30 de setembro de 2010

A TENTATIVA DE GOLPE NO EQUADOR – OU O GOLPE?

Laerte Braga


Polícias com características de militar têm tendência ao autoritarismo, à prepotência, a se imaginarem acima do bem e do mal e acumulam privilégios em relação a outras categorias. No caso do Brasil são escandalosos em relação, por exemplo, à Polícia Civil. Falo dos privilégios.

É um dos motivos dos altos índices de criminalidade. É só olhar o número de atos ilícitos cometidos por policiais militares. A média de expulsão de PMs no Rio de Janeiro é de um por dia. Via de regra ligados ao tráfico.

Todos os servidores públicos do estado de Minas Gerais, o tal do “choque de gestão” Aécio/Anastasia, recebem seus vencimentos no quinto dia útil do mês seguinte. Todos? Não. Policiais militares recebem no último dia útil do mês. É uma pálida amostra de vantagens em relação a todos os outros servidores públicos.

É um quadro que se repete de forma pouco diferenciada em todos os estados brasileiros.

A proposta de unificação das polícias e de acentuar o caráter civil da instituição foi barrada no Congresso Nacional Constituinte com um lobby dos mais impressionantes e caros dentre todos que atuaram à época.

O ex-governador do Pará, Almir Gabriel, quando senador, tinha entre seus assessores policiais militares que mais tarde participaram do massacre de camponeses em Eldorado do Carajás. Aquele que FHC, era o presidente, negou às 17 horas e aceitou correndo às 19 horas, quando soube da condenação expressa por vários governos e instituições européias.

Uma das decisões mais amargas para policiais militares no Brasil foi durante a ditadura militar. O comando dessas corporações seria de um oficial do Exército. À exceção de Minas, a fidelidade era canina, todas as outras PMs do País eram comandadas por militares do exército.

É que na revolução de 1930 e ao longo de todo o processo político até 1964, as polícias militares eram o “exército” dos coronéis/governadores. Foram decisivas no movimento de 30.

A partir de 1964 foram transformadas em pitt bulls prontas a devorarem qualquer manifestação pública contra os de cima. Seja de camponeses, seja de professores paulistas contra as mentiras de Arruda Serra.

A insubordinação de policiais no Equador, a tentativa de seqüestro do presidente Rafael Corrêa não decorre só dos desvios de função do que conhecemos como polícia. Vai mais além.

Militares equatorianos e policiais daquele país foram cúmplices por omissão no bombardeio realizado pela força aérea colombiana contra um acampamento de estudantes que participavam de um congresso latino-americano e onde se encontrava Raúl Reyes, então chanceler das FARCs. Foi em 2008.

São outros quinhentos.

Militares em sua imensa e esmagadora maioria têm ou trazem em si o gene do golpe de estado. A convicção que patriotismo é tomar o poder, arrebentar com os que se lhes opõem, mesmo que isso signifique tortura, morte, toda a sorte de barbaridades. No Brasil chamaram isso de “democracia” e houve um coronel que quis convencer o jurista Sobral Pinto que era “democracia a brasileira”.

Não entendeu nada quando Sobral respondeu que “democracia não é igual a peru, não existe a brasileira, a francesa, ou é democracia, ou não é”.

A situação no Equador ainda está sem controle. A despeito das forças armadas através de seu comandante manifestarem publicamente respeito ao presidente eleito do país, nenhuma atitude concreta foi tomada – até agora quando escrevo – para colocar fim à tentativa de seqüestro de Corrêa, à insubordinação de policiais e a repressão contra civis que se juntam em número cada vez maior para tentar resgatar o presidente no hospital onde foi socorrido depois da agressão sofrida e pratica por golpistas.

A condenação à tentativa de golpe veio até do presidente golpista de Honduras (farsante é um negócio complicado). Do governo espanhol. Dos países integrantes da OEA – Organização dos Estados Americanos -. Vacilante, tíbia, mas pública do governo norte-americano (Corrêa não permitiu que mantivessem a base de Manta em seu país).

Elites econômicas no mundo inteiro estão atemorizadas com a crise do capitalismo que se mostra maior e mais devastadora do que se podia imaginar. Na América Latina, onde ainda procedem como na Idade Média, os ventos dos furacões que destroem a economia norte-americana (mas sustentam a máquina de guerra e terrorismo), assustam empresários, latifundiários e banqueiros controlados por Wall Street.

São sinais para a mídia privada mentir descaradamente ao sabor das conveniências de quem paga.

O Banco Central dos EUA, que é uma instituição privada, anunciou hoje que “a recuperação da economia foi decepcionante nesses últimos anos”. Os anos Obama. Uma espécie de relações públicas, ou boneco negro por fora, branco por dentro, mas que não tem nem o apito para começar ou encerrar o jogo, que dirá marcar falta. Pênalti? Nem pensar.

Partícipe ou não da tentativa de golpe no Equador (foi agente direto em Honduras) os EUA se constituem hoje na maior ameaça a democracia em todo o mundo. O que Hans Blinx chama de “embriaguez com o arsenal que têm”, é tão somente a barbárie com requintes de tecnologia de ponta.

E nos dias atuais privatizada. Forças armadas privatizadas.

Esse vento de estupidez e boçalidade acaba soprando por todos os cantos. A guerra é uma necessidade intrínseca a norte-americanos e seus aliados israelenses. É da gênese da “democracia” deles o terrorismo em forma de “operação choque e pavor”. Nome da última ação militar para derrubar Saddam Hussein.

O que torna óbvio que o que acontece no Equador não é um fato isolado. Todo o caráter golpista de militares (policiais militares também) vem à tona nessa banda do mundo, ainda mais quando governos populares são eleitos e começam a trilhar caminhos de mudanças políticas, econômicas e avanços sociais.

O escravagismo dos “donos” reage como reagem os irracionais.

