cargos (tanto mais seguidamente quanto mais importante o serviço, considerados os objetivos do movimento), e trocam.

O Hizbóllah não é movimento monolítico; é uma coalizão de clérigos xiitas sob a coordenação do Conselho al-Shura, que é mais alto corpo de tomada de decisões no Partido de Deus, formado de sete 'ulama[5] libaneses. São frequentes as disputas e debates internos, sobretudo porque todo o sistema repouca na fé, não no sentido de uma ideologia, como no Estado soviético, e virtualmente qualquer um pode contestar uma interpretação ou o acerto de uma decisão. Isso já levou a uma divisão no movimento, quando Shaykh Subhi Tufayli, um dos pais fundadores e ex-primeiro secretário do Hizbóllah, deixou o movimento, depois de um confronto com Nasrállah. Nasrállah foi eleito secretário-geral e Shaykh Tufayli entendia que seria ele o sucessor óbvio, considerados os critérios da administração interna do Partido. Subhi Tufayli mantém-se muito fiel à narrativa anterior do Hizbóllah, mais marcial e profundamente anti-ocidental. E o atual secretário-geral, Nasrállah, considera aquele discurso desatualizado, antiquado e busca orientar o partido na direção do interesse nacional e da necessidade de negociar e ceder, por considerações políticas estratégicas.

Religioscope – O Hizbóllah exibe três identidades, cada vez mais discrepantes entre elas: tem uma identidade religiosa, tem um caráter político e libanês e é actante na geopolítica do Oriente Médio. O senhor poderia comentar rapidamente essa tripla identidade?

Joseph Alagha – O desenvolvimento ideológico do Hizbóllah pode ser dividido em três fases. De 1978, com a chegada do Sayyid Abbas al-Musawi ao vale do Bekaa, até 1984-85, quando houve a instituicionalização do Hizbóllah, o Partido de Deus tem de ser visto como movimento essencialmente religioso.

A segunda fase, vai de meados dos anos 80s até o início dos anos 90s. Embora se veja, nesse tempo, uma mistura de ideologias religiosas e políticas, mesmo assim é claro que a política era dominante. Creio que o discurso religioso fosse principalmente uma ferramenta para justificar as instâncias políticas do movimento.

Em 91, Sayyid al-Musawi defendeu a idéia da abertura para outras comunidades e encorajou o movimento a aproximar-se de comunidades libanesas, para integrar-se no sistema político libanês e na esfera pública. Vê-se a libanização do Hizbóllah ao longo dos anos. A partir dos 90s, o Partido de Deus planejou uma estratégia para integrar-se nas instituições libanesas. Mas isso não implica que o Hizbóllah fosse partido revolucionário: não exigiu qualquer alteração radical na constituição e reconheceu o Tratado de Ta'if (1989), que pôs fim à Guerra Civil, as relações especiais entre Síria e Líbano, e as várias reformas políticas.

Na terceira fase, a era do programa político, de 1992 até hoje, o Hizbóllah integrou-se e continua a integrar-se cada vez mais na esfera pública libanesa, com aspiração até a controlá-la, depois da Segunda Guerra do Líbano.

O Hizbóllah é actante na geopolítica do Oriente Médio, por causa de suas relações com a Síria e a relação muito especial com o Iran. O Iran é ideológico e religioso. O laço que liga o Hizbóllah e o Iran, especialmente com o Imam Ali Khamenei, presidente da República Islâmica entre 81 e 89 e, depois, eleito líder supremo do país, baseia-se no velayat e-faqih e em seu importante apoio militar e financeiro.

"Velayat e-faqih", literalmente "a guarda do jurisprudente", descreve o papel central e de comando que os religiosos devem ter na vida política. Dado que o Hizbóllah aceita esse princípio religioso, torna-se, na prática, 'servidor', ou quadro político, do líder supremo do Iran. Além disso, o Iran também tem sido o principal financiador apoiador do Hizbóllah desde que foi criado. Em 1995, contudo, Ali Khamenei, ele mesmo, indicou dois clérigos do Hizbóllah – Nasrállah e Yazbik, como seus representantes religiosos no Líbano. Essa decisão permite que o partido de Nasrállah receba diretamente o khums, uma modalidade de apoio financeiro que deriva do imposto religioso (cerca de 20% da renda, acrescida ao imposto tradicional, o zakat) sem que os fundos tenham de passar por fundações iranianas. Essa situação contribuiu consideravelmente para a autonomia do Hizbóllah. É portanto simplista assumir que a relação entre o Iran e o Hizbóllah seja algum tipo de relação mecânica. É relação dinâmica e em evolução, baseada em redes formais e informais entre os clérigos do Hizbóllah e os clérigos iranianos, a relação que liga o Partido de Deus e o Iran é muito complexa e não é relação unidimensional.

