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| Foto: Marcelo Casal Jr./ABr |
9 de dezembro de 2010
Efeito Palocci no Governo Dilma?
18 de novembro de 2010
OS “MISERÁVEIS” E O AUTOMÓVEL
23 de outubro de 2010
Chove em Washington e Serra abre o guarda-chuva em Brasília
20 de outubro de 2010
Como a redecastorphoto e a Vila Vudu vêem a venda do Brasil
29 de agosto de 2010
Foi uma marolinha!
Para mim é um vídeo bastante didático sobre o mimetismo da velha mídia e sua aposta num projeto político de dependência econômica, sem soberania nacional.
Ele recupera discursos veiculados pela mídia velha, por políticos da oposição e discursos do presidente Lula sobre a crise mundial de 2008. Também mostra como a imprensa internacional abordou as ações tomadas pelo presidente Lula para que a crise mundial não fizesse grandes estragos no Brasil. Lembram-se? Lula dizia a crise aqui será uma marolinha e toda a mídia e a oposição diziam que seria um tsunami.
Agora, no período eleitoral, o vídeo também nos mostra como tanto a velha mídia como a oposição ao governo Lula apostam em nossa falta de memória.
28 de agosto de 2010
Ovos podres e nossa democracia rompida
Ainda que sejam muitas as marcas retiradas do mercado de consumo, todas estas podem ser rastreadas até chegar a só duas granjas de produção de ovos. Cada vez mais, a provisão de alimentos está em mãos de enormes companhias, crescendo vertiginosamente, e que exercem um enorme poder sobre nosso processo político. A mesma situação que ocorre com a indústria alimentícia, dá-se também com as petroleiras e os bancos: são corporações gigantescas (algumas com orçamentos superiores a maioria dos países do planeta), estão controlando nossa saúde, nosso meio ambiente, nossa economia e, cada vez mais, nossas eleições.
O surgimento de salmonela é só o episódio mais recente de uma série de outros que demonstra uma indústria alimentícia desenfreada. Patty Lovera, subdiretora do grupo pela segurança alimentar Food & Water Watch, me disse: “Historicamente, sempre tem havido resistência por parte da indústria a todo tipo de norma de segurança alimentar, seja esta ditada pelo Congresso ou por outros organismos governamentais. Existem grandes associações comerciais para cada setor de fornecedores dos nossos alimentos, desde os grandes produtores agroindustriais até as lojas produtos comestíveis.”
Os ovos contaminados com salmonela provinham de apenas duas granjas com porte de fábrica, a Hillandale Farms e a Wright County Egg, ambas do estado de Iowa. Por trás deste surgimento da doença está o empório do ovo de Austin “Jack” DeCoster. DeCoster é proprietário da Wright County Egg e também da Quality Egg, provedora de frangos e de alimentos para frangos das duas granjas de Iowa. Patty Lovera afirma que: “DeCoster é um nome que se escuta muito quando alguém começa a falar com conhecedores da indústria do ovo ou com pessoas que provem dos estados de Iowa, Ohio ou dos outros estados em que DeCoster opera. Por isso achamos que DeCoster é o perfeito exemplo do que sucede quando temos este tipo de concentração e produção em grande escala. Não se trata só de segurança alimentar ou só de dano ambiental ou do tratamento que recebem os trabalhadores. Quando estamos em frente a este tipo de produção em massa, responsável por enormes quantidades e variedades de nossos alimentos, se trata de um pacote completo de efeitos colaterais negativos.”