“Dança com famosos” não é necessariamente um quadro do Faustão, tampouco BBB é algo isolado, um simples programa de tevê. É uma opção por alienar, desinformar e vai por aí afora.

Mais ou menos “só dói quando eu mexo”.

O governo brasileiro através do chanceler Celso Amorim manifestou-se contra o golpe, pela legalidade constitucional e o respeito ao mandato, conquistado nas urnas, do presidente Rafael Corrêa.

Amorim é um dos mais brilhantes diplomatas latino-americanos em todos os tempos, sabe o que há por trás de tudo isso e os riscos que esses pequenos, aparentemente pequenos, golpes (Honduras, Equador) representam para a América Latina, o que vem por trás desse tipo de movimento, conhece a História (a FOLHA DE SÃO PAULO, por exemplo, quer apagar ou arrancar essas páginas do livro de História do Brasil) e tem consciência do papel do Brasil, do que representa o nosso País com as suas dimensões continentais e hoje, potência mundial.

É o delírio do império privatizado. E muitas vezes o cordão é rompido pelas elites, ou por esbirros das elites (caso das polícias militares), no afã tanto de manter privilégios, como de mostrar às próprias elites que há um preço a ser pago para cada massacre ou golpe em cada canto latino-americano.

Aliança com bandido dá é nisso. Instituição sem sentido, repleta de privilégios, resulta nisso. O que Corrêa fez foi cortar exatamente privilégios, inclusive o da boçalidade contra a população civil.

É necessário deter o golpe. Atinge a todos nós. 

O jornalista Jean-Guy Allard revela que é “profunda” a presença na polícia do Equador de agentes da CIA. Phillip Agee, ex-agente da agência privatizada no governo Bush, antes de deixar a função e denunciar terrorismo, corrupção e trapaças em vários países do mundo, estava servindo na embaixada dos EUA no Equador.

O artigo pode ser visto em

 
É o jeito de ser dos “libertadores” do mundo. Se antes “libertavam” do “jogo” comunista, hoje “libertam” do “jugo” terrorista. E ficam com o petróleo todo. Tomam conta para iraquianos, sauditas, aqui querem “tomar conta” do da Venezuela, do Equador e do Brasil.  

Obrigatório portar identidade com foto para votar

ATENÇÃO!!!

NÃO DÁ PRA VOTAR SÓ COM O TÍTULO ELEITORAL.

COM OU SEM TÍTULO, PARA VOTAR,

O ELEITOR É OBRIGADO A LEVAR

UM DOCUMENTO COM FOTO.

O DOCUMENTO PODE SER

CARTERIA DE IDENTIDADE (RG) OU

CARTEIRA DE TRABALHO (CTPS) OU

CARTEIRA DE MOTORISTA (HABILITAÇÃO)

Via Mirabeau B. Leal por e-mail

28 de setembro de 2010

Baixaria Midiática

Edgar Vasques no Sul21

Memória militante

Do blog da Maria Frô:

Mídia que vota em Serra tenta de tudo para levar eleição ao segundo turno, você vai deixar?

O PT foi fundado em fevereiro de 1980. Lembro-me como se fosse hoje do debate que tomou a militância petista para escolha de candidatos para as primeiras eleições ao governo do estado de São Paulo em 1982,  após a lei da Anistia e a volta das eleições nos estados (as eleições diretas para presidente só retornariam em 1989, pois perdemos a luta em 1984, no movimento Diretas- Já).

Em 1982 a disputa era entre o metalúrgico Lula e o jurista Hélio Bicudo. Venceu Lula ao menos nas disputas internas para a escolha do candidato a disputar o pleito para governo do estado.

Houve um comício em Cubatão, na praça Princesa Isabel, lugar pequenino onde foi posto um caminhão pequeno e o comício se desenrolou sobre ele com megafones. À época eu ainda não tinha idade para me filiar, talvez tenha sido por isso que acabei não formalizando minha filiação até hoje.  Eu estava lá, em cima do caminhão, meio assustada no meio de lideranças que eu já admirava: além de Lula lembro da presença de Suplicy que antes da marola verde do PV já nos acompanhava em Cubatão em várias ocasiões na luta contra a poluição e as péssimas condições de vida e trabalho na cidade.

Fazíamos reuniões nas igrejas, éramos vigiados e intimidados pela polícia ainda fortemente repressiva, forjada num período de censura, torturas da Ditadura Militar. Debatíamos com a população em geral, os trabalhadores das indústrias cubatenses, as mães desesperadas com a saúde frágil de seus filhos. Denunciávamos a escandalosa poluição daquela cidade que chegou a ser conhecida na imprensa internacional como Vale da Morte.

Em Cubatão, em princípio da década de 1980, trabalhadores do pólo siderúrgico e petroquímico morriam de câncer no pulmão, de pele, envenenados por enxofre e outros produtos químicos, morriam ou ficam inutilizados para o trabalho devido aos acidentes de trabalho. Todas as indústrias tinham uma placa com uma espécie de contador que vivia zerando, informando a quantos dias não havia acidentes de trabalho. Morriam devido a uma saúde debilitada por uma jornada desumana em turnos sem fim.

Lembro-me que ainda estava no colegial e participei como auxiliar de pesquisa de uma grande estudo levado a cabo pela Faculdade de Medicina da USP, pelo grupo da professor Marcília da saúde pública e medicina preventiva.

Durante o projeto, apliquei vários questionários aos trabalhadores do pólo petroquímico e siderúrgico. De um deles jamais vou me esquecer: realizei a primeira bateria de questionários e ele foi selecionado para a segunda fase e quando retornei para fazer as perguntas ele havia falecido. Saí e sentei na calçada na frente de sua casa e comecei a chorar. Para uma adolescente com razoável consciência do que acontecia ao meu redor, que vivia naquele inferno de cidade esquecida por todos, este era um nível de violência que beirava o insuportável.

