25 de outubro de 2008

Entrevista de Pedro Pomar a Rodrigo Vianna


"NÃO DÁ PRA ENFRENTAR MÍDIA HEGEMÔNICA COM VEÍCULOS DE PEQUENA CIRCULAÇÃO"
quarta-feira, 22 de outubro de 2008 às 19:56

O jornalista Pedro Pomar acaba de publicar na revista "Lutas Sociais", da PUC de São Paulo, um artigo valioso, sobre as razões pelas quais os partidos de esquerda e os sindicatos brasileiros não conseguem criar meios de comunicação fortes, para se contrapor à mídia tradicional no Brasil.

Segundo o autor, a criação desses meios deve ser preocupação central - para quem acredita na necessidade de trasnformações sociais no Brasil.
"Não dá para enfrentar a mídia hegemônica, cujas receitas anuais já se contam na escala de bilhões de reais, (...) com veículos de pequena circulação e alcance", diz o jornalista.

Doutor em ciências da comunicação pela ECA-USP, Pedro Pomar é também um militante sindical. Um militante com história, e preocupado com a história.
Tanto que é autor do belíssimo "Massacre na Lapa" (livro que já está na terceira edição, pela ed. Fundação Perseu Abramo, 2006), sobre a operação do Exército que liquidou o comitê central do PCdoB, em 1976, no bairro da Lapa, em São Paulo.

Assim como o livro, o artigo de Pomar - "Os aparatos de comunicação de massa e a luta pela hegemonia no Brasil" -merece leitura atenta. Pena que o texto publicado na revista da PUC ainda não tenha link na internet. Prometo publicá-lo, em breve, aqui no ESCREVINHADOR.

A seguir, a breve entrevista concedida por Pedro Pomar ao ESCREVINHADOR.

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- COMO AVALIA A COBERTURA, NA GRANDE IMPRENSA, DA "CRISE NAS POLíCIAS DE SÃO PAULO?

A cobertura é bastante enviesada e limitada, como de hábito quando se trata de reivindicações salariais ou trabalhistas, com o agravante de que estamos falando de um setor, segurança pública, com grande impacto na vida da população. No que diz respeito especificamente ao episódio de 16/10, os jornais trabalharam com a tática de "reduzir danos" à imagem do governador Serra. Não havendo como esconder o caráter catastrófico do confronto entre as polícias, os jornais deram a prioridade costumeira à principal autoridade envolvida (o governador), mas publicaram também as versões dos demais personagens envolvidos, às vezes com algum destaque.

O "Estadão", por exemplo, após a manchete "Polícia Civil enfrenta PM e Serra culpa PT e Força", publicou a linha fina "Sindicatos responsabilizam governador pelo confronto que deixou 24 feridos". O que não é pouca coisa em se tratando do Estadão, convenhamos. Também a "Folha" deu algum espaço à contestação, como as reveladoras entrevistas do delegado Sérgio Roque e do ex-secretário José Afonso da Silva (p. C5).

O principal problema dessa cobertura é que ela pode passar a impressão, para muitos, de que tudo se reduziu a um choque entre as polícias, escamoteando as questões de fundo: o sucateamento da polícia civil, a intransigência de Serra no tocante à negociação com os servidores públicos. Porque esta não foi a primeira passeata barrada nas imediações do Palácio. Lembro que em 2007 uma passeata com cerca de 5 mil estudantes, funcionários e professores da USP foi bloqueada pela tropa de choque da PM no início da Avenida Morumbi, no Butantã. Portanto, os jornais deveriam dedicar mais espaço à seguinte indagação: que concepção de democracia tem o governador Serra?

- FICO A IMAGINAR COMO SERIA A COBERTURA SE O GOVERNADOR FOSSE BRIZOLA OU ALGUÉM DO PT. ACHA QUE HÁ UM TRATAMENTO DIFERENCIADO PELO FATO DE O GOVERNADOR SER DO PSDB?