A relação entre o Hizbóllah e a Síria é menos complexa e mais pragmática: dado que a importação de armas exige aprovação da Síria, o movimento é absolutamente obrigado a manter boas e estratégicas relações com o regime sírio.

Religioscope – A retirada da Síria criou um vácuo político no Líbano. Essa situação encorajou o Hizbóllah a expor-se como protetor da comunidade dos xiitas, mais do que como partido nacional. O que resta da fórmula que Nasrállah criou "De Partido de Deus, rumo a partido de governo"?

Joseph Alagha – Enquanto os sírios permaneceram no Líbano, o Hizbóllah não aspirou a chegar ao Gabinete, quer dizer, ao ramo executivo do governo, no qual se tomam as decisões por maioria de 2/3, em votação, nos casos em que não haja consenso.

Nos termos do Acordo de Ta'if, também o Parlamento, como o Gabinete, está dividido, meio a meio, entre muçulmanos e cristãos. Assim, o atual Gabinete é formado de 12 cristãos e 12 muçulmanos. Pela regra do equilíbrio entre os grupos religiosos, os xiitas só podem alcançar um máximo de cinco cadeiras. Portanto, naquele momento, o Hizbóllah não tinha meios para promover aquela agenda.

Contudo, depois que os soldados sírios deixaram o Líbano em 2005, surgiu uma oportunidade. O Partido de Deus buscou preencher esse vácuo político, para conseguir influenciar as decisões políticas do Gabinete. E, de fato, foi operação bem-sucedida. Com apenas dois ministros, todo o movimento conseguiu que o governo de Siniora reconhecesse oficialmente e explicitamente o status de "movimento de resistência", do Hizbóllah. Em termos políticos táticos, foi movimento muito inteligente.

O Partido de Deus, sozinho, não poderia influenciar as principais decisões do Conselho de Ministros. Mas, porque comprovou sua habilidade para jogar o jogo da política libanesa, Nasrállah conseguiu construir uma aliança com o Movimento Patriótico Livre, do maronita Michel Aoun. Essa aliança permitiu que o Hizbóllah obtivesse 1/3 do poder de veto no Conselho de Ministros, o que lhe dá posição de poder considerável, para controlar as decisões políticas. Se o atual governo não boicotar esse poder, o Hizbóllah terá meios para impedir qualquer decisão política que não lhe interesse.

Religioscope – O senhor acredita que os eventos mais recentes encorajaram o movimento, na direção de insistir mais dedicadamente na politica, ou, ao contrário, levou-o a adotar posição mais combativa, estimulada pela "vitória" sobre Israel, como dizem?

Joseph Alagha – Estrategidamente, não creio que se possa dizer que ainda haja qualquer tipo de confrontação direta, bélica, entre o exército de Israel e o Hizbóllah. Há 15 mil soldados libaneses e cerca de 12 mil soldados das forças da ONU, plantadas entre Israel e o Hizbóllah. Nessas condições, já não há combate entre os combatentes do Hizbóllah e os soldados de Israel. Até aqui, a resistência tem sido a razão de ser do movimento. Se esse afastamento entre os dois exércitos for duradouro, se Israel mantiver-se, como hoje, como ameaça distante, o mais provável é que o Hizbóllah dirigirá os seus jihadistas 'para dentro', digamos; que buscará controlar a esfera pública no Líbano.

A questão da luta armada é questão complexa, ligada não apenas à eficácia da resistência, mas à própria definição do Hizbóllah. O movimento sabe disso e, se quiser integrar-se completamente na paisagem política do Líbano, mais cedo ou mais tarde terá de depor as armas. No meu entendimento, o Hizbóllah está tentando ganhar tempo, ainda sem ter definido uma agenda de longo prazo, exceto, sim, o que já está definido: ganhar espaço na esfera pública e na arena política nacional no Líbano.

Religioscope – Na teologia política do Hizbóllah, como vêem o processo democrático? Vêem-no como processo legítimo? Como se podem combinar na mesma agenda o nacionalismo e o reconhecimento dos limites democráticos, e a velayat e-faqih?

Joseph Alagha – Nesse contexto, a velayat e-faqih descreve uma relação subordinada entre o Hizbóllah e o supremo guia da Revolução Islâmica, hoje, Ali Khamenei. Isso não implica subserviência ou subordinação ao governo do Iran como tal. O Imam Khamenei é fundador do Partido de Deus desde os primóridos, quando foi deputado ministro da Defesa ["deputy minister of defence"] no período do Aiatolá Khomeini. Em 1992, Ali Khamenei autorizou e apoiou a participação do Hizbóllah nas eleições (movimento, vale anotar, fortemente desaprovado pela tendência radical no movimento, encabeçada por Subhi Tufayli).