Também sentei e chorei, anos depois quando já estava na USP e minha mãe ligou para informar que a cidade foi tomada por um incêndio de proporções inimagináveis e que depois de ser aplacado, os cubatenses se deram conta de que um bairro inteiro, o mais pobre e mais abandonado da cidade, tinha sumido do mapa e com ele muitos amigos queridos que eu havia feito quando perambulava pela Vila Socó (como era chamada a favela que oficialmente tinha o nome de Vila São José) passando o filme “O homem que virou suco” e discutindo política pura de resistência.

Para uma adolescente que ainda estava no Ensino Médio, viver em uma cidade que se morria pelas péssimas condições de trabalho e pela intensa poluição para gerar riquezas que não ficavam na cidade (sequer no país) são experiências que modelam nossa vida. Os poluentes jogados no ar e nas águas da cidade eram tão danosos que em Cubatão nasciam crianças anencefálicas, peixes deformados. Para chamar a atenção do mundo para as nossas péssimas condições de vida fizemos uma exposição com fotos dos peixes monstruosos que encontrávamos no Rio Pilões.

Minhas experiências na luta pela qualidade de vida, contra a poluição e a morte das pessoas provocadas pela poluição e pelas péssimas condições de trabalho e ambientais forjou a pessoa que sou hoje.

O PT da década de 1980 nasceu e se fortaleceu na cidade de Cubatão sem dissociar a qualidade de vida das pessoas das questões ambientais e da super-exploração a que estavam expostos os trabalhadores. Talvez seja por isso que até hoje eu não entenda um Partido Verde que fala de manutenção das florestas, mas que não faz a crítica a um Tietê poluído ou ao córrego do meu bairro onde nas proximidades eu topo com ratos mortos como mostrei aqui.

Naquele comício junto ao Lula e ao Suplicy, na praça Princesa Isabel, eu fiz mais do que falar pelas mulheres e o nosso papel no sistema capitalista, eu eduquei os meus pais operários para a luta contra a exploração.
Vivíamos no contexto das greves no ABC que ajudaram a derrubar a ditadura militar. Na minha fala assustada ao lado de Lula, eu buscava estimular as mulheres a serem companheiras de seus companheiros na luta contra a exploração.  Eu falava com propriedade sobre a minha própria condição feminina de adolescente trabalhadora, pois desde os 14 anos eu já trabalhava oito horas por dia.

Sabia muito bem do que falava. Passei a estudar à noite quando entrei no primeiro ano do Ensino Médio. Enfrentei os primeiros surtos de uma educação deteriorada com professores amedrontados, muitas greves e faltas. Se não fosse uma ótima aluna jamais teria saído do Afonso Schmidt e teria entrado na USP. Muitas vezes saí da escola porque não havia aparecido nenhum professor e ia para a Vila Socó fazer política. Meus pais ficavam aterrorizados de eu chegar de madrugada em casa, mesmo que eu viesse acompanhada pelo seu Manuel, estivador, quase um segundo pai, que pegava a sua bicicleta e me acompanhava até em casa.

Minha mãe ficava possessa e um dia quis me bater. Meu tio Gerson, metalúrgico da Mercedes, amigo do Lula, estava em casa e me salvou da surra. Ele disse a minha mãe e ao meu pai que eles deveriam se orgulhar de mim. Eu, só disse que se meus pais quisessem saber o que eu fazia quando não estava na escola que fossem às 15 horas na Praça Princesa Isabel.

Estava lá no Comício, num sábado calorento do clima abafado de Cubatão, argumentado sobre a função da mulher operária no sistema capitalista. A metáfora que usei foi a do elástico: a mulher operária tinha de esticar o salário e segurar o marido para não ir às greves. De repente, no meio da pequena multidão, vejo o meu pai, me ouvindo atentamente.

Meu pai votava em Jânio Quadros, na direita mais conservadora do país. Ele foi um motorista e a vida toda abaixou a cabeça para os seus patrões. A partir dali, diversificamos o tema de nossas conversas para além do Timão. Meu pai passou a ler, a ficar mais atento à política partidária.

No comício eu ganhei um abraço do Lula, era a mascote daquela turma de craques. Ele me deu um pequeno livro e fez uma dedicatória que me lembro até hoje: “Se todos os jovens fossem como você as mudanças viriam mais cedo, com um abraço, Lula“. Procurei o livro para scanear e não o encontrei, mas ele continua a ser tão valioso quanto era quando o ganhei há quase 30 anos.
Olho o meu Brasil e a Cubatão de hoje, também governada por uma administração petista e feminina e tenho um orgulho tamanho do que de algum modo, exercendo a minha cidadania diária, eu ajudei a construir.
O Brasil de hoje apesar dos problemas que ainda tem deu um salto qualitativo sem precedentes e não é apenas em sua economia que faz com que o presidente Lula seja aclamado internacionalmente e que equipe da Al Jazeera inglesa se desloque até o interior de Pernambuco para conhecer um progama modelo para o mundo de combate a fome. O salto qualitativo passa pela consciência de muitos brasileiros que aprenderam que a política é um bem de todos e que uma boa política pode salvar vidas e uma má política pode nos levar a morte.

O Brasil de hoje dá muito mais chances ao jovens de periferia como as que eu não tive.

Diego Casaes é só um exemplo do Brasil de hoje: um jovem negro que saiu da periferia de Salvador, falando inglês com fluência foi para Copenhague cobrir a COP15. Diego além de trabalhar com cultura digital é colaborador do Global Voices e toca um projeto com as dimensões do Eleitor 2010. Ele é só um dos meninos que conheço que não teve seu talento e todas as suas potencialidades assassinadas pela falta de oportunidade de um Brasil que, anterior ao governo Lula, era só exclusão. Diego Casaes foi aluno do Prouni, o mesmo programa que o DEM, partido da coligação do PSDB, quer acabar e para isso entrou com ação de inconstitucionalidade no STF.


