5 de março de 2007

Irracionalidade e truculência

Uma abordagem sobre o texto "Razão e Sensibilidade" do Professor Renato Janine Ribeiro

Vivemos mais um desses solavancos morais que, de tempos em tempos, sacodem a sociedade brasileira da sua letargia. A bola da vez é o assassinato do menino João Hélio. Digo a bola da vez, porque é mais um desses episódios de violência que vão se tornando corriqueiros e que, ao invés de provocar uma reflexão profunda sobre as causas dessa violência, só fazem aumentar o cordão dos puxa-sacos da pena de morte e da diminuição da maioridade penal.

Tanto esse episódio, quanto as reações a ele, mostram o quanto a sociedade brasileira está numa embretada moral, da qual não se vislumbra uma saída racional e sensata. Dentre todas as manifestações irracionais e emotivas, a que se destaca é o artigo "Razão e Sensibilidade" de Renato Janine Ribeiro, detentor de uma respeitável titulação: professor de Ética e Filosofia Política na USP (ética política e ética da filosofia) e diretor da Capes.
Talvez algumas pessoas até considerem pretensioso da minha parte opinar sobre as declarações do honorável doutor. Sendo ele quem é e tendo dito o que disse e sendo eu quem sou, um artista gráfico sem nível superior e, provavelmente, com 3% das leituras que tem esse professor, mesmo assim, permito-me dar um pitaco nessa história.
Visivelmente, este intelectual abdica da sua condição, quando diz que:

Não paro de pensar que deveriam ter uma morte hedionda, como a que infligiram ao pobre menino. Imagino suplícios medievais, aqueles cuja arte consistia em prolongar ao máximo o sofrimento, em retardar a morte. Todo o discurso que conheço, e que em larga medida sustento, sobre o Estado não dever se igualar ao criminoso, não dever matar pessoas, não dever impor sentenças cruéis nem tortura - tudo isso entra em xeque, para mim, diante do dado bruto que é o assassinato impiedoso.

Tal declaração o coloca no mesmo patamar dos demais mortais e permite que qualquer um, inclusive eu, opine sobre este pensamento tão "edificante". Causa estranheza a reação desse professor, quando cobrado por Élio Gaspari por suas declarações. Ele faz um malabarismo semântico e tenta sair pela tangente, declarando que:

Comentando meu artigo sobre o assassínio de João Hélio, Elio Gaspari erra ao tentar ligar minha posição pessoal ao cargo que ocupo na Capes. (...) Gaspari erra mais ainda ao identificar a expressão de meus sentimentos (...) com o que imagina que seriam minhas idéias e propostas sobre o assunto (...). Não sei de onde ele retirou que eu estaria propondo a pena de tortura.

Não tive acesso ao artigo na Folha de São Paulo, mas, provavelmente, Janine o assinou com todo o seu currículo e não como um cidadão comum, até porque a Folha lhe deu espaço em função da sua representatividade. Assim, fica difícil separar o professor do homem comum como ele quer fazer nas evasivas que dá, quando confrontado.
Janine deu outras declarações de igual contundência e que foram muito bem rebatidas por outras pessoas e sobre as quais acho desnecessário comentar. Porém duas afirmações suas me chamaram particularmente a atenção:

1. Há, hoje, quem debata se Luís 16 deveria ou não ter sido guilhotinado: dizem alguns que o melhor seria reduzir o último rei absoluto da França a um cidadão privado, um pouco como a China (curiosamente, campeã em execuções) fez com Pu Yi, seu derradeiro imperador. Mas Luís era culpado apenas de ser rei. Pessoalmente, era um homem bom.