O partido defende princípios democráticos no quadro dos princípios do islamismo, por exemplo, defende o pluralismo político, equivalente ao conceito da Shura, quer dizer "conselho consultivo".

Não há contradição entre alguma espécie reformada de velayat e-faqih e uma sociedade pluralista e multirreligiosa, como a sociedade libanesa. Mas a versão iraniana do mesmo princípio não se aplica ao contexto do Líbano. Enquanto um shaykh [literalmente "um ancião", um "dos mais velhos"] como Subhi Tufayli jamais aceitará a idéia de subordinar-se, no mundo político, a não-muçulmanos, Ali Khamenei e Nasrállah sabem que, se quiserem inserir-se no mundo político libanês e lá manter-se, terão de ceder em alguns pontos.

Os atuais líderes do Hizbóllah já demonstraram que são capazes de fazer concessões, não só no campo político, mas também no campo religioso e sociológico. O recente acampamento que o Hizbóllah[6] organizou e manteve, como ocupação, literalmente, no centro da cidade de Beirute, por exemplo, criou situações que nada têm a ver com as práticas islâmicas como são entendidas no Iran: um acampamento na rua (literalmente), onde viviam cristãos e xiitas e mulheres, umas veladas, outra sem véu, e homens, lado a lado, convivendo e dormindo em barracas próximas, quando não na mesma barraca.

Religioscope – Para reforçar a presença no Líbano e adaptar sua ideologia, mais cedo ou mais tarde o Hizbóllah terá de separar-se do Iran, sua principal fonte de inspiração e de financiamento. O movimento conseguirá fazer isso sem perder ao mesmo tempo a alma e o poder?

Joseph Alagha – Creio que nem o Hizbóllah já tem resposta a essa pergunta. Apesar de todo o compromisso religioso, o movimento 'gostou' de ter alcançado a posição que ocupa hoje na sociedade libanesa. A sobrevivência do movimento não está tão intimamente ligada ao destino do Iran. No Líbano, todos os prédios tem um gerador 'reserva', para conviver com os caprichos do suprimento de eletricidade; o Línano é o gerador 'reserva' do Hizbóllah. Mais do que isso: ao contrário do que dizem alguns observadores, o Hizbóllah não depende completamente do financiamento que recebe do Iran. Como já disse, o movimento tem direito legal de receber os impostos religiosos, sem que passem pelas instituições iranianas. O Partido de Deus estaria muito longe de ficar sem dinheiro, mesmo que o Iran parasse de financiá-lo.

Hizbóllah existe há mais de 25 anos. "O futuro é nosso", para citar Nasrállah e, de um ponto de vista democrático, é provável que tenha razão. Em fala recente, Nasrállah acentuou a idéia de renascimento. Não falou sobre isso no dia em que os muçulmanos comemoram o nascimento do profeta Maomé; esperou a Páscoa. A analogia entre um movimento que renasce depois de anos de luta e a teologia cristã da ressureição não foi casual.

Para responder sua pergunta, em termos bem sintéticos: o Hizbóllah está otimistamente adiando o problema.

Religioscope – Há alguns clérigos xiitas que fazem oposição ao Hizbóllah no Líbano. Por exemplo, para citar alguns, o Mufti de Tiro, Ali al-Amin, ou Shaykh Hani Fahs. Quais são os pontos da divergência com o movimento de Nasrállah?

Joseph Alagha – Além desses dois que você citou, há outros clérigos que têm manifestado desaprovação à política do Hizbóllah. Ali al-Amin, por exemp, tem criticado que o movimento recuse-se a depor armas. Embora não seja protagonista nem personagem muito destacado no cenário libanês, essa oposição causa incômodo no movimento. O Mufti al-Amin é clérigo da alta hierarquia religiosa xiita, o que se manifesta, para o crentes, pelo turbante negro e que significa que é descendente do Profeta. Outra importante figura é Shaykh Mohammad al-Hajj Hassan, nascido no vale do Bekaa. É fundador da União Xiita Livre (ing. Free Shia Union) de Beirute e fala muito e muito frequentemente contra o Hizbóllah, manifestando-se sempre fiel ao Gabinete e chamando atenção para o fato de que o Partido de Deus não representa todos os xiitas libaneses. Mas, o mais importante: Ali al-Amin, Hani Fahs e al-Hajj Hassan têm poucos seguidores, na comunidade xiita. Juntos, representam de 2 a 5% dos xiitas libaneses e não tem peso suficiente para competir com o Hizbóllah.

