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19 de novembro de 2010

Organizações LGBT repudiam violência homofóbica e realizam ato na avenida Paulista no dia 21 de novembro

 #homofobianao

Entidades e organizações da sociedade civil organizaram abaixo-assinado para manifestar indignação, repúdio e exigir providências aos graves fatos ocorridos na madrugada do dia 14.11.2010, na Avenida Paulista, envolvendo 5 (cinco) jovens adolescentes que agrediram 4 (quatro) vítimas com violência física, e evidente motivação de intolerância homofóbica.

Segundo a imprensa divulgou, os cinco jovens são de classe média, colegas de um colégio particular de um bairro nobre de São Paulo, e foram reconhecidos como responsáveis por três ataques a pessoas que passavam pela região da Avenida Paulista. A polícia investiga se os crimes tiveram motivação homofóbica.

Esta não é a primeira ação violenta de jovens da classe média brasileira, em especial contra pessoas oriundas de grupos discriminados, e usualmente vítimas de intolerância, como os gays, negros, nordestinos, índios etc. Exemplos não nos faltam: morte do índio Galdino, assassinado por jovens ricos e filhos de autoridades públicas de Brasília em 1997; a violência cometida por jovens da Barra da Tijuca, que agrediram fisicamente uma trabalhadora, empregada doméstica, que voltava para casa, e foi confundida com uma “prostituta” (como se para as profissionais do sexo este tratamento violento fosse admitido).

Agora, uma vez mais, no décimo ano da morte por assassinato do adestrador de cães, Edson Neris da Silva, na Praça da República, em 6 de fevereiro de 2000, executado por um grupo delinquente de “skinheads do ABC”, deparamo-nos com este arrastão “chique” no coração econômico da terra cujo povo se autoproclama locomotiva e esteio do Brasil.

Certamente, se o Brasil já tivesse uma legislação que criminalizasse a homofobia, a exemplo de países mais desenvolvidos na defesa e promoção dos direitos humanos, fatos como o ocorrido seriam mais raros, pois a juventude brasileira, em especial a bem educada e privilegiada do ponto de vista econômico, já teria aprendido que homofobia é crime e não pode ser praticada. Mas a inércia e a omissão do Poder Legislativo nos obrigam a continuar lutando para viver com dignidade e exigindo a ação das instituições que devem cumprir e manter a Constituição Federal. As autoridades públicas, Polícia, Poder Judiciário, Ministério Público têm a obrigação de garantir a ordem, a lei e o respeito à Constituição brasileira que, em última instância, proclama como sua razão máxima a garantia dos direitos individuais da pessoa humana.

Sendo assim, o documento ( http://edupiza.blogspot.com/2010/11... ) tem como objetivo chamar atenção das autoridades públicas e do povo de São Paulo e do Brasil, exigindo e cobrando para que este fato não caia no esquecimento, em vista dos agressores terem posição sócio econômica privilegiada. A justiça brasileira tem a obrigação de ser justa e a polícia e o Ministério Público de cumprirem suas funções.

Fonte: Ciranda Net

16 de outubro de 2010

Serra e sua mídia põem na boca de Dilma o próprio ódio ao PNDH 3

Para tentar desmobilizar os movimentos sociais que apoiam a candidata do Presidente Lula

A candidata Dilma Rousseff [PT] da coligação Para o Brasil Seguir Mudando, nos últimos dias, tem sido bombardeada pela campanha de José Serra [PSDB] - a oficial e a terceirizada via mídia golpista, ou pig -  com temas como aborto e direitos civis de casais homoafetivos. Assim, enquanto se reage a esta nova baixaria, o demotucanato adia, mais uma vez, a exposição dos programas políticos de cada candidato na campanha eleitoral 2010.

Voltando um pouco no tempo, percebe-se que as pautas escolhidas pelo representante do retrocesso José Serra, neste segundo turno, não são por acaso. Elas tem origem naquilo que a jornalista Bia Barbosa, em atividade do Intervozes no X Fórum Social Mundial, chamou do maior afronta à democracia feita, na época, pela oposição e pelo braço midiático: o ataque virulento ao PNDH 3.

Ora, como Bia e Cristina Charão escreveram [aconselhamos a leitura integral do artigo AQUI]: No caso da terceira edição do PNDH, estamos falando de um processo que envolveu mais de 14 mil pessoas em todo o país. Um processo que deve ser saudado para que, imediatamente, se possa cobrar deste mesmo governo um compromisso com o mesmo. Ou seja, participantes de vários segmentos da sociedade civil e poder público se mobilizaram, nas diversas instâncias que compõem a Conferência Nacional de Direitos Humanos, para debaterem e chegarem a este documento - gente que a turma do candidato José Serra identifica como petistas de carteirinha, ou, no mínimo, potenciais eleitores da candidata Dilma.

Para o demotucanato, sacanear o adversário é o mesmo que a necessidade de respirar. E como a  gente do Serra só pensa em falcatrua, nada melhor do que dar um jeito de por na boca da Dilma seus próprios ódios ao PNDH 3! Desta forma, desgastaria Dilma em sua propria base eleitoral. E Serra poderia vencer a eleição, porque, nessa orquestração, em que se ataca a candidata governamental, em momento algum a mídia, que faz a campanha terceirizada para o demotucanato, não pergunta: o que pensa o Serra sobre os mesmos temas?
Só se ouve/lê/vê ataques a Dilma e muitas/muitos militantes cai no pega ratão, ficando em dúvida com o que fazer com os seus votos no dia 31/10/2010. 

O demotucanato age desta forma, põe seu ódio ao PNDH 3 na boca da candidata Dilma, porque não deseja que a presidenta efetive as demandas do documento - ainda que tenha sido modificado pelo Presidente Lula, após campanha feroz contra o PNDH 3. E, se numa desgraça histórica, Serra viesse a vencer a eleição e como ninguém pergunta sobre o que ele pensa sobre aborto, direitos civis de homoafetivos, Comissão da Verdade que investiga o período da ditadura civil-militar e a regulamentação da comunicação social, simplesmete, poderia apagar mais um capítulo da história da democracia brasilerira pois este cidadão, seu partido e coligados, aliados políticos e mais seu braço midiático só tem compromisso em manter privilégios da própria classe expropriadora do Estado brasileiro.



7 de setembro de 2010

Outra de Zero Hora

Hoje, 7 de setembro de 2010, aniversário do 188º ano da Independência do Brasil, Zero Hora publica a foto abaixo:

Faltou ideia a editoria de fotografia do jornalixo, é um ato falho, ou é saudades do tempo em que o monopólio de mídia Grupo RBS apoiava a ditadura civil-militar?

A capa dá manchete à espionagem ocorrida dentro do Palácio Piratini, a partir do acesso ao Sistema Integrado de Consultas. O texto, lido na página do pasquim errebesseano, é magrinho, magrinho e destaca a declaração de inocência do oficial exonerado.

Sobre as medidas de segurança da BM, a foto de outro oficial sorridente e o destaque, de que mais 49 instituições tem acesso ao Sistema.


A velha mídia, como bem define o jornalista Rodrigo Vianna, cada vez mais, dissocia-se dos novos tempos democráticos por livre espontânea vontade, devido à sua má fé. E, ainda por cima, deixa rastros do seu flerte com o autoritarismo e com governos suspeitos, dia sim, outro também.

2 de setembro de 2010

EUA: Dia de muito trabalho para os sindicatos

Por Katrina Vanden Heuvel*, Washington Post - 31/08/2010

O Dia do Trabalho – primeira 2ª-feira de setembro, nos EUA – virá vestido de luto, dia 6/9/2010.