A agência de notícias Associated Press produziu um resumo das violações às normas sanitárias, de segurança e de leis trabalhistas presentes nas operações de DeCoster com ovos e porcos em vários estados. Em 1997, a empresa DeCoster Egg Farms aceitou o acordo da Justiça e resolveu de pagar uma multa de dois milhões de dólares pouco depois que o então ministro de Trabalho Robert Reich qualificou sua granja de “tão perigosa e opressora como qualquer empresa maquiladora (ver nota 1 no final do texto). Em 2002, a companhia de DeCoster pagou USd 1 milhão e meio de dólares para chegar a um acordo fruto de uma demanda legal apresentada pela Comissão Federal de Igualdade de Oportunidades Trabalhistas, que representou judicialmente contra a empresa, em defesa de mulheres mexicanas que informaram ter sido submetidas a assédio sexual, inclusive violação e estupro, incluindo abusos e represálias por parte de seus supervisores. Este verão, outra companhia vinculada a DeCoster teve de pagar USd. 125 mil dólares ao estado de Maine por ser acusada de trato cruel contra os animais.
Apesar de tudo isto, DeCoster tem prosperado no negócio de ovos e porcos, o que o põe à altura de outras grandes corporações transnacionais, como a British Petroleum (BP) e os grandes bancos. O derramamento de petróleo da BP, o maior na história deste país, esteve precedido por uma longa lista de fatos criminosos e graves violações às normas de segurança no trabalho. Sendo que todas estas denúncias já datam de vários anos. Um dos mais conhecidos destes atos foi a grande explosão da refinaria da cidade de Texas, desastre esse que custou a vida de quinze pessoas no ano 2005. Se a BP fosse uma pessoa física (um cidadão qualquer), teria ido a prisão faz muito tempo.
A indústria financeira é outro delinqüente crônico. Pouco tempo após o maior desastre financeiro mundial (desde a Grande Depressão iniciada com o Craque da Bolsa de Valores de Nova York em 1929), bancos como Goldman Sachs, cheios de dinheiro depois resgate financeiro governamental - quando os cofres públicos jorraram dinheiro para a salvação da Banca - interferiram no processo legislativo que justamente os tentava controlar.
O resultado foi um novo e amplamente ineficaz organismo governamental de proteção ao consumidor, além de uma implacável oposição à designação, para a direção deste organismo, da defensora dos direitos do consumidor Elizabeth Warren, que seria a pessoa quem supervisionaria aos bancos tanto como o novo organismo lhe permitisse. Este é o motivo pelo qual se opõem a sua designação os banqueiros, dentre eles, Timothy Geithner e Larry Summers. O primeiro foi nomeado pelo Presidente Obama nomeou como Secretário do Tesouro e Assessor Econômico.
Permite-se às corporações transnacionais operar praticamente sem supervisão e nem regulação. Permite-se que o dinheiro das grandes empresas exerça influência sobre as eleições, e por tanto, sobre a conduta de nossos representantes. Depois da decisão da Corte Suprema no caso apresentado pelo grupo de direita Citizens United, permitindo doações corporativas ilimitadas às campanhas, o problema vai de mau em pior. Para ser eleitos e manter no poder, os políticos deverão satisfazer mais e mais a seus doadores empresariais. Se poderia dizer que o lobo vigia ao galinheiro (e aos ovos podres que há nele). No entanto, há esperança. Existe um crescente movimento para reformar a constituição dos Estados Unidos, para tirar das corporações transnacionais o status legal de “pessoa jurídica”, conceito pelo qual estas empresas têm os mesmos direitos que as pessoas normais.
Isto faria que as corporações estivessem sujeitas à mesma supervisão que existiu durante os primeiros cem anos da história dos Estados Unidos. Mas para que as pessoas sejam as únicas com direito à participação política será necessário um verdadeiro movimento de base, dado que o Congresso e o governo de Obama parecem não ser capazes de implantar nem sequer as mudanças mais básicas. Como diz o refrão: “para se fazer um omelete, é preciso quebrar alguns ovos”.
1 Observação do tradutor: maquiladoras são empresas de montagens de peças industriais localizadas na fronteira entre os EUA e o México, que basicamente emprega mulheres, paga salários aviltantes e oferece tratamento desumano.
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Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna.
Texto traduzido do castelhano e revisado do original em inglês por Bruno Lima Rocha; originalmente publicado em português por Estratégia & Análise. É livre a difusão em língua portuguesa, desde que citando a fonte do original e neste idioma.