Há duas vias para explicar essa oposição. Todos têm ou parentes ou amigos íntimos no movimento de Nasrállah. O fato de que possam manifestar a oposição mostra que Hizbóllah é capaz de conviver com a liberdade de expressão, pelo menos, digamos, 'em casa'. Além disso, não se deve descartar completamente a possibiidade de que essa oposição seja uma espécie de estratagema de relações públicas, organizado pelo próprio Hizbóllah, para demonstrar que o Hizbóllah não silencia os dissidentes. É pouco provável.

Outro cenário possível é que a oposição seja resultado de algum acordo, formal ou informal, entre figuras xiitas e o governo, para enfraquecer ou desacreditar a legitimidade do Hizbóllah. Há, de fato, rumores de que os discursos recentes feitos por Subhi Tufayli – um pregador religioso muito influente entre os xiitas em alguma vilas do Bekaa – teriam sido inspirados por uma proposta que o governo ter-lhe-ia feito, em troca de imunidade. Shaykh Tufayli foi condenado, por brigas entre membros de suas milícias e o exército, em 1998, que resultaram em várias mortes; dentre os mortos, há um tenente e deputado, Shaykh Khudr Tlays, genro de Tufayli.

Religioscope – A participação de mulheres, no Partido de Deus, tem aumentado. Para os padrões islâmicos, isso tornaria o Hizbóllah um partido progressista?

Joseph Alagha – Sim, acho que sim. As mulheres são muito ativas, no Hizbóllah, tanto na estrutura educacional – a maioria das professoras são mulheres –, quanto na imprensa e nas ONGs. As duas esferas nas quais as mulheres são quase ausentes são a política e a esfera militar (ao contrário do modelo iraniano). E a tendência é na direção de integração cada vez maior, das mulheres, no movimento.

Já há uma mulher que participa como membro pleno do Conselho Político, Rima Fakhry[7]. É engenheira agrônoma, formada pela American University de Beirute. A tendência ocidental, de imaginar que o Hizbóllah seja réplica do Iran em solo libanês é completamente errada. Se se visitam as escolas que o movimento mantém, por exemplo, a atmosfera é bastante liberal. As mulheres usam o véu e não usam maquiagem, mas muitas delas falam perfeito inglês e muitas têm grau universitário.

NOTAS:

[1] Sayyid é título honorífico atribuído a homens que são considerados descendentes de Maomé, profeta do islamismo.

[2] Iman é um líder islâmico, quase sempre responsável por uma mesquita e líder comunitário.

[3] É o acordo que pôs fim à guerra civil no Líbano, negociado em Ta'if, na Arábia Saudita, em setembro de 1989 e aprovado no parlamento libanês dia 4/11/1989. Para ler o texto do acordo, ver http://www.al-bab.com/arab/docs/lebanon/taif.htm (em inglês).

[4] A palava Jihad designa "uma luta, mediante vontade pessoal, de se buscar e conquistar a fé perfeita". Ao contrário do que muitos pensam, jihad não significa "Guerra Santa", nome dado pelos Europeus às lutas religiosas na Idade Média (por exemplo: Cruzadas). Aquele que segue a Jihad é conhecido como Mujahid (sobre isso, para informações iniciais, ver http://pt.wikipedia.org/wiki/Jihad)

[5] Ulama [subst. coletivo], "os versados no islamismo, os que possuem a qualidade de "ilm", de "aprender" no mais amplo sentido. Dentre os "ulamā", versados na teoria e na prática das ciências muçulmanas, são escolhidos os professores religiosos da comunidade islâmica – teólogos (mutakallimun), especialistas no texto-lei sagrado (muftis), os juízes (qadis), os professores — e altos funcionários do Estado (ou do poder político) religioso, como o shaikh al-Islām. Em sentido mais limitado, "ulama" pode designar um conselho de homens sábios que controlam o governo num Estado muçulmano" (Enciclopaedia Britannica, em http://www.britannica.com/EBchecked/topic/613126/ulama)

[6] Há boa imagem desse acampamento, no centro de Beirute, em 2/12/2006, em http://www.msnbc.msn.com/id/16006125/

[7] Sobre ela, ver entrevista em http://www.islamonline.net/English/Views/2006/05/article03.shtml

*Entrevista feita com Joseph Alagha em Beirute, em abril de 2007,
publicada em Religioscope, 17/5/2007 -
http://religion.info/english/interviews/article_317.shtml

Joseph Alagha é professor assistente de Estudos Islâmicos da Lebanese American University em Beirute.
É autor de The Shifts in Hizbóllah's Ideology. Religious Ideology,
Political Ideology, and Political Program [2002], 2006 [ed. ampliada], Amsterdam University Press.
Tem artigos publicados em vários jornais e periódicos acadêmicos especializados
(Middle East Report, ORIENT, Studies on Islam, ISIM Review, Sharqiyyat and Soera)