Mais da metade dos trabalhadores nos EUA conheceram o medo do desemprego, viram seus salários reduzidos, foram forçados a aceitar empregos de meio-período ou outros tantos problemas que, por aqui, são a história da Grande Recessão. Ações em colapso e o preço das casas destruíram 1/5 da riqueza das famílias médias. Quase seis, de cada dez norte-americanos, cancelaram ou reduziram as férias. Nesse quadro, os trabalhadores cada vez menos buscam os sindicatos como resposta possível às suas inseguranças – apesar da evidência bem clara de que, de todas as instituições norte-americanas, os sindicatos quase sempre acertaram ao avaliar as grandes questões que o país enfrentaria e enfrenta, na disputa contra os consensos políticos bipartidários e das elites.

Os sindicatos vivem momentos difíceis. Representam menos de 13% da força de trabalho e menos de 8% dos empregados de empresas privadas. Os empregados sindicalizados ainda recebem salários maiores que os não sindicalizados e em maior número de casos conseguem obter seguro-saúde, pensões e licença-doença pagos pelo empregador.

Mas quando os sindicatos representavam mais de 30% de todos os empregados de empresas privadas, nos anos 1940s, eles lutavam por melhores salários para todos – e as empresas às quais os sindicatos não tinham acesso tinham de competir para encontrar boa mão de obra. Hoje, os sindicatos lutam quase exclusivamente para defender salários e benefícios. Ao longo da última década antes da Grande Recessão, a produtividade aumentou muito, os lucros dispararam, os salários e bônus para os altos executivos chegaram à estratosfera, mas a maioria dos empregados perderam terreno e poder.

Os sindicatos são alvo de repetidos ataques que vêm dos conservadores e das corporações. A mais recente campanha – construída como sempre para dividir os trabalhadores – tem atacado os salários e, sobretudo, as aposentadorias dos funcionários públicos. Por que mereceriam aposentadorias, quando tantos trabalhadores perdem tudo e, no máximo, conseguem algum plano de aposentadoria privada, se tiverem a sorte de continuarem empregados? De fato, em sociedades civilizadas, a pergunta certa deve ser exatamente o contrário dessa. Como criar programas de aposentadorias e pensões – além da Seguridade Social – para todos os trabalhadores de toda a economia, nivelando-os por cima, não por baixo?

A verdade é que, se tivéssemos dado ouvidos mais atentamente aos sindicatos no passado, os EUA não estaríamos vivendo a tragédia de hoje. Por muitos anos os sindicatos alertaram para os riscos dos déficits comerciais que nunca pararam de aumentar, a loucura de admitir que Japão e China e outros jogassem segundo suas próprias regras. Mas um consenso bipartidário, inventado em Wall Street e abraçado pelos dois presidentes, primeiro por Bush, depois por Clinton, conseguiu impor o ideário de acordos de livre-comércio definidos pelas grandes corporações e que só a elas interessava.

Os resultados foram calamitosos. Só na última década as perdas comerciais dos EUA alcalçaram $5,8 trilhões de dólares. No setor de manufatura nos EUA, desapareceu um de cada três postos de trabalho. O presidente do Federal Reserve Ben Bernanke observava que os desequilíbrios do comércio global ajudaram a inflar a bolha que fez despencar a economia global como caída despenhadeiro abaixo. Agora, novos e crescentes desequilíbrios impedem qualquer recuperação que arranque os EUA da Grande Recessão. O crescimento decepcionante de apenas 1,6% no último trimestre teria alcançado robustos 5%, não fosse o aumento no déficit comercial. Hoje até Andy Grove (da Intel) e Jeff Immelt (GE) concordam que foram temerários e incompetentes ao mandar para o exterior tantos empregos e tanta capacidade de produção da indústria de manufatura.

Na governança corporativa, o consenso bipartidário pregava o culto dos “altos executivos”, defendia que se associassem “pagamento e performance” e ações na Bolsa de Valores. Os sindicatos foram descartados, vistos como impedimento ao pleno desenvolvimento de “mercados de trabalho flexibilizado”. Os líderes sindicais argumentaram à exaustão, que era necessário responsabilizar as corporações por mais do que só pelos resultados financeiros do balanço do trimestre seguinte. Falaram o mais que puderam, sem qualquer sucesso, a favor de incluírem-se o trabalho e a comunidade, ao lado dos acionistas, de modo que tivessem mais peso nas práticas e decisões das corporações. Resultado, os altos executivos partiram para uma onda de crimes: Enron, WorldCom, Global Crossing, Adelphi. Centenas de corporações “refizeram” os relatórios de lucros, depois que os altos executivos foram tornados pessoalmente responsáveis. Dúzias de altos executivos foram apanhados na operação de adulterar datas de vencimento de opções de ações. Os grandes bancos apostaram cada vez mais alto, mais alto, com os contribuintes obrigados a cobrir todas as perdas. Altos executivos receberam incentivos pessoais multimilionários, para adulterar números; nem surpreende que tenham encontrado modos tão criativos para adulterá-los.

No plano das regulações, os sindicatos travaram batalha sem tréguas contra as privatizações e a desregulação, que os conservadores da era Reagan e os neodemocratas e neoliberais converteram em última moda. Hoje se vê que, nos EUA, numa área depois da outra e em praticamente todas, as privatizações foram fonte de mau uso e desperdício de bens públicos, de fraude e de roubo – da Halliburton à Blackwater. A desregulação contribuiu diretamente para a débâcle financeira e das grandes corporações, que derrubou a economia, com custos humanos visíveis do Golfo do México a Appalachia e até na qualidade dos ovos que os EUA comemos hoje.

Sábado passado em Washington, Glenn Beck tentou confiscar o movimento dos direitos civis. No mesmo dia, em Detroit, viu-se o mundo real: os sindicatos UAW[1], SEIU[2] e AFSCME[3] reunidos à Rainbow PUSH Coalition[4], à NAACP[5], à Urban League[6], organizações religiosas e ativistas dos direitos civis, em marcha por empregos e justiça social. O apoio dos sindicatos foi vital para organizar a marcha comandada pelo Reverendo Martin Luther King em Washington, há 47 anos. E o apoio dos sindicatos é vital para todos os movimentos de direitos civis – pela reforma das leis de imigração, tanto quanto pela igualdade de gêneros e salários iguais para homens e mulheres, na luta por empregos – hoje.

Com todos os defeitos que tenham, os sindicatos dão voz a todos os trabalhadores, aos empregados e aos desempregados, não só aos trabalhadores sindicalizados. A força democrática que têm os sindicatos, nascida de baixo para cima, é contrapeso vital contra os interesses da ‘grande finança’ que tanto mal fizeram e fazem à vida política nos EUA. Fazer reviver o movimento sindical é essencialmente importante para construir novas fundações para alguma nova economia que se reconstrua nos EUA, fundações que assegurem que os EUA voltem a dar certo para os que trabalham.

[1] International Union, United Automobile, Aerospace and Agricultural Implement Workers of America (UAW) é dos maiores e mais diversificados sindicatos dos EUA, com membros em praticamente todos os setores de economia (em http://www.uaw.org/node/39).

[2] Service Employees International Union (SEIU) (em http://www.seiu.org/index.php).

[3] American Federation of State, County and Municipal Employees (AFSCME) (em http://www.afscme.org/).