Há um tratamento bastante diferenciado. Não apenas pelo fato de ser do PSDB, mas por ser José Serra. Para usar uma expressão da moda, diria que Serra está "blindado" pelos grandes jornais. Em menor medida, pode-se dizer a mesma coisa de outros governadores tucanos, como Aécio Neves e Yeda Crusius. A governadora do Rio Grande do Sul está envolvida em gravíssimas denúncias de corrupção e tem tratado os movimentos sociais à bala, bomba e porrete, mas publica-se muito pouco sobre isso nos maiores jornais e nos noticiários de TV e rádio.

Se um incidente semelhante ao de ontem envolvesse um prefeito ou governador de esquerda, talvez no dia seguinte nossos bravos jornais já estivessem clamando pelo seu impeachment.

- HÁ OUTROS CASOS RECENTES DESSE TRATAMENTO DIFERENCIADO? VOCE LEMBRA NO SEU ARTIGO O EPISÓDIO DA ELEIÇÃO DE 2006...

O caso Alston tem recebido espaço muito menor do que o merecido. E, no entanto, é tão ou mais grave do que outros casos que ocorrem na esfera federal e que ganham grande repercussão.

- VOCÊ ACABA DE ESCREVER UM ARTIGO SOBRE A DIFICULDADE DE SE CRIAR JORNAIS QUE SIRVAM DE CONTRA-PONTO À MÍDIA HEGEMÔNICA NO BRASIL. E FALA DE VARIAS EXPERIENCIAS NO CAMPO PARTIDARIO E/OU SINDICAL. POR QUE O VELHO "PARTIDÃO", SEMI-CLANDESTINO, TINHA JORNAL E O PT OU A CUT NÃO CONSEGUEM FAZER O MESMO?

Existem dificuldades reais, de ordem financeira, para se criar e manter jornais de qualidade capazes de se contrapor à mídia hegemônica. Mas essas dificuldades podem ser enfrentadas e superadas. O que ocorreu até hoje é que houve uma subestimação tanto da possibilidade quanto da necessidade de se criar essa nova mídia, contra-hegemônica. E o que determinou essa subestimação, ou negligência, foi a estratégia politica adotada desde o início dos anos 1990 pelo setor majoritário do PT e da CUT, que apostou na conciliação com setores da elite que controla este país. É a chamada "política de centro-esquerda". Apostou-se na convivência fraterna com esta elite e, portanto, com a mídia hegemônica. Contentando-se, assim, com espaços pontualmente concedidos à esquerda e com tréguas temporárias, ao invés de se optar por construir uma alternativa real de comunicação.

Neste sentido, os episódios de 2005 e 2006 foram um susto. Lula e a esquerda perceberam que houve uma tentativa de "golpe midiático", ou seja, a mídia hegemônica tentou comandar primeiro um processo de impeachment (em 2005) e depois uma virada na sucessão presidencial (em 2006). Isto acabou dando impulso à criação da TV Brasil e alertou os movimentos populares e sociais para o fato de que é preciso construir fortes alternativas de mídia.

- VOCÊ ACHA QUE A SAÍDA É JORNAL/PUBLICAÇÃO LIGADO A PARTIDO OU CENTRAL SINDICAL? NÃO SERIA MAIS INTERESSANTE UM JORNAL OU UMA PUBLICAÇÃO NA INTERNET, DE VIÉS PROGRESSISTA, INDEPENDENTE DE PARTIDOS?
HÁ VÁRIAS TENTATIVAS NESSE SENTIDO: A "CARTAMAIOR" PARECE-ME O MELHOR EXEMPLO...

