24 de maio de 2005

Partidarização e Ideologização

A cada disputa política, algumas questões vêm à tona com mais intensidade. Não que elas não estejam presentes no nosso dia-a-dia. Mas é no período eleitoral que aparecem na sua real dimensão. Que questões seriam essas? Trata-se da “ideologização” e da “partidarização” do governo. É comum ouvirmos essas "preciosidades" da boca dos “comunicadores” da mídia e de outras pessoas representativas de diversos setores da comunidade.

Não sou especialista em teoria da comunicação e tão pouco em ciência política. Observo o cenário político como um leigo. Porém, muito atento. Fico tentando me lembrar desde quando essas expressões começaram a fazer parte do vocabulário das pessoas e do meu próprio. Remexendo nas minhas lembranças – quero deixar claro que estou falando de uma experiência estritamente pessoal – lembro da palavra ideologia sendo usada nos anos 60 e 70, em plena Guerra Fria (GF), período no qual atravessei a minha infância e minha juventude. A expressão “ideologia”, nessa época, utilizada pela mídia e pela grande maioria das pessoas, era para se referir a alguma coisa nebulosa, que ninguém sabia exatamente o que era, mas atribuía-se aos "comunistas". Russos e chineses, principalmente. Era alguma coisa que “eles tinham”, era uma espécie de característica malévola, perigosa e que, via de regra, vinha associada à outra expressão: "lavagem cerebral".

O período da GF caracterizou-se pelo confronto bipolar: americanos e europeus ocidentais de um lado e comunistas soviéticos e europeus orientais de outro. Ou ainda um confronto entre leste e oeste, entre o mundo cristão ocidental e o comunismo ateu. O ocidente, curiosamente, a despeito de defender pontos de vista nitidamente ideologizados, nunca se referiu a si mesmo como portador de uma ideologia. “Ideologia” era coisa que os "comunistas" tinham, que ninguém sabia o que era, mas que era ruim.

Esse conceito de ideologia perpassou o discurso do chamado bloco ocidental - inclua-se aí o Brasil sob a ditadura do regime militar – e nunca foi devidamente questionado, tanto que nos discursos dos empolgados generais golpistas, com seus dedos em riste e suas papadas trêmulas, sempre havia uma citação às “ideologias exóticas” que ameaçavam a nossa ditadura absoluta travestida de democracia relativa.

O conceito de ideologia, ou seja, alguma coisa ruim que vinha lá do lado dos comunistas vermelhos e amarelos, permaneceu imutável durante todo esse período de GF e ditadura militar. Tal como o bloco ocidental, os militares brasileiros também não se referiam a si próprios como apoiadores de uma ideologia e, sim, como patriotas e defensores dos valores da cristandade brasileira, ameaçados pelas tais “ideologias exóticas”.

Com o desmantelamento do bloco soviético e o fim da GF, esse discurso das "ideologias exóticas" perdeu a sua razão de ser. Concomitantemente a isso, o Partido dos Trabalhadores (PT) passou a se estruturar no Brasil e o conceito de ideologia foi sendo adaptado para ser aplicado nesse novo contexto. Assim, o PT passou a ser o partido que tinha uma “ideologia” que, obviamente, não era do agrado da classe dominante brasileira. Tal como acontecia em âmbito internacional, essas classes nunca se referiam a si mesmas como portadoras de uma ideologia. Isto era coisa que só o “PT tinha”. Com o tempo, esse discurso vai se tornando rotineiro na mídia hegemônica, sempre apontando o PT como um partido de esquerda, radical, dogmático e “ideologizado”. Nunca como um partido que era formado por várias vertentes e tendências.

Claro que tal simplificação servia como uma luva aos interesses da classe dominante. Esse bordão “PT: partido autoritário” só se consolidou. Hoje em dia, é comum ouvirmos os tais "comunicadores" de plantão da mídia hegemônica afirmar que o PT “ideologiza a política”, “ideologiza a educação”, “partidariza o governo”. A impressão que se tem, é que essas pessoas sequer sabem o significado da palavra ideologia e tão pouco o papel que os partidos representam numa sociedade politicamente organizada. Isso tudo se torna mais trágico, na medida em que os tais comunicadores são "formadores" de opinião.

Mas se isso é uma tragédia, o que não é pouco, pior de tudo é ouvir, como ouvi num debate na TVE dia 6/10, dois cientistas políticos fazendo tais afirmações e agregando a isso conceitos de que a campanha do primeiro turno havia sido “menos ideológica e mais propositiva”. É o descalabro total! Ao assistir um programa de debates, com pessoas que se propõem especializadas em determinados assuntos, eu – e tenho certeza que mais gente – procuro, na explanação destes especialistas, alguma coisa que venha a enriquecer a minha capacidade de análise de uma determinada questão. Quando um cientista político diz, que partido X ou Y ideologiza as questões ou a administração pública, alguma coisa deve estar profundamente alterada. Parece que estes “especialistas” abdicam, voluntariamente em nome sabe-se lá do quê, do seu repertório de conhecimentos para fazerem diagnósticos corretos da realidade e se limitam a serem meros repetidores do "pensamento" ao estilo "lasiermartiniano”. A rendição dos especialistas ao discurso midiático é, realmente, uma coisa escabrosa.