[4] A Rainbow PUSH Coalition (RPC) é organização multirracial, pluralista, progressista internacional, que luta por mudança social. Foi criada em dezembro de 1996 pelo Reverendo Jesse L. Jackson, Sr., resultado da fusão de duas organizações também fundadas por ele, a People United to Serve Humanity (PUSH, 1971) e a Rainbow Coalition (1984) (em http://rainbowpush.org/pages/the_organization).

[5] A National Association for the Advancement of Colored People (NAACP), fundada em 1909, é a mais antiga organização de defesa de direitos civis nos EUA (em http://www.naacp.org/content/main/).

[6] A Urban League reúne, nas cidades dos EUA, afro-americanos e outros não-brancos, na luta por direitos iguais para todos. Foi fundada em 1916. Para conhecer a Detroit Urban League, ver http://www.detroiturbanleague.org/.

*Editora e publisher de The Nation e assina coluna semanal no Post.
Imagem: Operários, Tarsila do Amaral, 1933 via Agenda Cultural
Tradução: Vila Vudu

20 de agosto de 2010

Serra chafurda na própria sujeira

Escandalosas as manifestações do candidato José Serra [PSDB-DEMO- PIG] no Congresso da ANJ. Atacar as conferências de cultura, de comunicação e, principalmente, a de Direitos Humanos [pois cultura e comunicação são direitos humanos], é a prova de que este sujeito leviano precisa ser impedido de chegar à Presidência da República, bem como banido da vida pública brasileira

Esta sujeito sujo, na sua gestão de governador de SP, pagou por livros com dois Paraguais e mandou bater em professoras e professores grevistas. Por isso não nos espanta este desprezo pela cultura e pelos direitos humanos. Como não nos é surpreendente tal criatura atacar os movimentos que lutam pela democratização das comunicações, uma vez que meia dúzia de empresas de comunicação “limparam” [e limpam] a sua bunda suja todos esses anos, com seus silêncios, mistificações e/ou mentiras.

Serra, ao atacar os blogueiros e as blogueiras, acusando-os de receber dinheiro governamental, sem apresentar uma mísera evidência, o que dirá provas, beira à calúnia! Ainda mais que a sua queixa diz respeito ao fato de que se restabelece a verdade através dos blogues. Imaginem, A VERDADE! “Assim não pode, Assim não dá!”, deve bradar, inspirado no chefe maior, FHC:

- não dá mais para divulgar as sujas pesquisas eleitorais manipuladas;
- não dá mais para esconder sua incompetência como gestor público sujo, no caso da cratera do metrô, ou dos livros escolares com erros crassos;
- não dá mais para dissimular a sujeira de seu autoritarismo, como no caso da violência praticada contra os movimentos sociais e trabalhadores;
- não dá mais para aplicar golpes sujos, afirmando ser o pai dos genéricos;
- não dá mais para dizer que é economista formado, sujeira essa que ele até hoje não explicou.

Enfim, não dá mais para sustentar nenhuma de suas sujeiras, pois lá vem aqueles blogues denunciar suas mentiras!

Mas a cereja do bolo é afirmar, que participação social nas decisões do governo é um ato de militantes partidários. Aqui, a mentira e a leviandade se misturam ao mal caratismo e ao autoritarismo de quem quer impedir, a qualquer custo, a participação da população nas questões nacionais. Tomemos, como exemplo, a I Conferência Nacional de Comunicação [CONFECOM], em que participamos ativamente. Em torno de 30 mil pessoas participaram das conferências preparatórias municipais, distrital, estaduais, divididas em sociedade civil, empresários da comunicação e poder público. Qualquer governo democrático e minimamente responsável acolhe as demandas da população. A I CONFECOM foi uma delas.

A I CONFECOM foi a culminância de uma luta travada há mais de 20 anos pela sociedade civil para regulamentar o setor que é, sem sombra de dúvida, o mais antidemocrático da sociedade brasileira. É inconcebível que um país, que se pretenda democrático, esteja à mercê de meia dúzia de famiglias e seus capangas, que decidem sobre o que os brasileiros devem ser informados, ou desinformados. Na cabeça suja de Serra, é inconcebível que a população, representada pelas delegadas e pelos delegados da I CONFECOM, exija o direito à uma informação de qualidade.

O ódio de Serra aos blogues e seus mantenedores, a quem ele acusa de práticas às quais deve estar bem acostumado, pois quem mal não faz, mal não pensa, deve ser entendido como a reação de uma casta que, pela primeira vez na História do Brasil, perde o controle absoluto da informação. A Internet, em que pese às suas limitações, quebrou a hegemonia informativa das máfias midiáticas, que ainda tentam, através de expedientes sujos, como este que Serra lança mão, manter com mão de ferro.

Esse episódio não é um fato isolado, nem um momento de destempero de um candidato, cuja campanha desaba a olhos vistos. Ele está inserido num contexto bem maior e que envolve outros expedientes sujos, tais como: desqualificar o Mercosul; acusar a Bolívia de traficar drogas para o Brasil; criticar a diplomacia brasileira no acordo Brasil-Turquia-Irã; ligar o PT com as FARC e esta com o narcotráfico.

Observando isso tudo com mais cuidado, percebe-se que o discurso de Serra, alinha-se, incondicionalmente, com a doutrina do Departamento de Estado e da CIA para a América Latina. Serra é o nosso Uribe.

Por isso, sua chegada ao poder representa, no plano externo, confrontação com os países vizinhos; retrocesso na autonomia da política externa brasileira; ameaças a estabilidade na América Latina e a soberania nacional, ao alinhar o Brasil, incondicionalmente, aos interesses do EUA. No plano interno, repressão e violência contra os movimentos sociais, desmonte das políticas públicas, liquidação do que restou do patrimônio nacional e, aí sim, cerceamento da liberdade de informação que, no final das contas, é o objetivo de José Serra [PSDB-DEMO- PIG] ao atacar o movimento blogueiro.

16 de agosto de 2010

O "jornalismo" sórdido da Time

Por Chico Villela em NovaE

O governo BHObama estimula campanha antiTaleban na mídia grande dos EUA para compensar os estragos das revelações do coletivo WikiLeaks.

Tudo indica que as revelações do Diário da Guerra Afegã, do coletivo de ativistas políticos WikiLeaks, continua fazendo estragos sem conta. A revista Time deu a partida da reação do governo BHObama com uma capa de rara indignidade: uma moça afegã bonita, 18 anos, de véu, com o nariz semidecepado e a orelha (oculta) mutilada, obra de seu marido apoiado por líder taleban em reação a sua vontade de deixar o lar após abusos e ofensas.

A apelação foi e vem sendo questionada da parte de críticos e analistas até mesmo afinados com as posições da revista. Mas a indignidade está mais no título, algo como: é o que acontece se os EUA saírem do Afeganistão.

E o assassinato pelo Taleban de uma dozena de médicos e assessores ocidentais deflagrou uma onda de notícias repetitivas sem fim. Há vários subtextos nestas demonstrações da capacidade da grande imprensa de superar recordes de canalhice.

A moça de nariz mutilado acha-se nos EUA para ganhar plástica facial. Pena que milhões de mutilados pelas armas aliadas em suas guerras sem fim não tenham a mesma compensação.

1 O primeiro subtexto é o racismo e a manifestação de superioridade: se os EUA saírem do Afeganistão, o país voltará a mergulhar na barbárie mais abjeta. Ou seja: a presença das tropas invasoras é garantia de civilização e outras banalidades afins.