7 de junho de 2010
Entrevista de Marcio Pochmann no Sul21
Destacamos:
Pode-se afirmar, como fazem alguns ‘especialistas’, que o sucesso do governo Lula com a política econômica se deve às ações do governo FHC?
A reforma agrária, em sua visão, está tendo a atenção devida?
A pequena propriedade tem participação importante na economia do país, mas acredito que a relevância da reforma agrária está em dois fatores diferentes e pouco discutidos. Primeiro: a reforma agrária hoje é uma questão de soberania nacional, em razão da disputa por fontes de água doce e pela própria soberania territorial para a produção alimentar. Países como a China estão hoje comprando grandes áreas de terra para sua produção, assim como grandes corporações internacionais. A África hoje é um exemplo disso. Muitos países praticamente já não possuem acesso às suas fontes de água e às suas terras produtivas. O segundo tema é a sustentabilidade ambiental. O monopólio na produção agrícola serve de vetor da degradação. O Estado tem muito mais condições de regular a degradação ambiental em relação ao pequeno e médio produtor rural. No entanto, para discutirmos a reforma agrária precisamos mudar a forma de ação do Estado para atuações integradas. O assentamento não é um tema da agricultura de maneira isolada, ele requer uma ação matricial do Estado. É necessário investir em educação, tecnologia, saúde, linhas de crédito, capacitação, enfim, ações setoriais, mas articuladas.
Leitura completa AQUI.Foto: Bernardo Rebello/ABr
5 de maio de 2010
Diploma de economista de José Serra é contestado por Conselho
Seu Serra
Por Sitônio Pinto* - 25 de março de 2010
O Conselho Federal de Economia nunca se manifestou sobre o pedido de interpelação judicial e o conseqüente enquadramento do candidato José Serra no Art. 47 do Dec. Lei. 3.688/41, feito pelo Conselho Regional de Economia da Paraíba e endossado pelos Conselhos Regionais do Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Piauí, Alagoas, Maranhão, Rondônia e Tocantins, e por dois membros do Conselho Federal de Economia. O pedido teve por motivo o uso indevido da qualificação de economista pelo candidato Serra, que não tem bacharelado em economia nem é registrado em qualquer Conselho Regional de nenhum estado brasileiro. O procedimento do candidato caracteriza falsidade ideológica e charlatanismo, em prejuízo dos que exercem legalmente a profissão.
O Corecon-PB fez a sua parte, denunciando a irregularidade e pedindo providências à entidade competente, - no caso o Conselho Federal de Economia, parte legítima para uma iniciativa jurídica, pois congrega todos os Corecons do Brasil, onde, hipoteticamente, Serra deveria estar inscrito como economista.
Por coincidência, logo após a denúncia do Corecon-PB, seu presidente, economista Edivaldo Teixeira de Carvalho, teve sua residência invadida por três homens armados que lhe roubaram um automóvel e outros objetos de valor. A violência não parou aí. Telefonemas ameaçadores foram transmitidos à casa de Edivaldo, com a recomendação de que ele ficasse quieto. Sua casa foi rondada por automóveis em atitude suspeita.
É de estranhar também a omissão do Confea, entidade que reúne os Conselhos Regionais de Engenharia e Arquitetura (Crea), que até agora não se manifestou sobre o uso do título de engenheiro pelo candidato José Serra. Nenhum dos Creas também se pronunciou sobre o assunto. Enquanto o silêncio das entidades permanece, Serra continua apresentando-se à população brasileira como engenheiro, no seu marketing político, da forma que se pode ver no último exemplar da revista Istoé, nº 1721, de 4/9/2002, página 53, na matéria O homem segunda-feira, linhas 10 e 11, onde a reportagem diz que Serra é engenheiro e economista.
É inexplicável silêncio dos Creas e da Confea. Deveriam e poderiam mirar-se na atitude zelosa do Corecon-PB, e, na defesa das profissões que representam, protestar contra o emprego enganoso e politiqueiro da falsa titularidade arrotada pelo candidato Serra, que não tem título de bacharelado em nenhuma ciência, mesmo as ocultas.