O Brasil de hoje é um Brasil que nos faz ter orgulho de ser brasileiros, apesar de toda a tentativa perversa de uma mídia monopolizada e partidária desmoralizar o presidente mais popular da história do país.

O Brasil de hoje fez a maior capitalização da história mundial de uma empresa, a Petrobras, que cada dia é mais brasileira e que garantiu as riquezas do pré-sal para o povo brasileiro.

O Brasil de hoje tem a chance de eleger em primeiro turno uma mulher com uma história de vida e uma história pública de decência, voltada para a luta contra a ditadura militar e que foi presa e torturada por isso.

Por isso e por todas as realizações do governo Lula – as quais Dilma representa a manutenção e a ampliação dos avanços deste governo transformador – que a cada e-mail perverso que recebo contra Dilma, a cada manchete vergonhosa que leio na mídia que vota em Serra, a cada site fascista, proselitista, reacionário onde leio postagens mentirosas, a cada mensagem estúpida e detratora que leio no twitter, apesar de fazer o meu estômago revirar (nem nos meus piores pesadelos acharia que os adversários pudessem fazer uma campanha tão baixa), aumenta a minha gana para sair às ruas, conversar com as pessoas, discutir política, ouvi-las e dizer porque minha candidata é Dilma Rousseff.

Meu pai e minha mãe estavam de viagem marcada para Salvador para o final de setembro e adiaram-na para o dia 04/10. Eles votarão em Dilma Rousseff. A Ana, mensalista aqui de casa, vai se deslocar até a sua cidade pra votar em Dilma Rousseff.

Quanto a mim, mantenho viva aquela adolescente do comício da praça Princesa Isabel, a mesma adolescente que lutou por melhores condições de vida e trabalho, que ia para Vila Socó discutir política com os trabalhadores, que se indignou e brigou para que Cubatão deixasse de ser o Vale da Morte. Por isso, nos próximos cinco dias até a eleição vou continuar ligando e conversando com todos os que conheço, convidando-os a refletir sobre a importância de suas escolhas para o futuro do nosso país.

A mídia que vota em Serra e que durante oito anos fez oposição ferrenha ao presidente Lula, chamando-o até de estuprador (sem sofrer qualquer tipo de censura por parte do presidente) está fazendo seu trabalho. Está defendendo seu projeto neoliberal, privatizador, excludente, porque a vitória de Serra assegura seus interesses econômicos. Esta mídia não mediu e não medirá esforços pra conseguir seu objetivo. Ela não tem ética alguma, publica notícias e documentos falsos, como a Folha de São Paulo fez quando publicou, em primeira página, a ficha falsa de Dilma produzida por um blog de extrema-direita.

Resta-nos, portanto, a mim e a todos os brasileiros que fazem oposição a este projeto conservador e reacionário, com nosso trabalho de formiguinha,  resistir,  ir à luta e garantir a vitória de um Brasil mais inclusivo e cidadão. À luta, companheiras e companheiros e até a vitória sempre.
Imagem: Internet

Emails falsos sobre Dilma Rousseff

Do blog Sejaditaverdade:

O site "Seja dita verdade" fez um trabalho de análise, investigação e resposta a todos os e-mails falsos que circulam sobre Dilma Rousseff. Basta acessar nos links.
 
Neste espaço está uma compilação dos emails falsos que circulam nesta campanha sobre Dilma Rousseff e seus respectivos desmentidos.  
 
Cada link remete ao leitor ao texto em questão.

A morte de Mário Kosel Filho: http://migre.me/1pfAb
A Ficha Falsa de Dilma Rousseff na ditadura http://migre.me/1pfCc
O porteiro que desistiu de trabalhar para receber o Bolsa-Família http://migre.me/1pfEJ
Marília Gabriela desmente email falso http://migre.me/1pfSW
Dilma não pode entrar nos Estados Unidos http://migre.me/1pfTX
Foto de Dilma ao lado de um fuzíl é uma montagem barata http://migre.me/1pfWn
Lula/Dilma sucatearam a classe média (B) em 8 anos: http://migre.me/1pfYg
Email de Dora Kramer sobre Arnaldo Jabor é montagem http://migre.me/1pfZH
Matéria sobre Dilma em jornais canadenses é falsa: http://migre.me/1pg1t
Declarações de Dilma sobre Jesus Cristo – mais um email falso: http://migre.me/1pg2F
Fraude nas urnas com chip chinês – falsidade que beira o ridículo: http://migre.me/1pg58
Vídeo de Hugo Chaves pedindo votos a Dilma é falso: http://migre.me/1pg6c
Matéria sobre amante lésbica de Dilma é invenção: http://migre.me/1pg7p


À Direita

26 de setembro de 2010

CAMPANHAS ELEITORAIS

Laerte Braga, jornalista


A enxurrada de mails com “denúncias” e “piadas” em torno da candidata Dilma Rousseff sugere o que poderia vir a ser um eventual governo José Arruda Serra. Pornografia política. E erros simples de divisão, aritmética. Numa aula onde “explicava” os dados e cálculos que usou para chegar ao salário mínimo de 600 reais as contas expostas no quadro, ou lousa como gostam de dizer no esquema FIESP/DASLU, estavam erradas.

É só ir lá e olhar.


É o reflexo do que fez pela educação prefeito e governador em mandatos inacabados (a despeito do compromisso assinado de cumpri-los até o fim).

Ou do desespero diante da perspectiva de derrota.

A falta de argumentos ou programa é absoluta. Sobra a maledicência, a calúnia, o modo sujo de fazer campanha e a mania de denúncias feitas sem qualquer base ou comprovação.