Idéia 1 Substituir a moça da capa por uma grande foto de um casamento que uniu há uns quatro anos duas aldeias e duas famílias tradicionais. Uma festa rara no Afeganistão, em que os clãs se fecham em suas tradições e pouco se abrem para outros clãs, inda mais de etnias diversas. A cerimônia, confundida pelos invasores com uma reunião do Taleban (uma prova da eficácia dos seus serviços de Inteligência), foi severamente bombardeada. Morreram mais de 140 pessoas, a maioria mulheres e crianças, inclusive a noiva. Quase não havia cadáveres, apenas pedaços de corpos misturados. A Time perdeu uma boa capa.

Curioso é que esta não foi a primeira vez: desde 2001, dezenas de festas, reuniões e casamentos vêm sendo bombardeados. As tropas alemãs da OTAN patrocinaram recentemente outra carnificina. Dois caminhões de combustível roubados pelo Taleban atolaram num riacho. Centenas de moradores próximos acorreram para pegar um pouco de algo que, lá, é precioso e raro. O comando alemão entendeu que o Taleban se reunia em mais de centena e solicitou bombardeio dos aviões e helicópteros do governo BHObama, que foi agravado pela explosão dos caminhões. Resultado: alguns insurgentes talebans e mais de 150 mortos civis afegãos e um presidente alemão que renunciou em parte por isso.

2 O segundo subtexto é insistir nas diferenças culturais entre muçulmanos fundamentalistas e outras correntes religiosas, radicais ou não, e entre as incompatibilidades entre as concepções “ocidentais” e as muçulmanas, com privilégio para as “ocidentais” e desprezo pelas muçulmanas. (Para o Ocidente, é condenável cobrir o corpo e o rosto da mulher com túnicas. Mas para o Ocidente é lícito expor o corpo da mulher de todos os modos, de elegância a putaria, de uma forma que, para muçulmanos, é igualmente condenável.)

Idéia 2 Os fundamentalismos muçulmanos são tão odiosos quanto os cristãos (nascidos por perto dos anos 1920 nos EUA e hoje alastrados como erva maligna pela política e a vida social do país) , os judaicos (que favorecem invasão e ocupação de terras palestinas e elegem governos de extrema-direita como o atual) e outros menos votados. O marido muçulmano afegão que mutila a mulher tem tanto peso quanto o ex-combatente que volta da guerra do Afeganistão, não encontra espaço na sociedade, arrasta traumas e psicoses, não tem assistência adequada e um dia mata a família e suicida. Os índices de suicídio entre ex-combatentes do Iraque e do Afeganistão é superior ao de todas as outras categorias classificáveis. Mas eles apenas matam e suicidam, não mutilam os seres amados.

3 O terceiro subtexto é o pretenso desrespeito do Taleban aos colaboradores altruístas e desinteressados, como médicos missionários, que socorrem, em geral, os feridos de tropas invasoras. Mais uma demonstração da barbárie do “inimigo” e da superioridade do invasor, que socorre até mesmo famílias afegãs atingidas pelos combates (leia-se: atingidos pelo fogo maciço dos invasores).

Idéia 3 Se não tivesse havido invasão, os médicos não estariam presentes, a não ser que fizessem parte de entidades dedicadas ao socorro a sofredores, sejam talebans ou chineses. Mas estes são sempre bem-vindos pelos governos e pelos opositores. Para os cidadãos do país, como os da etnia pashtun que enforma o Taleban, há milênios instalados em seu espaço, tropas armadas e médicos que se locomovem junto são ambos invasores.

A leitura, do ponto de vista do combatente taleban, é absolutamente correta. Seria pedir demais ao guerreiro taleban separar uns de outros. Logo para ele, que assiste ao seu inimigo que não sabe separar sequer combatentes de civis, ou adultos insurgentes de mulheres e crianças.

4 O quarto subtexto é a gratuidade do ataque taleban à equipe de médicos e assessores, o que reforça a característica de barbárie dos atos do inimigo.

Idéia 4 Os registros do Diário da Guerra Afegã trazem milhares de relatos de mortes em postos de controle, em estradas, dos invasores e da polícia afegã. Assim como os explosivos caseiros respondem pela maior parte de mortes de militares invasores, os assassinatos em postos de controle avultam entre os principais responsáveis pelas mortes de civis. Os invasores chamam essa barbárie de “escalation of force”, que começa no medo do que não se conhece (uma família afegã num carro é um potencial atacante) e culmina com civis metralhados, muitas vezes dentro de ônibus. Gratuidade?

5 Infere-se da foto, da chamada de capa e da leitura do texto que a violência de fundamentalistas muçulmanos é pior que qualquer outra.

Idéia 5 As contagens variam, mas todas convergem para cifras abismantes. No Iraque morreram até agora, após a invasão de 1991 por Bush pai, do bloqueio econômico e dos bombardeios entre 2001 e 2003, e pela invasão e posterior carnificina de Bush filho em 2003, mais de 1.350.000 civis. Exilados, contam-se por volta de 4.500.000, mais da metade fora do país. Desde a invasão russa de 1980-1989 até agora, após nove anos de invasão dos EUA-OTAN, morreram no Afeganistão estimados 3.000.000 de civis.

Mas a violência dos fundamentalistas muçulmanos é inimaginável: assim reza a grande mídia obediente aos desígnios e aos dólares do governo e das corporações que o elegem e mantêm. Consegue ser pior que a brasileira.

Fato que, este, sim, é um feito memorável!

9 de agosto de 2010

O direito de resposta do PT que a revista Veja teve que engolir



O texto do direito de resposta acima é o seguinte:

Ao reproduzir declarações de candidato a vice-presidente, a revista endossa e amplifica ofensas ao PT que foram objeto de sanção da Justiça Eleitoral ao PSDB.

Em defesa de sua honra, de seus dirigentes, filiados e militantes, e em respeito à população brasileira, que tem o direito de ser corretamente informada, o Partido dos Trabalhadores vem desfazer inverdades publicadas pela revista Veja, na Edição 2.175.

O PT é um partido político democrático, registrado desde 1980 no Tribunal Superior Eleitoral, que defende a Constituição e cumpe rigorosamente a lei.

O PT condena o terrorismo, repudia a violência, pratica e defende a via democrática para a solução de conflitos.

As relações do PT com partidos políticos de diversos outros países são pautadas pela busca da cooperação entre os povos e pela construção da paz mundial.

O repúdio ao narcotráfico, que corrói a juventude, atemoriza a população e corrompe a sociedade, é parte constitutiva do ideáiro e da prática do PT desde a fundação do partido.

O PT combate com firmeza o narcotráfico e o crime organizado, por meio de sua representação no Poder Legislativo, de suas administrações municipais, estaduais e, especialmente, na Presidência da República.

Ao longo de sua existência, o PT demonstrou que não transige com o crime nem se relaciona com o narcotráfico. Afirmar o contrário, como fez a revista Veja, é transigir com a verdade.

30 de junho de 2010

Associação Gaúcha pela Democratização da Cultura e da Comunicação

Assembleia Geral de fundação da Associação Gaúcha pela Democratização da Cultura e da Comunicação

Quinta Feira
1º de julho 2010– 18:30

Assembleia Legislativa - Sala Salzano Vieira 3°andar

Participe da criação de uma entidade que lutará pela democratização da cultura e da comunicação, através da luta social e do desenvolvimento de iniciativas concretas. Junte-se aos lutadores por uma outra comunicação possível. A I Conferência Nacional de Comunicação apontou o caminho para a democratização da mídia e da cultura.

