19 de fevereiro de 2009

Sobre o Itamaraty e o caso suíço

A dica de leitura do texto do Sérgio Leo veio do Biscoito Fino e a Massa. É importante saber o que realmente aconteceu na entrevista coletiva de Celso Amorim, dias atrás, sobre o caso suíço. Escreve Leo:

O caso da brasileira na suíça - sobrou pro Amorim

Já falei disso aqui, mas estou impressionado como o que pensei como uma piada virou verdade em poucos dias. Nesse caso da Suíça que não se sabe se foi ou não atacada por skinheads, quem já anda levando estiletada é o pobre do Celso Amorim. Fica difícil não defender o Itamaraty nessa, os caras apanham se não fizerem e apanham se fizerem. Não há um termo como xenofobia para descrever o ódio cego à política externa brasileira; mas que é um caso de preconceito se firmando por aí, não tem dúvida.

Recapitulemos, ou melhor, recapitulo aqui o episódio que assisti, após a visita do ministro de Relações do Uruguai. Amorim foi deixar o visitante na saída do Palácio do Itamaraty, sob pedidos do reportariado, para que voltasse à sala de briefings para continuar a entrevista que havia dado com o uruguaio. Amorim voltou, dirigiu-se à escada que dá acesso ao gabinete, e foi abordado por repórteres de tv e rádio. "Ministro, o senhor tem de falar, o senhor tem de dar entrevista".

Com uma careta de desagrado, Amorim foi à sala de briefings. Nem chegou no microfone do pódio de entrevistas. Com ar de enfado, foi cercado por jornalistas de rádio e tv, e esperou que terminase um entrevero entre cinegrafistas e radialistas. Está lá, gravado: ele começou um discurso genérico, para dizer que o governo brasileiro estava tomando providências.

Em ocasiões anteriores, de incidentes com brasileiros no exterior, o Itamaraty foi acusado de não dar a atenção devida; o Amorim já tem pele grossa, de ser alfinetado por isso. Aliás, no dia seguinte, o indefectível Reinaldo Azevedo já brandia o tacape contra o governo brasileiro:

"não basta uma simples reação de repúdio. O governo brasileiro, de fato, precisará fazer mais, deixando claro que o empenho dos suíços em encontrar os culpados passa a ser fundamental na relação entre os dois países."

Amorim chegou a irritar-se com a insistência dos repórteres. Tentou pelo menos duas vezes acabar com a entrevista, dizendo que não havia nada a dizer enquanto não terminassem as investigações.

À primeira "É xenofobia?" ele respondeu que a polícia estava investigando, que o governo pediu explicações, queria saber dos culpados. Perguntaram umas três vezes a ele se era ou não xenofobia. E indagaram se o governo iria acionar a Comissão de Direitos Humanos - ao que ele respondeu que era prematuro, que esperava seriedade da investigação policial.

"Não podemos fazer nenhum pré-julgamento, mas há uma aparência evidente de xenofobia, o que é uma coisa preocupante", disse ele, após a insistência dos repórteres. E quando insistiam em saber sobre a ONU: "Não adianta aventar hipótese agora, porque não sei qual a direção que as investigações vão tomar. É preciso que as autoridades suíças façam a investigação. Temos confiança de que farão, temos confiança de que manterão a transparência e temos confiança de que haverá punição adequada, porque creio que a Suíça não tem interesse em manter uma imagem negativa".

Já espectador de episódios semelhantes, saí do Itamaraty, imaginando que o Amorim ia levar pedra por não ter sido enfático o suficiente na condenação dos agressores da moça.

No dia seguinte, os jornais traziam o Amorim em manchetes de página falando de "xenofobia". E, quando a história começou a se revelar mais complicada do que à primeira vista, em todo canto começou a pipocar crítica contra a "precipitação" do Itamaraty. Até atribuiram a ele a referência à Comissão de Direitos Humanos, que saiu dos repórteres e ele se recusou obstinadamente em confirmar.

Estou defendendo o Amorim? Não. Estou condenando um factóide que me atrapalha a discussão quando esse pessoal do governo vem com a tese estúpida de conspiração da mídia*. Episódios como esse dão argumentos, para que autoridades digam que são cobrados por coisas que não disseram e atos que não praticaram. Antes que mais algum amigo meu saia por aí repetindo uma interpretação equivocada, que pelo menos saibam como foi esse negócio.

Já os comentaristas do blogue do Reinaldo não tiveram nenhuma dificuldade em esquecer o post do mestre cobrando mais do governo, e, espumando pelo canto dos lábios, está lá, rosnando contra a "precipitação" do ministro. Aquele que Reinaldo já criticava por não por em questão a relação bilateral Brasil-Suíça por causa da moça com a perna riscada em estilo neonazista.

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*Deixamos o seguinte comentário no blog do Sérgio Leo:
Importante post, irei reproduzi-lo no blog. Só faço uma ressalva em relação à mídia corporativa: não é isenta, muito menos imparcial - porque isso não existe! O problema da mídia corporativa, no Brasil, é que ela se autoproclama isenta e imparcial. E estamos carecas de saber que a escolha da pauta, a escolha das palavras e a escolha da imagem está amparada na ideologia do dono do impresso ou do concessionário de radiodifusão. A imparcialidade é um atributo a ser perseguido pelo jornalismo sério, cidadão. É a responsável pela objetividade do texto, pelo relato fiel do fato, não da versão do fato, tal qual fizeste neste próprio texto e apontaste no texto que saiu na TV! E negar a conspiração da mídia corporativa, que tem lado [neoliberal], é escamotear a luta de classes que, em suma, traduz-se pela i) demonização de governos com recortes populares e progressistas e ii) blindagem daqueles governos que representam a ideologia do capital [este que está com ambas as pernas quebradas e insiste em se manter hegemônico (deveria ter escrito "em se manter em pé"). Abraço!

Um comentário:

César Bento disse...

Sou fã do Celso Amorim. É objetivo e sereno, mesmo quando faz críticas duras. Nunca esquecerei de um embate entre ele e a Miriam Leitão. Colocou a sabichona no lugar dela, sem nenhuma grosseria