Como aquela de 200 mil reais num envelope pardo. Nem tocam mais no assunto quando se provou que no tal envelope de VEJA não caberiam 200 mil reais. E muito menos os contratos assinados no governo de Serra com a EDITORA ABRIL, sem licitação e com evidente caráter de compra da opinião do grupo.

Do contrário, fossem as denúncias reais, o jornalista Diogo Mainardi não teria fugido do Brasil para evitar sua prisão. É que, em denúncias anteriores, questionado e desafiado a prová-las na Justiça, o dito cujo não provou nada, está indenizando as vítimas de calúnias e escapando do processo criminal.

Era o menino de ouro de VEJA.

Nem a FOLHA DE SÃO PAULO teve como evitar o volume de restrições e ressalvas feitas às contas de José Arruda Serra em 2009. Está lá, na edição de domingo, 25 de setembro. Tribunal de Contas de São Paulo.

Vendam seus candidatos como o mundo dos negócios vende seus produtos”. Leonardo Hall, presidente do Partido Republicano em 1956. Putz! Em 2010 o PSDB e o DEM com o PPS agarrado num conselho qualquer, seguem à risca a lição.

O diabo é a data de validade. Ou o produto que estão tentando “vender”.

O produto passa a ser o candidato. Sua embalagem é seu aspecto físico, sua maneira de falar, de sorrir, de se mexer. Sua definição, seu posicionamento é seu programa”.

Serra é untuoso, aquele tipo glostora, não importa que seja careca, aliás, queria dois carecas, ele e José Roberto Arruda.

Ernest Dichter, psiquiatra, fundador do Instituto for Motivational Research tinha como objetivo principal “desvendar as motivações ocultas dos clientes a fim de melhor orientá-los para este ou aquele produto”. É dele a citação acima.

Em 1939, lá atrás mesmo, a propósito do sabão Ivory. “o sabão não era avaliado tanto pelo preço, pela aparência, pela espuma, ou pela cor e sim pelo conjunto dessas qualidades somadas a outra, imponderável e quase evanescente e que denominei personalidade do sabão.”    

José Arruda Serra, uma espécie de escorpião que escorrega e tem a capacidade de se transformar em tira manchas mesmo que as manchas não saiam e tenham sido geradas por ele e seus miquinhos amestrados.

Ou Marina da Silva, a verde que vira marrom e toma a forma de um camaleão.

A revista VEJA exala ares de indignação com a resposta de vários setores sociais a esse jornalismo marrom, podre, que pratica. Fala em liberdade de expressão.

Liberdade de informar, de comunicação.

É óbvio. Mas e mentir?

Do automóvel à televisão, todos os bens selecionados pelo sistema espetacular  são também suas armas para reforço constante das condições de isolamento das multidões solitárias. O espetáculo encontra sempre mais e de modo mais concreto, suas próprias pressuposições.

Mais ou menos a história do ladrão de galinhas que consegue montar um galinheiro, um complexo de abatedouros e frigoríficos, etc, etc, e no final da história mantém aquele negócio de roubar galinha por hobby. O delegado puxa a cadeira e manda o cara sentar, pede desculpas e pergunta se quer cafezinho.

FHC por exemplo.

A afirmação acima é de Guy Debord em A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO (Contraponto).

Arruda Serra é “evanescente”.

VEJA é o espetáculo da indignação do bandido.

“Sou culpado majestade, pago a minha dívida com a sociedade”

“Soltem esse homem, é o único que fala a verdade aqui”. Um califa em visita a um presídio onde até então todos eram inocentes.

VEJA já colocou vaca dando leite sabor baunilha em furada jornalística sem tamanho, falando em avanço espetacular da ciência.

E a GLOBO?

Que tal as conclusões do Tribunal de Contas de São Paulo sobre os superfaturamentos de Arruda Serra?

Há uma tentativa de depreciar a candidata Dilma Roussef, que não se estende a Marina da Silva, na sua condição de mulher. Enxergam Marina dócil ao modelo, ao sistema, é esse o papel que cumpre.

Na cabeça dessa gente, VEJA, GLOBO, etc, como diabos u’ a mulher pode pretender governar o Brasil? E ainda mais indicada por um trabalhador, um presidente de origem na classe operária?

Pô! Cumé que fica a elite FIESP/DASLU e todas as parafernálias em torno com esse negócio de festa junina em junho, todo mundo de chapéu de palha?

Por trás do preconceito contra Dilma está o preconceito contra a própria liberdade que defendem como se fossem os detentores da chave da porta da democracia.

São pilantras.

Candidato sabão.

Jacqueline Kennedy, pouco antes do marido ser assassinado, chegou a enviar um bilhete a uma assessora, estava começando a campanha da reeleição de John Kennedy, relatando as agruras de ser apenas mulher numa sociedade machista.

Chego até a achar que se Pierre (Salinger) resolver me fazer aparecer com as crianças na capa de Look, mergulhada num banho de espuma, eu não terei como fugir a isso” (O ESTADO ESPETÁCULO, Roger-Gérard Schwartzenberg, Difel, 1978)

Hoje esse tipo de coisa assusta e evanesce no candidato sabão e as tecnologias geradoras de mulher Melancia, mulher Melão, mulher Pera, o pomar inteiro.

Qual o sentido disso?

Peçam uma idéia a esses veículos ditos de comunicação ou a essa chuva de mails dizendo que Dilma é isso, Dilma é aquilo, peçam uma idéia?

No máximo um penduricalho no cérebro.

Transformar a mulher num objeto?

É repugnante a mídia privada no Brasil. Dizer isso não fere nem a liberdade de expressão, nem o direito de informar e comunicar, fere o caráter criminoso de organizações sustentadas por elites econômicas e mentirosas.

Todas as vezes que esse assunto liberdade de expressão vem a baila eu gosto de perguntar – que tal a legislação dos EUA por aqui? Será que a GLOBO topa?