Agora chegou a hora de pressionar o Estado (Executivo e Legislativo) para colocar em pratica as deliberações da Conferência. Ao mesmo tempo a sociedade civil deve desenvolver projetos de comunicação e de cultura geridas de forma democrática e participativa. Se você concorda com estas ideias junte-se a nós e participe da Assembleia de fundação da Associação Gaúcha pela Democratização da Cultura e da Comunicação.
Pauta:
1-Aprovação do Estatuto.
2-Eleição da Coordenação Executiva.
3-Reunião Ampliada da Coordenação Executiva.

23 de junho de 2010

A merda e a Globo

Mesmo que a avalanche anti-globo tenha surgido em função do futebol, não por outras pautas muito mais relevantes para a população brasileira, é inequívoca a importância das análises que o fato Globo X Dunga ensejou.
Mais, nesta casa, a Band foi a escolha para assistir jogos de futebol muito antes desse bafafá. Trata-se de um dos tentáculos do oligopólio midiático? Sim! Mas diferente da Globo e da ABERT, BAND/ABRA participaram do processo democrático da I Conferência Nacional de Comunicação. Não se recusaram a dialogar com a sociedade civil em momento algum e foi com seus votos e os da Telebrasil que a instituição dos conselhos de comunicação em todos os níveis administrativos foi eleita como demanda aprovada da I CONFECOM. Merece consideração, quem sabe, nossa audiência, frente às possibilidades fora da Globo.
Desde hoje, #diasemglobo em sua casa, ou trabalho. Como bem avalia Gilmar Crestani no artigo abaixo, pescado do seu blog Ficha Corrida, é mexendo no bol$o que a gente desestabiliza monopólios midiáticos [mesmo a BAND]:

“Merda, puto, cagão!” só (não!) se vê na Globo


Globo e merda, tudo a ver!

Globo e merda, tudo a ver!

Não dá outra, quando ouço Rede Globo lembro de Dominique Laporte. Logo vais saber porquê. Antes, voltemos a Vespasiano e o tributo sobre as latrinas: non olet. O Imperador Romano teria instituído um tributo sobre latrinas públicas. Seu filho Tito teria sugerido a extinção do tributo, por sua origem. Do pai, ao filho: Olet? (tem cheiro?). Tito teria respondido: Non olet! (não tem cheiro). No Direito Tributário importam os fatos econômicos, não a natureza jurídica.

Antes de passarmos ao “tributo” de Dunga à Globo, um pequeno troço sobre o termo. Segundo Dominique Laporte, no seu História da Merda, o lixo tem que ter alguém que se responsabilize por lançá-lo longe. E Dunga tem sido o duto através do qual repelimos o esgoto que sai das telas da Globo & afiliadas.

Afinal, por que quando os atores vão entrar em cena desejam “merda”? Para desejar sorte. E se Dunga desejou “sorte” ao Alex Escobar na busca de entrevistas exclusivas com jogadores de outras seleções, por que os funcionários da Globo reagem dizendo tanta merda? Já deveriam ter entendido que na seleção canarinha de Dunga não há mais espaço para exclusividade da Globo. Até porque não é a seleção da Globo & seus patrocinadores. É a seleção dos brasileiros de todos os veículos. Democraticamente!

O diário Lance! traz uma informação reveladora: “Mas os excessos (impedir entrevista exclusiva…) do técnico passaram a atingir questões maiores, como os patrocínios (ah! bom!). Assim, a costura política (substitua por mafiosa, dá no mesmo) tem sido uma das missões da entidade nos últimos dias.“

E democracia também é isso: não pode haver discriminação com as palavras que estão no dicionário. Todas estão lá para serem usadas… Roland Barthes (Sade, Fourier, Loyola) modernizou Vespasiano, adequando-a ao seu metier, “a merda escrita não cheira” , do tipo “a palavra cão não morde”. Por que, quase sempre, se grita “merda” na maioria dos países do mundo, quando se quer ofender alguém? Outro francês, Ferdinand Saussure, mostrou que se deve adequar a linguagem ao momento, ao assunto e ao interlocutor. Por que não chamar, então, a coisa pelo seu nome? Se só a Globo não ousa dizer seu nome, voilá, merde!

Vale a pena ver de novo



“Merda, puto, cagão!” Foi o que Dunga, sem as máscaras gregas, e numprocesso catárquico, lavou nossa alma quando deixou gravado em áudio e vídeo a definição do jornalismo made in Globo. Como é do conhecimento até do reino mineral a Escola das Américas se mudou do quintal Panamá para a cloaca do Jardim Botânico.

Como diria Gandi, “aquele que não é capaz de se governar a si mesmo não será capaz de governar os outros”. Por não terem conseguido influenciar Dunga, os anões da Globo, esnobando Gandhi, foram buscar no ditador Ricardo Teixeira um atalho para defecarem. Logo ele que sobrevive à frente da Capitani Hereditária da CBF graças ao casamento com a filha de Havelange. Antes, para parecer grande a Rede Globo lustrava as botas dos militares. Hoje, para nossa felicidade e opróbrio da Globo, os ventos mudaram. A internet democratizou o “mercado” da informação.

Pivô? Patrocinadores!

Patrocinador oficial da Globo!

Patrocinador oficial da Globo!

Primeiro, os patrocinadores exigiram Ronaldinho. Não deu. Depois tentaram emplacar “os meninos da vila”, mas, depois do banho de loja, de vila os meninos já não tinham mais nada. De patrocínio em patrocínio, foi declinando o poder da Globo. Os brancaleones da Globo passaram a atacar os moinhos de vento para atingir Dunga. Na Globo é assim, se estás contra ela, ela tentar fazer acreditar que estão contra o Brasil. Foram-se os tempos do ame-o ou deixe-o.

A Globo e seus funcionários compraram Dunga por anão mas receberam um Davi armado de funda de troco. No queixo!

Os assalariados da Globo usam o argumento de que estão representando os brasileiros em busca de informação. Não tenho certeza, mas nem todos patrocinadores a quem a Globo e seus funcionários servem são brasileiros. Quanto ao povo, bem, nós já sabemos o apreço que Globo & suas afiliadas têm por ele. Mais, esse mesmo povo a quem a Globo diz querer atender, faz campanha contra ela. No Twiter, a campanha “Cala a boca, Galvão!” “deu no NewYork Times”.

Agora a blogosfera faz novo convite, ver os jogos do Brasil por outro canal, a começar pela partida com Portugal, jogando uma bola nas costas da Globo e de seus paitrocinadores.

Faça sua parte, torça pelo Brasil assistindo o jogo por qualquer outro canal que não seja da Rede Globo. Vamos ensinar a eles a democracia que eles entendem, a dos $$$$$! Afinal, uma transmissão da Band non olet!


Perguntar não ofende

Pense!

Pense!

A pergunta que não quer calar: quem deu e de onde vem a autoridade de qualquer jornalista da Globo pensar que pode falar por mim ou pelos brasileiros? Houve concurso, eleição, estudo, preparação especial outorgando tal poder? Quem deu ou dá a eles a exclusividade de falar sobre os fatos?

1 de maio de 2010

Capital, trabalho e crime


A propósito da foto que ilustra o blog Diário Gauche neste 1º de maio, segue artigo de Maria Orlanda Pinassi, publicado originalmente na antiga página Agência Carta Maior em junho de 2006, cujo vínculo está indisponível atualmente.

O artigo se referia à violência no estado de São Paulo, conhecido por maio vermelho, e que retornou agora, 4 anos depois, na região do Guarujá.

