31 de dezembro de 2006

Yeda e o urso bêbado


Gentilmente cedida por Juska.
Há algum tempo rechaço essa crença, que domina a esquerda, de que a sabedoria emana do povo. Se assim fosse, não teríamos eleito um governo que nem assumiu e já coleciona uma lista de confusões no seu currículo. Onde reside a sabedoria de alçar ao poder uma personagem como Yeda Crusius? Passadas as eleições, nós tivemos um exemplo acabado do que era o "novo" que ela tanto alardeava e com o qual ela engrupiu o nosso eleitorado. Antes do fechamento das urnas, o governo do Rigotto era uma herança maldita. E, depois, Yeda aparece de mão dadas com o ele, falando no seu "legado". Na verdade, essa é uma questão de delegado, é um caso de polícia a canalhice dessa gente. A direita precisa mentir e a mentira é o espinha do seu projeto político. Yeda mentiu até o último minuto que não tinha nada a ver com o Governo Rigotto e, hoje, declara que está disposta a levar o seu projeto adiante. Alguém tinha dúvida disso? Tudo indica, que o nosso "sábio" povo tinha...
Após ter votado 16 anos no PT, o eleitorado embarcou numa aventura, elegendo o Fogaça. Não satisfeito, repete a dose com a Yeda. Se isso significasse uma renovação no cenário político, essas escolhas seriam justificáveis. Mas o que houve foi justamente o contrário: um brutal retrocesso com a direita reassumindo o controle da máquina pública. Isso só acontece, devido ao alto grau de despolitização do nosso pretensioso eleitorado. A esquerda, ao analisar as derrotas do PT, aponta, como causa, a disputa entre as tendências, a falta de empenho de parte da militância, erros cometidos pela direção do partido e outras afirmações do mesmo gênero. Mas isso me parece muito mais uma análise de quem vê as coisas de dentro do partido, do que propriamente uma preocupação do povo gaúcho. Não era isso o que se ouvia na boca das pessoas. O que se escutava, e se escuta, era "chega de PT", "Olívio mandou a Ford embora", " o PT é o partido mais corrupto da história brasileira" e, no caso da prefeitura, estava na "hora de mudar", cantilena essa produzida no caldeirão da marquetagem e repetida ad nausea pela mídia. É fundamental que a gente tenha isso claro, ou seja, o que é a nossa análise politizada e àquilo que a população amestrada repete.
Fico exasperado com algumas discussões que tenho enfrentado por aí, onde nós, do campo da esquerda, sempre acabamos taxados de sectários. À medida que a discussão evoluiu e o direitista da vez não consegue alinhar argumentos para te contrapor, ele acaba sempre saindo-se com essa. Não bastasse isso, ainda temos que engolir o discurso da ética e da honra, nova moda entre os direitosos a partir do episódio do mensalão. O PT foi crucificado, porque teria maculado a sua conduta em episódio de corrupção. O curioso é que, quem cobra isso, é um eleitorado que elegeu Maluf e boa parte da malta envolvida nos escândalos do mensalão e da sanguessuga. A esse respeito, cito Edgar Vasques em texto enviado à lista de discussões da GRAFAR - Grafistas Associados do RS:
"(...) Mas existe um outro fator que influi decisivamente na questão (e que está aparecendo aqui na lista): o pano de fundo histórico e cultural, especialmente importante no RS. Ao longo do tempo, construímos uma auto-imagem muito forte emocionalmente, para o bem e para o mal. Nos aspectos positivos, forneceu um sentido de identidade inestimável (que poucas regiões do Brasil já construíram); no lado negativo, tem o defeito de todas as construções emocionais: pode nos fazer preferir a emoção à razão, o mito à realidade. Aí é que entram discussões sobre "honra", "lealdade", etc., valores que são caros especialmente à classe média, à pequena-burguesia (que, aliás, é, históricamente, o perfil emocional da maioria da população do RS). Os burgueses, os grandes donos da grana, sempre foram, historicamente, ambíguos em relação a isso: fazem o discurso, mas, na hora H, mandam a "honra" às favas e fazem qualquer baixaria em defesa de seus interesses! Fazem parte desse grupo os grandes empresários (johanpeters e cia.), os latifundiários (sperottos e cia), quase toda a mídia (RBS à frente)... Por isso, é muito estranho alguém, em nome dos valores gaúchos, preferir Yeda ao Olívio (e não me refiro ao argumento igualmente emocional e irracional dela ser paulista). Por quê? Ora, o projeto ultraliberal é obrigado a mentir ao eleitor! Como é que alguém vai conquistar eleitores, dizendo a verdade neoliberal? Dizendo que vai vender o patrimônio público, que vai entregar os parcos recursos públicos aos empresários ricos, que vai demitir professores, médicos e policiais? Quem não lembra do Britto jurando "indignado" que não ia privatizar, exatamente o que fez a partir do primeiro dia do governo? Aliás, foi também por isso, por não ter honra, sendo descaradamente mentiroso, que os gaúchos não o reelegeram. E agora, Yeda repete o filme: jura que não quer privatizar, e é desmentida pelo fanático liberal Feijó, seu vice. De novo os neoliberais mentem e mascaram um discurso intragável. Onde está a honra?"
É claro que não espero a revolução, estamos cada vez mais longe disso, mas já seria a hora de termos um povo um pouco mais consciente e capaz de fazer distinção entre projeto político e marquetagem. Aí sim, penso que reside o grande erro do PT. Apesar de ficar 16 anos na prefeitura, ele não conseguiu fazer com que a população entendesse o seu projeto. Na primeira frase de efeito, ela o abandonou e se lançou entusiasticamente nos braços de aventureiros como o Fogaça. Talvez, quem sabe, as derrotas sucessivas do PT se devam a essas disputas internas que acabam consumindo uma energia que deveria estar sendo gasta nessa formação política. Não é a primeira vez que ouço isso, mas o curioso parece que existe unanimidade em todos as correntes do partido em relação a um tema, ou seja, a mídia. Nunca ouvi falar de uma disputa interna em relação a esta questão. E, no meu modesto entendimento, é por aí que a coisa se complica para o PT.