É só uma comparação, uma pergunta. Por lá esse tipo de monopólio apesar de FOX, CNN, é destroçado em pouco tempo. E rádios comunitárias são abertas aos montes.

O que eles querem é a “liberdade de expressão deles”. Só isso.

No duro mesmo? Arruda Serra e só um Tiririca metido a FHC. Com uma diferença . O original deve ter mais de um milhão de votos por conta exatamente do modelo gerado por esse monte de Faustão que nos defende de bactérias e coisas que tais.

Ou a turma do BBB, Boninho, jogando água suja em mulheres que passam e ao talante dessas deslumbrantes personalidades, “nossos heróis”, não têm conduta adequada aos padrões Barra da Tijuca.

Então, tome pancada. É isso que pensam desde os tempos da ditadura militar.

E cá prá nós, por desastre que Tiririca possa ser (num sei, só o conheço de ouvir falar), pior que Arruda Serra não é. Não tem como.

Caminhada da Unidade Popular arrasa no Brique

 
A adesão à caminhada do candidato Tarso Genro [PT] da Unidade Popular pelo Riogrande apavorou os demais partidos de oposição, que também se encontravam no Brique na manhã de domingo. Estes fecharam parte da José Bonifácio, postando-se no meio da rua, impedindo o percurso completo da caminhada e a visualização dos participantes, pelo público que visitava a feira, na sua inteireza.

Apesar do gesto indelicado de quem não sabe perder, foi impossível esconder as bandeiras, adesivos e a voz de quem cantava "Tarso aqui/Dilma lá" nesta manhã nublada de domingo.

Para quem não via tamanha mobilização política partidária deste quilate, por parte do Partido dos Trabalhadores, sexta-feira e domingo, em Porto Alegre, foi de lavar a alma.

Foto: Cristhine Genro da página Tarso13.

Marido Biônico 2


25 de setembro de 2010

Marido biônico


A educação fundamental e o ensino médio tem sido um desastre nesse Estado, pelo visto, tanto em escolas públicas, como em escolas privadas. Ao ver jovens fazendo campanha para a Ana Amélia Lemos,  candidata ao senado, gente dos seus 20 e poucos anos, e relacionar com a minha vida, em que até os 24 anos vivi sob regime de ditadura civil-militar, choca-me a completa ignorãncia da juventude com o significado da sigla PP!

Ana Amélia é representante da antiga ARENA, sigla de apoio civil aos militares! E tem jovem que faz campanha e vota nela! O que faz a RBS nesse estado: camufla a origem partidária desta senhora, que se passa de democrática, com credibilidade e ligada na juventude!

Este mundo está perdido!

Claudia

Os mandatos de esquerda e a mídia

“Tem dia que determinados setores da imprensa brasileira chegam a ser uma vergonha. Se o dono do jornal lesse o seu jornal e o dono da revista lesse a sua revista, eles ficariam com vergonha do que eles estão escrevendo exatamente neste instante. E eles falam em democracia.”
Presidente Lula, 16/09/2010

Essa declaração do Presidente Lula foi feita em Campinas, SP, no dia 16 de setembro de 2010. Fica difícil saber, se ele estava sendo irônico, se estava brincando, ou falando sério. E, se foi a sério, e tudo leva a crer que era, tanto pior. Porque parece, que os celetistas da mídia corporativa tem completa autonomia para fazerem jornalismo ao seu talante. Lula, como ex-sindicalista, deveria saber que numa empresa privada – e isso vale também para a mídia – quem manda é o patrão. Tudo o que é editado e publicado só é feito de acordo com a vontade do dono. Esses empregados, que se tem na conta de jornalistas, são meros paus mandados e só fazem o que o patrão ordena, ou permite. Assim, não se entende, nesse momento tão crítico da vida brasileira, o porque desse rodeio do Lula para dar nome aos bois. Estaria ele, mais uma vez, evitando um confronto direto e inadiável com a mídia corporativa? Foi o que nos pareceu.

No entanto, como sempre, os donos da mídia não se sensibilizaram com seu gesto de boa vontade de jogar a culpa nos paus mandados, a fim de isentá-los da responsabilidade desse grotesco udenismo tardio e golpista. Tanto que Lula teve que voltar a carga, uma semana depois, e dizer, com todas as letras, aquilo que os movimento pela democratização das comunicações denunciam, à exaustão, há 20 anos:

"Temos nove ou dez famílias que dominam toda a comunicação desse país"

Seja lá como for, tais declaração saem de sua boca com, pelo menos, 8 anos de atraso. E agora? Depois de ter feito essa contundente denúncia, o que nós deveremos esperar do Lula e de Dilma Rousseff, caso se confirme as previsões das pesquisas, que a apontam como a nova Presidenta do Brasil? Sim, porque ela é tão vítima, quanto o Presidente Lula dessa megaoperação de desestabilização institucional. Devemos entender tais palavras como prenúncio de que o problema “mídia” será, finalmente, enfrentado no Brasil, ou isso é mais um desabafo no calor da campanha eleitoral? Terminada as eleições, Lula e/ou Dilma enfrentarão essa permanente ameaça midiática, da qual nossa vida republicana é refém, ou rastejarão, pedindo perdão pela ousadia de ter denunciado as práticas golpistas desse oligopólio?

Dilma, caso eleita, deixará claro, para a mídia, que o que lhe fizeram não ficará no barato, ou inebriada pela vitória, dará uma entrevista exclusiva para a Rede Globo? Dilma sinalizará, para o baronato midiático, de que nada mais será como antes, ou passará mais 4 anos, empurrando com a barriga, as resoluções da I CONFECOM? Conferência esta que o Lula postergou o quanto pode e só garantiu a sua realização no apagar das luzes do seu segundo mandato e, ainda por cima, da maneira imposta pelas empresas de comunicação.