O capital comete o crime. A ocasião faz o bandido

A superlotação dos presídios é a realidade a ser

agravada no mundo regido pelo capital que, em

escala crescente, precisa, para cada operação, de

uma mão-de-obra não somente desqualificada, mas

totalmente destroçada e descartável – no sentido

mais radical que se possa dar ao termo.

Maria Orlanda Pinassi


A propósito da ofensiva do PCC, que desde o último mês

de maio vem estarrecendo a “opinião pública” e

ocupando os espaços mais importantes da mídia nacional

e internacional, sugiro um ângulo menos casual para

debater um problema fundamentalmente estrutural.


Um bom ponto de partida pode estar em “Delícias do

crime” (Editora Busca Vida, 1988), do marxista alemão

Ernst Mandel (1923-1995), que considera o romance

policial o gênero que, mesmo sem querer, melhor se

aproxima da natureza mais íntima da prosaica realidade

burguesa.


“A história do romance policial é uma história social,

pois aparece entrelaçada com a própria história da

sociedade. Se formularem a pergunta: “por que a

história social deveria estar refletida na história de

um gênero literário específico?”, a resposta será:

porque a história da sociedade burguesa é também a

história da propriedade e da negação dessa propriedade

– ou, em outras palavras, o crime; porque a história

da sociedade burguesa é também a crescente e explosiva

contradição entre as necessidades ou paixões

individuais e padrões mecanicamente impostos de

conformismo social; porque a sociedade burguesa, e por

si mesma, gera o crime, tem origem no crime e conduz a

ele; ou talvez porque a sociedade burguesa seja, em

resumo, uma sociedade criminosa?”


Pois bem, para intelectuais de esquerda que, como eu,

costumam freqüentar o gênero, “Delícias do crime”

oferece argumentos que, se não anulam completamente,

ao menos ajudam a minimizar o constrangimento pelas

horas dedicadas a este tipo de “subliteratura”,

condenada por sua ligeireza pequeno-burguesa e

alienada. O livro reconta a história do romance

policial a partir de um ponto de vista materialista.

Assim, com o fito de compor uma história social do

romance policial, Mandel redime seus “pares

desviantes”, restabelecendo a correspondência

indissociável entre crime e contradição social,

refletida para as mais diversas páginas literárias, da

ficção e da não-ficção, dos últimos quatrocentos anos.


* Do pecado original à sua negação


No entanto, é Karl Marx quem puxa o fio da meada

lembrando que o conceito liberal de crime – o mesmo

que há tanto tempo fornece (e, ironicamente, oculta) o

substrato classista da pena contra os que violam a

propriedade privada – tem suas origens fincadas nos

mais repugnantes atos de usurpação e violência.


Por exemplo, quando narra as atrocidades da acumulação

primitiva, Marx destrói a passividade com a qual se

convencionou descrever a formação da classe

trabalhadora. Os fatos desmistificam o sentido

fatalista e, no mínimo, estranho de libertação dado a

um movimento vivo e muito violento que expropriou e

transformou produtores diretos numa imensa massa de

indivíduos despossuídos, lançados a mais absoluta

pobreza e à dependência exclusiva do mercado de

trabalho.


Da pilhagem inicial aos novos proprietários sobreveio

a imperativa necessidade de legitimar e, com isso,

potencializar os seus já fabulosos resultados. A

regência do capital impunha a reprodução permanente e

sempre ampliada daquele primeiro – e já concluído –

movimento de expansão e acumulação de riquezas,

impulsionada então por uma nova centralidade

fundamental: a exploração do trabalho “livre” e

assalariado que, até finais do século XIX, conviveu e

até mesmo se associou perfeitamente à exploração do

trabalho escravo nas colônias (1). Isso significa que

a reprodução do movimento necessário à acumulação é

também a reprodução da espoliação, do roubo, do logro

e, principalmente, da extração do sobretrabalho

empregando múltiplos métodos, quase todos muito

violentos. Sobre isso, aliás, é importante lembrar que

os métodos privados empregados no princípio do

processo de desenvolvimento da acumulação jamais

caíram em desuso, ao contrário, a eficiência de seus

resultados foi complementada por outros métodos,

alguns oficializados pelo Estado, muitos dos quais tão

truculentos quantos os predecessores (2).


Por isso mesmo é que as primeiras leis precisaram

converter o pecado original na mais sagrada das

virtudes na terra, abatendo-se com ira sobre os

antagonistas da “ordem” que se pretendia instaurar.

Desde então, toda concepção do direito haveria de

regular e vigiar a relação de dominação do capital

sobre o trabalho, essa sim essencial ao funcionamento

da sociedade burguesa, tentando manter, na medida do

possível, uma distância segura entre os indivíduos

pertencentes às duas esferas. Por essa razão, e não

por outras, os sem-propriedade tiveram de ser

criminalizados na história do capital, até porque a

miséria que os reveste é a mais transparente prova da

desigualdade material, a mais absoluta conseqüência do

enriquecimento sempre ilícito dos proprietários

privados (3). A criminalização, portanto, é

imprescindível diante do espectro sempre ameaçador de

uma possível manifestação da consciência de classe

alienada, sobretudo da riqueza por ela criada.


Mas, tanto quanto os métodos privados, as leis dos

séculos XVI e XVII também têm as marcas da mais feroz

brutalidade, razão pela qual eram imediatamente

identificadas como “a expressão da vontade dos

conquistadores, enunciando como eles querem governar

seus súditos”. O grande desafio dos legisladores

liberais dos séculos seguintes foi ocultar a sua

verdadeira objetividade classista, a fim de

“pacificar” as relações contraditórias, neutralizando

a sua violência potencial. O trunfo mais utilizado

para “normalizar” a situação foi impregnar o cotidiano

dos homens com uma ilusória abrangência universal dos

direitos. Com isso, os reais problemas sociais vão

deixando de ser apreendidos como produtos de uma

gigantesca usurpação primitiva e passam a ser aceitos

com inconsciente resignação. Mais do que aceitação, os

indivíduos são levados a assumir a responsabilidade

por seus “fracassos” e “sucessos” por meio de

atributos puramente subjetivos e abstratos.


A “naturalização” dessa lógica societal seria

assegurada pela constituição de múltiplas frentes: 1)

a mais eficaz delas foi obtida da ardilosa ideologia

liberal pós-revolucionária que habilmente transmitiu

por todos os poros da vida produtiva e reprodutiva dos

indivíduos, uma confortável (e falsa) percepção de que

as oportunidades – ainda que restritas ao âmbito da

política – seriam iguais para todos os cidadãos; 2) as

leis trabalhistas e as instituições correlatas

transferem para o Estado o controle das insatisfações

e reivindicações mais imediatas da classe trabalhadora

impondo, com isso, os limites legais da luta operária,

mantida sempre na esfera das práticas defensivas ou da

inquestionável realização do trabalho alienado; 3) em

tempos de “paz”, a função policialesca do Estado –

confirmando-se como uma das bases fundamentais do

sistema sócio-metabólico do capital – mantém alerta

todo o seu efetivo humano e tecnológico. Quando,

porém, nem uma, nem outra logra êxito em conter as

manifestações mais radicais e latentes da contradição

social, prontamente o aparato repressivo oficial

aciona seus mecanismos mais violentos.


Como regra, as prisões foram concebidas e, de fato,

utilizadas para abrigar o pobre “desocupado, ocioso”,

na verdade, o trabalhador – livre ou escravo –,

desempregado, faminto, insurrecto, de qualquer modo,

previamente condenado, sem apelação, e jogado na vala

comum da gentalha maltrapilha e depravada, alheia aos

ensinamentos dos céus e rebelde à lei dos homens,

enfim, a populaça que habita o mundo das classes

perigosas. Isso significa que, a partir daquela

inversão da culpa pelo pecado original, a classe

operária, sempre tratada como “caso de polícia”, vem

há séculos expiando o delito no qual foi desde o

princípio a parte vitimada.