*Sitônio Pinto é Jornalista, escritor, publicitário, Membro do IHGP, da academia paraibana de letras e da academia de letras e artes do nordeste.
sitoniopinto@gmail.com
8 de novembro de 2009
"Não é possível pensar o desenvolvimento dos Estados, desvinculado de um projeto de país"

Pochmann esteve em Porto Alegre para falar sobre “Desenvolvimento regional e local, o desafio da sustentabilidade ambiental, dos sistemas locais de produção e do trabalho”. Ele iniciou sua intervenção contextualizando o tema no atual período histórico que vive o país. “É importante lembrar que o Brasil ainda não tem uma tradição democrática. Em 500 anos de história, não temos 50 anos de democracia”. No período da redemocratização, acrescentou, o debate sobre o modelo de desenvolvimento se deu com o Brasil numa situação muito enfraquecida e periférica em relação ao capitalismo central. “Hoje, queremos assumir uma condição de liderança no cenário global e não ser um mero replicador de políticas definidas no exterior. Não avançaremos na marcha da insensatez que caracteriza o atual modelo destruidor do meio ambiente”.
O presidente do IPEA apresentou três elementos para orientar esse debate:
1. Economia do Conhecimento: cerca de 70% dos postos de trabalho gerados atualmente já são de trabalho imaterial. Está em curso um crescimento dos ativos vinculados ao trabalho imaterial, onde as pessoas não têm horários nem locais fixos de atuação. É um novo tipo de riqueza que está surgindo.
2. Sustentabilidade ambiental: não podemos mais imaginar que o novo padrão de desenvolvimento se dará repetindo o passado. Esse debate precisa levar em conta as características próprias de cada um dos seis biomas brasileiros: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal. E deve considerar também o processo de inovação tecnológica que altera profundamente nossa relação com o meio ambiente. Pochmann chamou a atenção ainda para a relação entre as mudanças climáticas e os impactos que já estamos assistindo quanto ao uso de recursos hídricos e à produção de alimentos. “A se manter a tendência atual de mudanças climáticas, em pouco tempo o café só poderá ser produzido no Rio Grande do Sul”, exemplificou.
3. Nova demografia: Em 2030, deveremos ser 207 milhões de brasileiros (um número menor do que as expectativas projetadas anos atrás). Em 2040, seguindo a tendência atual, seremos 205 milhões. Considerando essa diminuição, cabe perguntar: interessa ao Brasil conter a população? Estamos vivendo um processo de envelhecimento populacional e de queda na taxa de fecundidade. Em 1992, tínhamos 34% da população até 15 anos de idade. Em 2008, esse número caiu para 24% e, em 2030, deverá ser de apenas 12%. Além disso, presenciamos também uma nova revolução sexual, com um descolamento da reprodução do sexo. Com as novas técnicas de fecundação, não é mais necessário ter sexo para se ter filhos. Também constatamos hoje um aumento da expectativa de vida dos brasileiros que, em alguns anos, poderá se aproximar dos 100 anos. Já temos hoje cerca de 3 milhões de pessoas com mais de 80 anos no Brasil. Esses dados indicam que estamos passando por um processo de mudanças dramáticas nas famílias brasileiras, com importantes conseqüências econômicas, sociais, culturais e educacionais.
Pochmann considera esses elementos fundamentais para fazer o debate sobre desenvolvimento regional. E essa avaliação já aponta para uma de suas teses centrais a respeito do tema: não é mais possível que um Estado pense uma política de desenvolvimento local desvinculada da vertente nacional. A guerra fiscal, exemplificou, muito praticada no país nas últimas décadas, é uma equação de soma zero. “Isso não é projeto de país”.