A pergunta que me tira o sono é essa: em qual momento, em qual exato momento, em qual exato bilionésimo de segundo, as questões deixam de ser ideológicas para serem propositivas? Em qual momento isso acontece? Talvez eu não esteja sendo claro, mas vou tentar fazer a gênese dessa minha indagação. Acredito, piamente, que tudo começou, quando o homem desceu da árvore, pôs-se em pé na savana, elaborou o primeiro pensamento e emitiu o primeiro som que se assemelhasse não a um grunhido, mas à primeira palavra. Pode ser que as coisas não tenham acontecido exatamente nessa ordem. O homem poderia ter emitido a primeira palavra, quando ainda estava em cima da árvore, convidando o seu companheiro a descer com ele e se tornarem os primeiros pitecantropos erectus. Bem, mas a ordem que isso aconteceu não vem ao caso. O fato é que, quando o homem começou a dominar a palavra, passou a dispor de uma ferramenta com a qual ele transmitia o seu pensamento aos outros, a forma como percebia o mundo e, por conseguinte, as suas idéias. Na medida em que este indivíduo organiza um conjunto de idéias, a partir da realidade que ele observa e consegue adeptos para o seu modo de pensar, ele cria a ideologia. Simplificadamente seria isso.

Essa visão rudimentar de ideologia não deve ter mudado substancialmente no decorrer da história da humanidade, pois que ideologia continua sendo aquele conjunto de idéias que predomina num determinado grupo social, instituição ou nação e, via de regra, essas idéias representam sempre a visão que a classe dominante das instituições ou grupos sociais têm da realidade. Guardadas as devidas proporções, isso vale para a tribo da pré-história, como vale para as modernas instituições humanas. Posso estar enganado, mas gostaria que alguém me demonstrasse o contrário.

A ideologia impregna a nossa vida social de ponta a ponta. A ideologia está no PT; a ideologia está no carro que compramos; a ideologia está no livrinho vermelho do Mao; a ideologia está no ataque americano no Iraque; a ideologia está no programa da Xuxa; a ideologia está na coca-cola. Nada está acima ou abaixo da ideologia. Tudo está impregnado por ela. Nada que é produzido na sociedade humana está livre da sua influência. Tudo o que o ser humano faz, o faz a partir dos conceitos, das idéias, que ele tem da realidade. Assim, se o programa da Xuxa não consegue se livrar da marca ideológica, menos ainda um debate político.

Nesse sentido, como uma campanha política pode ser propositiva sem estar ideologizada, uma vez que estas propostas estão embasadas na idéia e no tipo de visão que o candidato tem da realidade em disputa? Pois se assim não fosse, se os candidatos não representassem partidos e esses partidos, em última instância, não representassem idéias, qual seria a sua função? Talvez os nossos caros “cientistas políticos” do programa da TVE confundam as coisas. Talvez eles confundam a falta de programa partidário consistente com não ter ideologia. O PFL, por exemplo, não tem programa, mas tem ideologia. O seu projeto político resume-se a permanecer no poder a qualquer custo. O curioso também é que o PFL nunca é acusado de partidarizar a administração. O PFL não só partidariza a administração, como “personaliza” o poder – vide o caso ACM na Bahia.

A difusão desses conceitos absurdos de ideologização e partidarização e outras barbaridades do gênero, nítidas construções midiáticas, estão invadindo até o mundo acadêmico, que deveria, pela sua própria natureza de formulador do pensamento, ter uma crítica clara sobre esse discurso. As conseqüências da incapacidade de analisar esse "discurso" com clareza, são funestas, na medida em que se estabelece uma grande confusão. E se esta confusão atinge os acadêmicos, o que podemos dizer do grande público?

Eugênio Neves.
24/10/2004

3 comentários:

Su disse...

viva!!!
já nãe era sem tempo :)

Su disse...

aqui está meu presente de boas vindas:
http://www.aypwip.org/webnote/dialogico
linkem ai no blog :)
abraço,
Su
*em tempo: mudem a configuração dos comentários, pois está permitindo apenas comentários de quem está inscrito no blogger.

Claudia Cardoso disse...

Su, já tomamos essa providência. Coisas de marinheiros de primeira viagem... hehehehehe
E obrigada pelo presente! Dá uma olhada nos links!