A verdadeira história da acumulação primitiva foi

colocada no limbo para ser esquecida, favorecendo com

isso a troca do papel de meliante. Assim, com o

passado “lavado” da memória, predominou sobre o

sistema a noção de que cumpria uma heróica “missão

civilizatória”. A soberba auto-imagem do capital – e

sua dinâmica irrefreável capaz de abalar, transformar

e submeter os cantos mais remotos do planeta -, teve

ainda outros pontos de sustentação mais ou menos

definidos: 1) a sua gigantesca capacidade de liberar

forças até então inimagináveis de produção e de

criação de riquezas graças aos progressos derivados do

trabalho abstrato e da permanente revolução

tecnológica; 2) as freqüentes investiduras do centro

sobre a periferia, sempre justificadas como a

supremacia da liberdade sobre a reação e o atraso; e

3) os princípios liberais de democracia e república,

ideais que, como Deus, ninguém jamais viu, mas, acima

de tudo, ideais obstinadamente perseguidos até mesmo

por aqueles que pouco acreditam na sua efetiva – e

falaciosa – representação na sociedade de classes.


* Presente e passado: uma reconciliação pelo crime


Durante parte considerável do período de ascendência

do sistema do capital, os apologetas procuraram

destacar as positividades do seu movimento histórico,

mantendo-as relativamente afastadas das atividades

ilícitas mais flagrantes. No entanto, muito antes

dessa longa fase de ascensão do capital atingir um

estado de esgotamento irreversível – fato que ficará

evidente nos anos de 1970 –, o quadro histórico das

primeiras décadas do século passado já admitia a forte

presença de um universo dominado pelo crime

organizado, um submundo responsável pela banda podre,

mas ainda considerada “paralela” à sociedade burguesa.


Aqui remeto o leitor novamente a Mandel e com base em

suas investigações sobre o mundo do crime refletido no

romance policial do século XX se observa que nesse

mundo não havia mais lugar para a genialidade

investigativa de um indivíduo que, sozinho, desvendava

os casos mais hediondos. O declínio do detetive astuto

leva consigo o plano privilegiado do crime autoral –

tenha sido ele passional ou premeditado –, e isso

coincide com a explosão das atividades criminosas que

adotam a racionalidade do capital, mais adequada à

ampliação das oportunidades que lhes foram abertas

pela dinâmica imperialista. A reestruturação é

progressiva e tem base nos rigores da divisão social

do trabalho; nesta medida, os produtos do crime

organizado se originam do trabalho abstrato,

objetivado através de uma intrincada e cada vez mais

complexa rede de relações sociais. A grande vantagem é

a obtenção de uma produtividade muito mais eficiente e

lucrativa, além de uma conveniente invisibilidade,

pelo menos para a parte mais poderosa dos setores

envolvidos em sua estrutura hierárquica.


Porém, à medida que avançam as décadas e os fatos –

potencialmente brutais e irracionais – do século XX, o

lado do capital mantido à distância das páginas

policiais começa, por fim, a freqüentá-la,

explicitando suas próprias e profundas ramificações

com o submundo que efusivamente prometeu combater. Ao

invés de erradicá-lo foi bem mais conveniente

associar-se a ele. Coincidentemente ou não, o

interesse por essa sociedade se intensifica na razão

inversa à decadência do Estado de bem estar social

como modelo provedor de uma expansão sem (maiores)

problemas para o capital. Incapaz de controlar as

contradições cada vez mais agudas do seu sistema de

funcionamento sociometabólico, o capital atinge,

enfim, os limites dos seus defeitos mais estruturais,

fato que dá origem a uma crise de proporções jamais

vistas antes e, o que é ainda mais grave, insolventes

no interior dessa mesma (des)ordem social.


Prova disso, é que diante da imperativa necessidade de

manter a reprodução ampliada do capital e da

impotência das políticas que até então garantiram a

sua marcha incansável, o cenário vem apontando, pelo

menos desde a década de 1970, para mudanças que

parecem ativar o seu explosivo potencial de destruição

(e só destruição), uma clara ruptura com a noção

schumpteriana de que o capitalismo é um sistema que

funciona mediante a destruição produtiva. Os efeitos

mais nefastos das medidas tomadas seriam sentidos

principalmente pelos trabalhadores, progressivamente

golpeados em seus mais elementares direitos,

conquistados através de duros enfrentamentos sindicais

e políticos. A degradação se completa com o desemprego

estrutural e a precarização sem limites do trabalho,

condições necessárias ao novo padrão de acumulação

exigido.


Nesse quadro, o capital abandona até mesmo os mais

agonizantes escrúpulos – incluindo os ideológicos.

Conseqüentemente ampliam-se os espaços

irreversivelmente ocupados pelas atividades tingidas

pelo crime. A prova disso está no inegável poder

econômico e político que hoje representa o tráfico de

drogas e de armas – o lado mais obscuro e eficiente do

império constituído pelo complexo industrial militar

–, no interior da “coisa pública” e dos negócios

privados ditos legais ou de fachada.


A cena, enfim, mostra uma situação extremamente

problemática, na qual “(...) o crime organizado, em

vez de ser periférico à sociedade burguesa, emana

crescentemente das mesmas forças propulsoras

sócio-econômicas que governam a acumulação de capital

em sua totalidade: propriedade privada, competição e

produção generalizada de bens (economia monetária

generalizada). [...] Porém, um mundo de ricos é também

um mundo de gângsteres, especialmente porque os

principais gângsteres se tornaram cada vez mais ricos

em termos relativos e são com certeza qualitativamente

mais ricos do que o policial mais rico ou a massa

esmagadora de políticos. (...) O problema econômico

chave para o crime organizado era encontrar saídas

legítimas para o capital ilegalmente acumulado. Sob o

capitalismo tardio, isso é apenas um reflexo

específico – talvez paradoxal e até grotesco – de um

problema mais geral: o encontro de áreas de

investimentos adequados para massas de capital

excedente. Entretanto, os dois fenômenos não se

encaixam simplesmente, mas na verdade tendem a fluir

um dentro do outro, se interpenetrando. O dinheiro

ilegal é “lavado” através de depósitos bancários

localizados – geralmente, embora não unicamente – em

áreas isentas de impostos. Porém o equivalente legal

do dinheiro “quente” – i. é, capital excedente – tende

da mesma forma a ser depositado nos mesmos bancos, nas

mesmas áreas isentas de impostos. O dinheiro sujo e o

limpo se confundem nas folhas de balancetes, como

também na busca da mais-valia, através de qualquer

meio possível” (4).


* A hierarquia classista e trágica do crime


Aqui chego ao ponto que me fez refletir sobre a

essencialidade do crime para a sociedade burguesa e a

perspectiva de classe tão fielmente reproduzida em sua

hierarquia. Sim, porque é no interior de toda essa

discussão que se deve tratar a realidade da explosiva

população carcerária que, apesar de confinada, vem

apavorando com as notícias sobre as rebeliões que

organiza e as ações que efetivamente lidera nas ruas.

Essa perspectiva, portanto, é muito diferente do senso

comum que analisa o problema a partir dele próprio,

como se a sua existência fosse algo em si ou, quando

muito, um problema de má gerência do Estado, reflexo

da corrupção que emana da representação política (no

Brasil e mundo), um problema de educação, enfim.