Também sei que o tempo histórico, lamentavelmente, não corresponde à nossa existência. Prevejo que vou morrer e continuarei vendo os gaúchos patinando nessa lambança despolitizada. Tenho repetido isso e volto ao tema. Quando Marx fundou as bases do seu pensamento, o mundo era completamente diferente do que é hoje. Temos que reconhecer a sua genialidade e a capacidade de compreender a economia e, particularmente, o capitalismo como fenômeno motor da História. Os fundamentos da sua análise continuam valendo até hoje. Mas por mais genial que fosse, e nem se pode cobrar isso dele, Marx não poderia imaginar àquilo em que o mundo viria a se transformar.
Por conta dos avanços tecnológicos, o homem é capaz de interferir no meio em que vive de uma forma que ameaça a sua própria existência como espécie. A evolução tecnológica se deu em todas as direções e um dos setores da vida moderna que mais tranformação sofreu foi exatamente o da informação. A coisa chegou a tal ponto, que hoje podemos falar que temos a realidade como se apresenta e como ela é apresentada pela mídia. O conceito de realidade sempre deu margem a interpretações na história da humanidade, mas, no momento em que vivemos, a questão do real e do imaginário tomou dimensões nunca antes vista. O imaginário, agora, não está só no mundo místico, mas em toda uma reconstrução do real, de acordo com os interesses dominantes. Tais interesses, amplificados pelo poder da mídia, tomam dimensões catastróficas, na medida em que induzem vastos setores da população a "escolherem" democraticamente de acordo com os desejos da classe dominante.
Assim, a cada aposta no "novo", ou a cada "chance" que o eleitor "dá", o processo de deterioração do nosso tecido social recrudesce, tornando cada vez mais difícil para o campo progressista reorganizar a sociedade dentro de um processo civilizatório aceitável.
A eleição de Yeda, e isso é evidente que boa parte da nossa população não compreende, significa mais uma etapa no desmantelamento do estado, tirando-lhe a possibilidade de ser a instância reguladora da sociedade. As privatizações que Yeda certamente fará, diminuirão ainda mais os instrumentos reguladores que um governo progressista poderia usar. Sem um banco estadual, restringe-se barbaramente a capacidade de investimento. Sem uma companhia de abastecimento de água, as políticas públicas de saneamento básico ficam imensamente prejudicadas.
A sanha neoliberal na perseguição do ideário do estado mínimo é uma catástrofe anunciada. Por exemplo, no campo da educação, as notícias sobre o Julinho são estarrecedoras. Quem não lembra desta escola que foi modelo de ensino público no estado? Quando era guri, ingressar nele era quase que passar num vestibular. De lá para cá, em função da falta de políticas públicas, esta instituição está reduzida a um campo de batalha entre os "manos" e os "funks".
Nada indica que o projeto de Yeda irá resolver essa situação, muito pelo contrário, só irá piorá-la. Assim como piorará, dada a sua visão de "empreendedorismo", tudo aquilo que diz respeito à preservação do meio-ambiente. Yeda fará copa franca do nosso estado às indústrias papeleiras que estão se instalando na zona sul. O desastre no rio dos Sinos e suas 84 toneladas de peixes mortos foi uma prévia do que poderemos esperar do seu governo nesta área.
Outro exemplo, são as notícias que apontam o crescimento da emissão de gases na atmosfera e o conseqüente aquecimento global e todas as catástrofes que dele advirão numa progressão geométrica e numa velocidade muito maior do que nós poderemos controlar. O que tem a ver tudo isso com a Yeda? Ela é tudo isso. O meu desespero é verificar que as pessoas não conseguem perceber essa relação. Ficam no meio do caminho, enredadas em questões de honra ou supostamente éticas, repetindo o discurso conveniente à classe dominante.
A cortina de fumaça levantada eficientemente pela mídia turva a visão inclusive das pessoas de quem esperávamos mais perspicácia. A minha grande irritação se dá, na medida em que as conseqüências dessas escolhas vão se fazendo notar. Os que "escolheram" não assumem a responsabilidade do que fizeram e saem atirando para tudo quanto é lado, usando aquela munição clássica que nós conhecemos bem: "esses político são tudo uns ladrão e uns corrupto". Os indivíduos que ocupam postos de liderança do mundo têm se mostrado criaturas dignas das pessoas que os elegem e vice-versa. Outro dia, em conversa com meu irmão, ele me contou, que os russos embebedaram um urso com mel e vodca, para que o Rei da Espanha não errasse o tiro na sua caçada.
P-U-T-A Q-U-E P-A-R-I-U !!!!! Será que não sobrou nada daquela revolução? Ou aquele povo é muito idiota?
Estou perdendo a paciência com a humanidade e o meu desespero aumenta, na medida em que o tempo encurta, o meu e o dela, porque esta merda toda acabará muito mal.
Eugênio Neves

2 comentários:

Stanis Fialho disse...

E o piór de tudo Eugênio é que eu só posso dizer que concordo contigo e não vejo nenhuma saída.

Eugênio Neves disse...

Eu tb não, principalmente, pq de onde deveria esperar mais ação, seja do PT ou dos outros partidos do campo da esquerda, não se vê nada acontecer.