Este parágrafo é a chave que abre a arca onde estão depositadas todas as referências morais que sustentam as sua declarações. Na verdade, o que ele disse, não foi um ato emocional, ou falho, ainda que pareça. Ela traduz a essência do seu pensamento classista e do qual ele não consegue se distanciar mesmo com sua bagagem intelectual. Movido por esse mesquinho sentimento de classe, que ele chama de "indignação", ou "comoção", Janine cai na vala comum das "soluções óbvias".
Janine coloca em discussão, no parágrafo assinalado, a aplicação da pena capital aos que detêm poder. Salta aos olhos, o quanto o professor propõe dois pesos e duas medidas, quando se trata de punir a violência. Por que traz os exemplo de Luis XVI e Pu Yi para o debate? Pu Yi amargou o ostracismo e Luís XVI teria sido injustiçado ao ser executado, pois, no fundo, "era um homem bom". A História, por outro lado, demonstra o quanto eles tiveram responsabilidade direta em inúmeros crimes hediondos. No entanto, o professor parece ter uma ética muito particular, uma ética desconectada da experiência histórica. A apresentação de Luís XVI como um "homem bom", que morreu "apenas por ser rei", é um feito notável! O conceito de Absolutismo, a serem levadas em conta as declarações de Janine, precisa ser urgentemente revisado, pois que, segundo a tal "ética" do professor, causa e efeito, neste caso, não se relacionam. A violência produzida nesse período e a responsabilidade do déspota, são escamoteadas e atenuadas. Como de resto, toda a violência produzida pela classe dominante. Mas, mesmo com tudo isso, para a elite, uma Justiça equilibrada e normativa. Já no caso da "negrada", ele estabelece uma relação direta entre o ato e a punição e imagina a aplicação de toda a sorte de suplícios. Nos seus devaneios sádicos, aos "facínoras" pobres, negros e favelados, a morte por si só não basta. A Justiça dos sonhos do emérito professor, aplicável à "ralé", não é normativa. É vingativa.
Quanto a isso Janine não deixa dúvidas: Torço para que, na cadeia, os assassinos recebam sua paga; torço para que a recebam de modo demorado e sofrido. Aqui, ele se nivela ao mais rasteiro senso comum, aquele das pessoas que, desacreditando que o estado seja instância capaz de aplicar a justiça, anseiam que outros criminosos façam através de outro crime, a "justiça" que o poder constituído não consegue fazer. Janine teria sido mais "original" se dissesse algo assim: "Ele violentou a menininha...deixa estar...agora vão comer o c* dele na cadeia".
Me cansa ouvir de pessoas como Renato Janine Ribeiro, esses arroubos de indignação. Invariavelmente, eles são dirigidos à "senzala". Nunca se ouve essa gente mostrar a sua indignação, de forma tão raivosa, contra Malufes, ACMs e quetais. Ao mesmo tempo em que o professor é capaz, em seus exercícios de imaginação, de descer aos calabouços da Idade Média, ele é incapaz de visitar a História recente do nosso país. Por que ele não especula, por exemplo, sobre os efeitos devastadores da ausência de políticas públicas que marcaram a atuação dos governos nacionais e, particularmente, paulistas? Não teriam sido estes jovens vítimas de anos e anos de corrupção, de desvios bilionários de verbas públicas dos setores essenciais como educação e saúde? Não teriam sido vítimas de um processo econômico impiedoso e excludente, que sempre vigiu no Brasil e recrudesceu a partir do golpe de 1964?
Digam o que quiserem, mas é evidente a qualquer observador da vida nacional, que a maior parte da nossa violência tem origem na questão social. O fato de sermos um país que ainda ostenta o título de campeão da desigualdade social e da má distribuição de renda não entra no cômputo da indignada classe média brasileira. Que parte da nossa classe-média sempre esteja disposta a fazer uma nova "marcha com deus pela liberdade", é compreensível, pois, afinal, faz parte da sua natureza de classe. Agora, é muito difícil de engolir essa atitude da parte do professor-doutor de Ética da USP. Mesmo sendo um típico representante da classe média "indignada", para ele não há desculpa. O seu conhecimento deveria imunizá-lo contra tais paixões. Quando falo em "parte da classe média" espero que percebam a minha generosidade, já que, do que estamos tratando mesmo, são de pessoas que defendem idéias típicas da direita - quiçá extrema-direita - mas que nunca se assumem como tal. No Brasil, ou são comunistas, ou são democratas. Não existe a direita, não existe o fascismo. O que me fez destacar o segundo ponto do seu artigo:

2. O intelectual é público. Só que, para ele cumprir seu papel público, é preciso acreditar no que diz. Ora, quantas vezes o intelectual afirma aquilo em que não acredita? Quantos não foram os marxistas que se calaram sobre os campos de concentração, que eles sabiam existir? Por isso, o mínimo que devo fazer, se sou instado a opinar, é dizer o que realmente penso (ou, então, calar-me).

Essa avalanche de artifícios toscos que o professor usou para expressar a sua "indignação", não poderia passar sem desabar por cima da esquerda. Jamais me passaria pela cabeça dizer que o professor-doutor de Ética da USP sofre daquela síndrome tucano-pefelista de que, no fundo, no fundo, tudo é "culpa dos comunistas"! Esta citação aos marxistas é completamente estapafúrdia, descontextualizada e é reveladora de uma fórmula típica da direita brasileira: anda, vira e mexe, ela dará um jeito de criticar a esquerda em qualquer assunto que esteja tratando. Estou esmerilhando os miolos para entender a relação entre a atitude dos marxistas com relação aos campos de concentração e a realidade que hoje vivemos no Brasil. No final das contas, só consigo estabelecer esse vínculo: tal como os marxistas que se calaram com relação aos campos, o professor também se cala sobre aspectos nada recomendáveis da sociedade brasileira, sobre os quais a classe a que ele pertence tem grande responsabilidade.
Em outras palavras, fica muito claro a visão conservadora de Janine e o quanto tudo o que ele escreveu não é emocional, como quer que acreditemos, e sim o que ele realmente pensa sobre a questão da violência em nosso país. Se ele não manifestou esses pensamentos antes, foi porque as condições ainda não estavam dadas. A medida que a situação recrudesce, as posições vão se definindo e Janine, ao que tudo indica, já escolheu o seu lado.

Eugênio Neves

Para saber mais - Imperdível!
Razão Distorcida de Andrea Lombardi (rolar a barra)
Entrevista de Andrea Lombardi para o IHU
Luís Nassif

3 comentários:

Lau Mendes disse...

Eugenio ,ainda bem que o “filosofo”é professor de 3º grau. Imagina se com a obrigatoriedade do ensino da filosofia (ano passado) fosse de alunos de 1º grau .

Lau Mendes disse...

Desculpe e retificando o "ainda bem",digo: melhor seria que saísse , viajasse ou "férias" bem prolongadas para algum país onde sua percepção talvez lhe desse oportunidade de um trabalho de campo .Com certeza encontraria algum que o receba de braços abertos , mas acho que não será para “filosofar”.

Jens disse...

Só uma palavra, Eugênio. Excelente.