Á essa altura da discussão realizada, uma questão

fundamental é saber: quem são os indivíduos amotinados

e organizados em torno do PCC? São bandidos? Quanto a

isso parece não haver muita dúvida. Todos eles, de

algum modo, violaram, muitas vezes violentamente,

regras essenciais e necessárias à sociabilidade

humana, mesmo quando submetidas à lógica do capital.

Aqueles indivíduos, amontoados em celas como animais

no abatedouro, sujeitos às piores humilhações e

violência física, um dia roubaram, traficaram,

mataram, realizaram, em muitos dos casos, o trabalho

sujo reservado à “escória” de uma estrutura social,

seja ela legal ou ilegal.


Assim, tanto quanto Sherlock ou Hercule Poirot o

fariam, eu pergunto: qual o motivo do crime cometido

por eles? Pois bem, aqui reside toda a diferença entre

os bandidos-que-vão-para-a-cadeia e os

bandidos-que-não-vão-para-a-cadeia, entre os bandidos

visíveis e os bandidos invisíveis, estes em geral

assentados nos setores mais importantes, e até mesmo

insuspeitos, da sociedade capitalista (5). Em

princípio, portanto, parece que para aqueles que

não-vão-para-a-cadeia, o crime é a oportunidade de

acumular e fortalecer ainda mais a condição de burguês

a fim de conquistar todos os benefícios materiais e

imateriais que correspondem a esse status quo, cujo

pré-requisito é a propriedade privada,

independentemente dos critérios de moral e de

princípios éticos, hipocritamente constituídos para a

sociedade de classes. Para os que vão-para-a-cadeia, o

trabalho desenvolvido no interior da atividade

criminosa constitui um meio de reproduzir as condições

de sua vida de bandidos que, conscientemente,

vão-sempre-voltar-para-a-cadeia.


O bandido visível nasce em bairro de pobres, é

subnutrido, aplaca a fome com cola, com crack, não

estuda, apanha e é submetido a sevícias em casa, na

rua, na Febem, mais tarde, nas delegacias de polícia.

Aprende a empunhar a arma desde cedo, único meio de

afirmação da sua existência e da sua reduzida

auto-estima. A violência sempre foi a mediação mais

familiar que o liga à vida e no seu mundo, tão óbvio

quanto manejar uma arma, não há lugar para a fantasia,

para o glamour, nem para o romance; toda perspectiva é

imediata, sem rodeios, inclusive a necessidade

premente de recorrer ao crime.


Mas isso está muito longe de ser uma espécie útil de

darwinismo social, como nos faz supor a imprensa que

trata de modo tão leviano a questão. Paira, então, a

dúvida: antes de serem simplesmente os bandidos que

realizam o trabalho sujo do mundo em que vivemos, de

onde eles vêm? Evidente que sua árvore genealógica não

pactua consangüinidade com as elites. Como regra, o

passado é rude e proletário, condição progressivamente

negada pelo capital legal em sua fase de decadência

histórica. Assim, durante a crise estrutural o capital

os expulsa pela porta da frente para readmiti-los pela

porta dos fundos, sob as piores e mais precarizadas

condições possíveis. Para eles, inexistem leis a

regulamentar limite de idade, jornada de trabalho,

insalubridade. A situação, enfim, remete aos piores

dias vividos pela classe trabalhadora nos primórdios

da revolução industrial. E sobre isso, vale ainda

pensar nas campanhas que visam coibir o trabalho

infantil, enquanto a própria sociedade condena os

“aviõezinhos” do tráfico.


Esses homens e mulheres inexistem para a sociedade, a

não ser quando saem dos morros, favelas, presídios

para ameaçá-la. É nestas ocasiões que os “pacatos

cidadãos de bem” despertam sua ira para ressuscitar a

pena de morte, o discurso da autoridade, da repressão

(6).


Para concluir, arrisco ainda algumas palavras. A

organização do PCC, a partir dos presídios, confere

autenticidade às suas reivindicações enquanto

organização de presidiários. Sua expectativa não é

revolucionária, não visa romper as hierarquias, seu

inimigo está na polícia, seu algoz imediato. Não há

plano de ruptura com a estrutura mais ampla do crime

organizado do qual deriva sua própria condenação;

antes, suas ações parecem querer atenção para as

condições do cárcere numa tentativa de impor regras e,

de algum modo, minimizar a barbárie do seu cotidiano.


Sua capacidade de mobilização, bem como o

estabelecimento de regras sobre aquilo que eles mesmos

reivindicam, se contrapõe a um Estado absolutamente

incompetente e manietado pelo compromisso indissolúvel

que estabeleceu com a lógica que oferece impunidade e

privilégios aos bandidos graúdos. Ao que tudo indica,

os integrantes do PCC fazem um excelente uso do seu

peculiar tempo livre no confinamento, caso contrário

suas ações não seriam tão bem articuladas dentro e

fora dos presídios.


Por tudo isso, fica ainda mais flagrante a inutilidade

das pesquisas científicas “especializadas” em

violência, porque o imenso volume de dados que produz

não costuma ter lastro histórico e porque seu objetivo

é prover as instituições governamentais e

não-governamentais de “informações” para políticas que

nunca chegam a ser implementadas. Enquanto isso, o

crime mais amplo e de resultados infinitamente mais

trágicos para a humanidade permanece nas sombras

projetadas pelo cinismo dos seus apologetas.


A superlotação dos presídios é a realidade a ser

agravada no mundo regido pelo capital que, em escala

crescente, precisa, para cada operação, de uma

mão-de-obra não somente desqualificada, mas totalmente

destroçada e descartável – no sentido mais radical que

se possa dar ao termo. Mas, se quisermos de fato um

futuro qualitativamente diferente desse em que

vivemos, não podemos ignorar a existência desse mundo

esquecido, que foge à regra do que sempre pensamos e

que desafia a tenacidade da nossa convicção

socialista.


* Notas


1) Ver a respeito “A jornada de trabalho”. In. Karl

Marx. O capital, capítulo VIII, seção III, tomo I. São

Paulo, Nova Cultural, 1988, p. 181-2.


2) “O progresso do século XVIII consiste em a própria

lei se tornar agora veículo do roubo das terras do

povo, embora os grandes arrendatários empreguem

paralelamente também seus pequenos e independentes

métodos privados”. (Karl Marx. A assim chamada

acumulação primitiva. In. O capital, capítulo XXIV,

seção VII, tomo II. São Paulo, Nova Cultural, 1988, p.

259).


3) É absolutamente verdadeira a frase de Proudhon:

toda propriedade é um roubo.


4) Mandel, ibidem, p. 180-1.


5) Só para citar alguns, eles podem estar nas grandes

e fictícias corporações como Enron, podem estar

praticando o punguismo nos conglomerados financeiros,

os lobbies cada vez mais purulentos e desastrados que

caracterizam as ações de representatividade em todas

as esferas políticas, e até realizando pequenos golpes

contra o infeliz que “optou” por pautar sua miserável

vida pelas regras que definem tanto sua “devoção

religiosa” como aquelas que regem os “direitos do

cidadão”.


6) A mídia irresponsável que apavora a população é a

mesma que adoraria lançar uma revista cuja capa

estamparia Marcola e Hebe Camargo na Ilha de Caras.


* Maria Orlanda Pinassi é professora do Departamento

de Sociologia da Unesp de Araraquara, membro de comitê

de redação da revista Margem Esquerda e autora do

livro "Três devotos, uma fé, nenhum milagre" (Ed.

Unesp).