Parece-me que são coisas distintas. Devemos incentivar a pluralidade de mídias e visões, tanto na Internet como fora dela, em jornais e revistas. Mas não dá para enfrentar a mídia hegemônica, cujas receitas anuais já se contam na escala de bilhões de reais, e que chega a milhões de pessoas, com veículos de pequena circulação e alcance. Mesmo na Internet, quem concentra a maior parte dos acessos são os portais pertencentes a grandes grupos, como UOL, Yahoo, Globo e outros.
Minha opinião, portanto, é de que 1) devemos tentar construir uma forte mídia contra-hegemônica, que 2) expresse uma aliança dos mais importantes setores do movimento popular e dos partidos de esquerda, e que 3) tenha como principais instrumentos, inicialmente, um jornal diário nacional e uma emissora (ou rede de emissoras) de rádio. Ou seja, meios de comunicação que possam falar para milhões de trabalhadores e não só para militantes ou para formadores de opinião.

Fonte: Blog Escrevinhador

Um comentário:

heliopaz disse...

Infelizmente, não há como, na base do canetaço, forçar patrocinadores ou Governo a bancarem uma mídia "de esquerda" nos mesmos moldes da mídia "de direita": quem vai escolher que teor noticioso deve ser comprado, quando, como e por que é o consumidor.

A lei da oferta e da procura baseia-se em torno do reconhecimento de fatores como: carisma, qualidade técnica, imagem de marca e, acima de tudo, afinidade da linha editorial com o pensamento do seu consumidor. Portanto, se a maioria das pessoas for conservadora e tender a considerar tudo como meras relações entre causa e efeito ao invés de interessarem-se por adentrar nos pormenores dos fatos, vai ser dinheiro torrado fora.

Sou contra uma mídia partidarizada para o lado de quem quer que seja: assim como muitos confundem fé com religião, política não é sinônimo de partido e de eleição. Mesmo tendo um lado, a mídia "de direita" vingou não porque as pessoas são tapadas ou porque não possui filtros nem barreiras pra dizer o que quer mas, sim, porque ela mascara o lado que defende.

A esquerda deveria fazer o mesmo: defender a solidariedade, a ecologia, a parte não-burguesa da Constituição, a inclusão social através da educação e da saúde e denunciar todo e qualquer caso de corrupção, inclusive dentro dos partidos de esquerda.

Enquanto continuar lendo Marx de maneira errada e pensar tão-somente em "luta" e em classes dicotômicas, a esquerda partidarizada e sindicalizada seguirá rumo ao ocaso.

Dois atos de ignorância política são tanto ser amiguinho da mídia corporativa (como o lulo-petismo de resultados faz) ou inimigo ferrenho e contumaz dela.

O primeiro caso é auto-explicativo. Já o segundo demanda a compreensão do conceito de EMERGÊNCIA segundo STEVEN JOHNSON (2003): mesmo que a mídia seja inimiga, comprada e, conseqüentemente, mentirosa, não há como ela esconder ou inverter determinados casos que emergem a partir de um conjunto de pequenos atores externos à sua forma de produzir informação.

A única exceção mundial é o Brasil.

Mas a única maneira de democratizar os meios de comunicação e de pulverizar a propriedade entre donos não-políticos e não-corporativos é uma ampla reforma na lei de outorgas e uma emenda constitucional considerando a comunicação como setor estratégico de desenvolvimento social e cultural, a fim de regular o setor.

Fechar veículos tradicionais ou proibir uma série de programas considerados como "baixaria" em uma sociedade como a nossa seria dar um tiro no pé e aumentar ainda mais o interesse e o peso da Globo, da Record, do SBT, da Band, da Rede TV, da RBS e assim por diante.

Se não "fechar" o país pra investir pelo menos 30% do orçamento em educação, as pessoas jamais serão capaz de concordar com leis restritivas a seus adorados Faustões, Malhações e Brasis Urgentes da vida e de verdadeiramente considerarem isso como "baixaria" e, aos poucos, irem fazendo com que esse tipo de programação morra de inanição.

Na Venezuela, um país pequeno que só tem petróleo, o Chávez pode mandar todo mundo a PQP. Aqui, vem os EUA e não sobra pedra sobre pedra: nunca iremos saber se, nas reuniões entre Bush e Lula, o primeiro chegou a dizer para o segundo algo como "Meu chapa, segura a tua onda. Senão, teu paiseco vai implodir."

[]'s,
Hélio