“O Rio Grande do Sul precisa rever a sua estratégia”
O debate sobre desenvolvimento regional deve-se livrar das amarras do passado, defende ainda Pochmann. “Não se trata mais do antigo regionalismo dos anos 30, quando se dizia que São Paulo, chamada de locomotiva do país, puxaria os vagões dos demais Estados. A estes restaria tentar copiar o modelo da locomotiva”. Foi isso, acrescenta, que nos levou, por exemplo, a introduzir uma indústria no meio da floresta, nos anos 60-70, a Zona Franca de Manaus. “Esse modelo de desenvolvimento fordista de São Paulo está ultrapassado. É verdade que vários estados brasileiros (o que não é o caso do Rio Grande do Sul) estão numa condição pré-fordista, mas eles não precisam passar pelo fordismo para atingir um novo patamar de desenvolvimento”. Mas como fazer isso então.
Para o presidente do IPEA, ganha força a possibilidade de sustentar o desenvolvimento a partir da base da pirâmide social que, no governo Lula ganhou uma forte rede de proteção social. “O Rio Grande do Sul precisa rever sua estratégia. Trata-se de um Estado que ainda mantém uma desigualdade singular. A Metade Sul vive como se estivesse no século XIX. A Região Norte, fortemente marcada pela agropecuária, tem o perfil do século XX. E a Região Nordeste apresenta setores mais dinâmicos, alguns deles apontando para o que estamos vendo nascer no século XXI”. Enfrentar essa situação de desigualdade é crucial, destaca Pochmann. Além disso, ele chama a atenção para a importância dessa política regional estar em sintonia com os movimentos nacionais:
“Não cabe mais cada Estado pensar políticas separadas, como se não fizessem parte de um projeto nacional. É preciso se inserir nesta vertente nacional. Políticas como a da guerra fiscal, uma equação de soma zero, não nos leva a lugar algum. Não podemos seguir reproduzindo o passado e sendo governado pelos mortos.”
Pochmann avançou na apresentação de algumas propostas que, na sua opinião, apontam para o futuro e para um projeto articulado de desenvolvimento nacional.
“Precisamos reinventar o mercado, que está cada vez mais longe da livre iniciativa, dominado por grandes corporações. Estamos caminhando para um mundo com a economia dominada por aproximadamente 500 corporações. A China já definiu que quer ter 150 destas grandes corporações. Nós precisamos avançar no fortalecimento dos micro e pequenos negócios. Para isso, entre outras coisas, precisamos ampliar o número de bancos destinados a estes setores, como faz o Japão, por exemplo. Nós estamos caminhando na direção contrária. Nos últimos dez anos, o número de bancos no Brasil caiu de 230 para 160”.
Outras medidas para o fortalecimento de micro e pequenas empresas seriam o aporte de tecnologia para esse setor e a adoção de políticas para que possa participar das compras públicas. Mas esse novo projeto de desenvolvimento, salienta o economista, não passa apenas por medidas econômicas. Pochmann fala da necessidade de refundar o Estado brasileiro. “Construímos um Estado de caixinhas e especializações, que têm uma enorme dificuldade de articulação”. Ainda no plano institucional, ele defende a construção de uma nova maioria política que possa dar conta deste processo de mudanças.
“Nos últimos anos, vemos o surgimento de novos atores sociais. Milhões de pessoas ascenderam socialmente. Mas onde elas estão organizadas? Não é nem nos sindicatos nem nos partidos políticos. Uma parte expressiva está se organizando em igrejas. Diante deste quadro precisamos avaliar se as instituições que temos hoje estão aptas a conversar com essas pessoas e se apresentam alguma promessa de futuro para elas”.
Tudo isso está no nosso horizonte de decisão, defende Pochmann. “A única coisa que nos impede é o medo, medo de ousar, medo de parar de ser governado pelos mortos”.
Imagem: Dialógico
8 de maio de 2009
Verdades e mentiras sobre o fim dos jornais
"Uma mídia não substitui a outra, assim como a TV não substituiu o rádio etc." — É muito bonito esse discurso, mas ele é falacioso. Ninguém, em sã consciência, nega que o jornal perdeu espaço para o rádio (na primeira metade do século XX); que, por sua vez, perdeu espaço para a TV (na segunda metade do século XX); que, por sua vez, está perdendo espaço para a internet (no começo do século XXI). Estamos falando do tempo das pessoas — e, como qualquer grandeza física, ele não é infinito. Historicamente, e culturalmente, se você quiser pensar: qual rádio tem hoje a penetração que a Rádio Nacional teve nos anos 30? E qual televisão tem hoje a penetração que a TV Record teve nos anos 60? Quem é maior, a Globo ou o Google?