Presidente Lula, candidata Dilma Rousseff, Partido dos Trabalhadores e quetais aprenderam, finalmente, nessa campanha, que a mídia é inimiga estratégica e figadal do campo progressista? Entenderam, que as medidas que precisam ser tomadas são impostergáveis, sob pena de um próximo governo ser inviabilizado pelo denuncismo sistemático?

Se temos dúvidas e preocupações ao quanto disso tudo que aconteceu, em termos de [mau] comportamento midiático, foi assimilado pela esquerda, ao ponto de provocar uma mudança de postura em relação à mídia, aqui, no RS, as coisas não andam melhores. Pois não foi o candidato Tarso Genro dizer, em programa de televisão, que a mídia no RS é independente?!?!?!? Independente em relação ao que? 

Para entender o sentido da declaração do candidato, ou quem sabe, até para tentá-lo fazer entender o sentido da sua própria declaração, é conveniente fazer uma rápida recapitulação do panorama político do RS nos últimos tempos. Não é segredo, para ninguém, que a atual governadora foi alçada ao poder com apoio irrestrito das empresas de comunicação no estado, particularmente, do famigerado Grupo RBS, de quem Yeda Crusius [PSDB] foi funcionária.

Tendo chegado ao poder, essa personagem nos brindou com aquilo que pode ser considerado o governo mais corrupto da História pós-ditadura civil-militar, quiçá, o mais corrupto de toda a nossa História mesmo! Yeda Crusius não mediu esforços para atropelar os princípios republicanos mais comezinhos. Seu governo foi uma sucessão interminável de escândalos, culminando com o maior de todos, que é o uso do serviço de segurança do Estado para espionar seus adversários políticos, entre os quais, encontra-se o próprio Tarso.

Não bastasse isso, senhas do Guardião, segundo denúncias do Ministério Público Estadual, foram entregues a jornalistas da RBS. Assim, se uma empresa de mídia ajuda a eleger uma governadora, pactua com ela, ao ponto de blindar o seu governo contra as sucessivas denúncias de corrupção, e ainda se utiliza do aparato do estado para sabe-se lá que uso fazer dele, como é que esta mídia pode ser independente de alguma coisa?

Estaria o candidato tentando “apaziguar” a mídia, com o objetivo de ser poupado por ela? Fazendo isso, está cometendo o mesmo erro que o Presidente Lula, pois foi exatamente desta maneira que ele agiu nos quase 8 anos de seu mandato e, agora, colhe os frutos da sua vacilação em regulamentar a atuação da mídia no país.

Se Tarso Genro ainda tem dúvidas de como a mídia irá trata-lo, caso eleito governador do RS, basta rever um videozinho que anda correndo pela Internet, em que o agenciador de salames coloniais, Lasier Martins, entra de sola no candidato, ressuscitando José Dirceu e “mensalão”, mesmo com a empresa, onde ele é pau mandado, atolada até o pescoço nesse escabroso episódio da arapongagem no Piratini.

E, se ainda assim, fica difícil do candidato entender as relações espúrias e nebulosas, que fazem com que a nosso mídia não possa ser independente jamais, colocamos as coisas de uma forma mais simples: a mídia elege Yeda, que coloca o aparelho do estado a serviço de interesses privados, que espiona os cidadãos, entre eles, Tarso Genro. Portanto, a mídia, sendo copartícipe dessa façanha que não deve servir de modelo a nossa terra, também atenta contra a cidadania. Exatamente em que momento a mídia é independente?

Só se for independente de compromissos éticos com a qualidade da informação e com o cumprimento das leis. 

Eugênio Neves

24 de setembro de 2010

A imprensa como partido político

Por Washington Araújo em 20/4/2010 no Observatório da Imprensa
Esperei baixar a poeira. Em vão, porque a poeira existiu apenas na internet. E tudo porque me causou estranheza ler no diário carioca O Globo (18/3/2010) a seguinte declaração de Maria Judith Brito, presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e executiva do grupo Folha de S.Paulo:
"A liberdade de imprensa é um bem maior que não deve ser limitado. A esse direito geral, o contraponto é sempre a questão da responsabilidade dos meios de comunicação e, obviamente, esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada. E esse papel de oposição, de investigação, sem dúvida nenhuma incomoda sobremaneira o governo." E como a poeira não baixou resolvi colocar no papel as questões que foram se multiplicando, igual praga de gafanhotos, plantação de cogumelos, irrupção de brotoejas. Ei-las:

1. É função da Associação Nacional de Jornais, além de representar legalmente os jornais, fazer o papel de oposição política no Brasil?

2. É de sua expertise mensurar o grau de força ou de fraqueza dos partidos de oposição ao governo?

3. Expirou aquela visão antiquada que tínhamos do jornalismo como sendo o de buscar a verdade, a informação legítima, para depois reportar com a maior fidelidade possível todos os assuntos que interessam à sociedade?

4. Como conciliar aquela função antiquada, própria dos que desejam fazer o bom jornalismo no Brasil, como tentei descrever na questão anterior, com a atuação político-partidária, servindo como porta-voz dos partidos de oposição?

5. Sendo o Datafolha propriedade de um dos grandes jornais do Brasil e este um dos afiliados da ANJ, como deveríamos fazer a leitura correta das pesquisas de opinião por ele trabalhadas? O Datafolha estaria também a serviço de uma oposição "que no Brasil se encontra fragilizada"?

6. Na condição de presidente da Associação Nacional dos Jornais (ANJ) será que Maria Judith Brito não se excedeu para muito além de suas responsabilidades institucionais?

7. Ou será próprio de quem brande o estatuto da liberdade de imprensa que entidade de classe de veículos de comunicação assuma o papel de oposição política no saudável debate entre governo e oposição?

8. Historicamente, sempre que um dirigente ou líder de partido político de oposição desanca o governo, seja justa ou injustamente, é natural que o governo responda à altura e na mesma intensidade com que o ataque foi desferido. Mas, no caso atual, em que a ANJ toma si para a missão de atuar como partido político de oposição, não seria de todo natural esperar que o governo reaja à altura do ataque recebido?

9. E, neste caso, como deveria ser encarada a reação do governo? Seria vista como ataque à liberdade de expressão? Ou seria considerado como legítima defesa de da liberdade de expressão ou de ideologia?

Claro e transparente

10. Durante o período de 1989 a 2002, em que a oposição política no Brasil esteve realmente fragilizada, e ao extremo, não teria sido o caso de a ANJ ter tomado para si as dores daquela oposição, muitas vezes, capenga?

11. E, no caso acima, como a ANJ acha que teriam reagido os governos Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso?

12. Com o histórico de nossos veículos de comunicação, muitos deles escorados em sua antiguidade, como aferir se há pureza de intenções por parte da ANJ em sua decisão de tomar para si responsabilidade que só lhe poderia ser concedida pelo voto dos brasileiros depositados nas urnas periodicamente? Não seria uma usurpação de responsabilidade?

13. Afinal, não é através de eleições democráticas e por sufrágio universal e secreto que a população demonstra sua aprovação ou desaprovação a partidos políticos?

14. Será legítimo que, assinantes de jornais e revistas representados pela associação presidida por Maria Judith Brito passem, doravante, a esmiuçar a cobertura política desses veículos, tentando descobrir qual a motivação dessa ou daquela reportagem, dessa ou daquela nota, dessa ou daquela capa?

15. E quanto ao direito dos eleitores de serem livremente informados... que garantias estes terão de que serão informados, de forma justa e o mais imparcial possível, das ações e idéias do governo a que declaradamente se opõe a ANJ?

16. Para aqueles autoproclamados guardiães da liberdade de expressão e do Estado democrático de direito: será papel dos meios de comunicação substituir a ação dos partidos políticos no Brasil, seja de situação ou de oposição?

17. Em isso acontecendo... não estaremos às voltas com clássica usurpação de função típica de partido político? E não seria esta uma gigantesca deformação do rito democrático?

18. Repudiam-se as relações deterioradas entre governo e mídia na Venezuela, mas ao que tudo indica nada se faz para impedir sua ocorrência no Brasil. Ironicamente, os maiores veículos de comunicação do país demonizam o país de Hugo Chávez. A origem do conflito político na Venezuela não está umbilicalmente ligado ao fato que na Venezuela os meios de comunicação funcionam como partido político de oposição, abrindo mão da atividade jornalística?

19. Esta declaração da presidente da ANJ, publicada no insuspeito O Globo, traduz fielmente o objetivo de a ANJ estabelecer a ruptura com o governo, afetar a credibilidade da imprensa e trazer insegurança a todos os governantes, uma vez que serve também aos governos estaduais e dos municípios onde a oposição estiver fragilizada?

20. Considerando esta declaração um divisor de águas quanto ao sempre intuído partidarismo e protagonismo político dos grandes veículos de comunicação do país, será que não seria mais que oportuno e inadiável a ANJ vir a público esclarecer tão formidável mudança de atitude e de missão institucional? Por que não abordar o assunto de forma clara e transparente nas páginas amarelas da revista Veja? Por que não convidar a Maria Judith Brito para ser entrevistada no programa Roda Vida da TV Cultura? Por que não convidá-la para o Programa do Jô? E para ser entrevistada pelo Heródoto Barbeiro na rádio CBN? Por que não solicitar a leitura de "Nota da ANJ"sobre o assunto no Jornal Nacional? Por que não submeter texto para publicação na seção "Tendências/Debates" do jornal Folha de S.Paulo, onde a presidente trabalha? De tão interessante não seria o momento de a revista Época traçar o perfil de Maria Judith Brito? E que tal ser sabatinada pela bancada do Canal Livre, da Band?

Prudente e sábio
Já que comecei falando de estranheza, estranhamento etc., achei esquisito a não-repercussão ostensiva da fala da presidente da ANJ junto aos veículos de seus principais afiliados. Estratégia política? Opção editorial? Ou as duas coisas?

Finalmente, resta uma questão de foro íntimo: que critério deverei usar, doravante, para separar o que é análise crítica própria de um partido político, para consumo interno de seus filiados, daquilo que é matéria propriamente jornalística, de interesse da sociedade como um todo?

Todos nós, certamente, já ouvimos centenas de vezes o ditado "cada macaco no seu galho". E todos nós o utilizamos nas mais diversas situações. O ditado é um dos mais festejados da sabedoria popular, é expressão de conhecimento, nascido da observação de fatos; um aprendizado empírico. Vem de longa data e se estabelece porque pode ser comprovado através da vivência e mais recentemente foi citado por Michel Foucault e Jurgen Habermas. No caso aqui abordado, o ditado popular cai como luva assim como as palavras de Judith Brito ficarão por muito tempo gravadas no bronze incorruptível da nossa memória.

Mesmo assim sinto ser oportuno aclarar que entendo como papel da mídia atividades como registrar, noticiar os fatos, documentar, fiscalizar os poderes, denunciar abusos e permitir à população uma compreensão mais ampla da realidade que nos abarca. Neste rol de funções não contemplo o de ser porta-voz de partido político, seja este qual for. Ora, o governo tem limites de ação: operacionais, constitucionais, políticos. A mídia, quando não investida de poderes supraconstitucionais, também tem seus limites que não são tão flexíveis a ponto de atender as conveniências dos seus proprietários ou concessionários. É prudente e sábio reconhecer que em uma sociedade democrática todos os setores precisam de regulação – e a mídia não é diferente. E é bom que não seja. Afinal, a lei é soberana e a ela todos devem se submeter, já escrevia o pensador Shoghi Effendi (1897-1957) na segunda metade de 1950. Nada mais atual que isto.