"Mas o CD não acabou com o LP; e o download não acabou com o CD" — OK, não acabou. Mas quantos CDs você comprou ultimamente? E quantos LPs? Nenhuma mídia física precisa ser varrida da face da Terra para que seja decretada oficialmente a sua extinção. Estamos falando num sentido mais amplo. O CD, para a circulação de música, tornou-se irrelevante. E, mesmo com o download pago, a indústria fonográfica não se reergueu como antes. É lógico que os jornais não vão sumir da nossa vista para sempre — mas se tornarão, como veículos, cada vez menos relevantes; como o CD, no caso da música, não serão mais centrais para a circulação da informação.
"A crise dos jornais é dos EUA, e não chegará ao Brasil" — Mentira, porque já chegou. E chegou antes da crise atual. Você sabe quanto a Folha — então "o maior jornal do País" — vendia nos anos 90? Nos tempos gloriosos dos brindes dominicais, chegava a vender algo na casa do milhão. E, recentemente, você sabe qual a circulação do jornal que ultrapassou a Folha e se tornou "o maior do País"? 300 mil exemplares. Menos de um terço do recorde dos anos 90. E você sabe quais são os números do primeiro trimestre de 2009? O Globo (260 mil), O Estado de S. Paulo (217 mil), Diário de S. Paulo (61 mil), Correio Braziliense (52 mil) e Jornal da Tarde (50 mil).
"Mas os jornais não vão simplesmente acabar, eles vão encontrar uma solução" — Meu amigo, nem o New York Times — indiscutivelmente, o mais importante jornal do mundo — encontrou. Por que, então, você acha que a solução vai surgir aqui no Brasil? A verdade é uma só: a publicidade na internet não tem como sustentar as redações dos velhos tempos (dos jornais). Nem o Google tem como sustentar. Nem Warren Buffett — um dos maiores administradores de empresas de todos tempos — tem uma solução para os jornais. Os administradores das empresas jornalísticas tiveram desde os anos 90 para se adaptar, economicamente, à Web — e seu tempo se esgotou.
"Os jornais físicos podem acabar, mas as empresas jornalísticas continuam" — Nem sempre. Vale repetir: mesmo os sites mais lucrativos da internet no mundo não têm como pagar a conta das redações de jornal. Logo, os jornais têm duas opções: ou morrem, como veículos, com suas redações inchadas; ou se resumem à versão on-line, cortando a velha redação e se reestruturando com uma nova redação (enxuta). De qualquer forma, a relevância de um jornal impresso — que era quase um monopólio em muitas cidades do mundo — cai indiscutivelmente quando o veículo se resume à sua versão na internet, junto com zilhões de outros sites, blogs etc.
"O problema é que os blogueiros, no fundo, vivem de parasitar os jornais" — Se você lê a blogosfera mais desenvolvida da internet, aquela escrita em inglês, você sabe que não é verdade. Você já leu o TechCrunch? Você sabia que ele é "fonte" para todos os cadernos de informática e internet que você lê aqui no Brasil? Você sabia que o TechCrunch já fez subir e descer as ações do Yahoo, quando este ameaçava ser comprado por uma das maiores empresas do mundo, a Microsoft? Você sabia que o TechCrunch está lançando um concorrente para o Kindle da Amazon? E você sabia que o TechCrunch começou como um blog?
"Mas é só em tecnologia que os blogueiros dominam" — Vou dar só mais um exemplo do TechCrunch: foi ele, e não a imprensa cultural norte-americana, que revelou o plano das grandes gravadoras para a música: manter o CD vivo só até 2011. Você leu isso em algum outro lugar? Aposto que nem mesmo num "caderno de cultura" de jornal brasileiro! Sem falar na blogosfera política. Por que você acha que o Obama era chamado de "o candidato da internet"? Porque ele arrecadou, graças à Web, como nenhum outro candidato antes na história (durante sua campanha). Você acha que existe algum limite para uma mídia que pode eleger o homem mais poderoso do mundo?
"No fundo, no fundo, os blogueiros estão loucos para publicar em jornal" — Pense bem: você acha que o Michael Arrington, do TechCrunch, com milhões de visitantes por mês, e milhões de dólares no banco, prefere — na verdade — ser "editor do tecnologia" do New York Times? Ora, c'mon! Você acha, mesmo, que ele vai querer ser menos influente, e ganhar menos dinheiro, só para publicar no New York Times? Ele, provavelmente, já deve ter publicado em todas as mídias que uma dia desejou e já deve ter recebido todos os convites do mainstream jornalístico — mas ele prefere fazer do TechCrunch uma das principais fontes de informação do mundo (e não só em matéria de tecnologia). Não é tão difícil de entender, vai... Até um jornalista, no lugar dele, preferiria!
"Mas não existe nenhum blogueiro, no Brasil, em situação parecida" — Você já ouviu falar do Interney? Você acha que o Edney Souza, mesmo não sendo nenhum TechCrunch, preferia trocar o blog dele, rendendo dezenas de milhares de reais/mês, por um "cargo" no Estadão, na Folha ou no Globo, que, além de nunca pagar o que ele já ganha, não lhe conferiria a mesma exposição em todos estes anos? E o Inagaki — você acha que, na realidade, ele preferiria ser editor do "Caderno2" ou da "Ilustrada"? Veja bem: nem o Noblat, que trocou um lugar na redação pela blogosfera, quer voltar para trabalhar em jornais. Nem o Pedro Doria, que defendia com unhas e dentes as redações de papel, agora deixa de empreender na internet.
"Quando os jornais acabarem, você vai se arrepender: as noticias vão acabar" — Quanta bobagem. Há muito tempo que os jornais vivem das notícias que recebem das ... agências de notícias! Tudo bem que, no Brasil, muitas delas coincidem com as próprias empresas jornalísticas (Agência Estado, por exemplo). Mas as agências de notícias, ao contrário dos jornais, não morrem, sobrevivem. E você sabe por quê? Porque elas vendem notícias para os portais de internet, que não vão acabar como os jornais. Aliás, foi esse fenômeno que permitiu o crescimento das agências de notícias, ao mesmo tempo que os jornais foram diminuindo, diminuindo...
"Quando os jornais acabarem, todo mundo vai sentir falta, inclusive você" — Agora talvez caiba um testemunho pessoal. Eu não leio mais nenhum jornal diário desde 2006. Você sentiu alguma diferença no que eu escrevo aqui, para o Digestivo Cultural? Embora brigue todos os dias com as assessorias de imprensa, elas me fornecem muitas informações (e elas não vão acabar como os jornais). Na minha área, como eu já conheço as pessoas, obtenho muitas informações diretamente também, falando com as próprias "fontes" (autores de livros, discos, filmes etc.). A imprensa foi uma referência para mim, mas, agora, não é mais. A internet é a minha referência.
"Mas quem trabalha com informação (como você) é a exceção e, não, a regra" — Pode ser, mas em quem você acha que as novas gerações vão se espelhar? Será que vão preferir se agarrar a uma mídia que está sucumbindo, ou vão querer participar de algo que está crescendo e que podem construir — mesmo não sendo jornalistas, mesmo não adotando a Web como profissão? Por que as novas gerações vão querer sustentar uma "casta", que lhes diga o que é certo e o que é errado, o que é bom e o que é ruim, quando podem meter a mão na massa, fazer ouvir sua voz, criar os veículos do futuro? Eu não pensaria duas vezes se fosse jovem. E olha que eu nem sou mais...
São Paulo, 7/5/2009



